Divulgada a prévia da inflação de fevereiro através o IPCA-15 (índice de Preços ao Consumidor Amplo, preços pesquisados entre o dia 16 de janeiro e 15 de fevereiro), indicando que a inflação brasileira ainda é o grande desafio. A taxa de 1,42% apurada pelo IBGE foi a mais alta para o mesmo período desde 2003. Aumentos nos custos dos alimentos, transportes e educação puxaram o índice para cima.
Operar em patamares acima de 1% ao mês é muito preocupante, notadamente em um país como o Brasil, que ainda mantém a memória inflacionária, remontando a um período cuja inflação batia os cinco mil por cento ao ano e, o que é pior, ainda possui mecanismos de indexação, isto é, de jogar para o futuro a inflação passada (reposição de salários, aluguéis, preços administrados, entre outros).
O índice chama a atenção pela magnitude, afinal, o próprio Banco Central previa trégua na inflação já a partir deste mês, tanto que optou em manter a taxa de juros básica da economia no mesmo patamar anterior, não utilizando este instrumento como controlador de preços.
Evidentemente que há questões sazonais que podem ser alívio para os meses futuros, afinal, a alta em educação, transporte e de alguns alimentos não se sustentarão por muito tempo, mas há outros preços que podem pressionar os índices inflacionários. Vale lembrar que são mais de 450 itens pesquisados pelo IBGE para definir a inflação mensal.
Diante deste cenário, o que fazer? Jogar a toalha, preconizar o caos como alguns analistas, inclusive apontando a volta da hiperinflação no Brasil? Evidentemente que a resposta é não. Seria muita incompetência da equipe econômica do governo federal permitir que a inflação desgarre do patamar atual. Ao longo do tempo foram criadas condições para que o Brasil pudesse operar com inflação abaixo dos dois dígitos, e o caminho para mantê-la controlada já é de conhecimento de todos.
Mesmo entendendo que as equipes econômicas, tanto da primeira gestão da presidente Dilma Rousseff como da segunda gestão, perderam a mão no controle da economia, seria uma catástrofe permitir o descontrole de preços no país.
O momento é delicado à medida que o ambiente é de estagflação (inflação alta, recessão e desemprego), deixando pouco espaço para manobras (a teoria do cobertor curto), mas as fichas mais pesadas devem ser na direção de manter o controle dos preços. Lembrando que o chamado imposto inflacionário atinge principalmente os menos favorecidos, que sem mecanismos de proteção, observem a queda do poder aquisitivo, potencializado ainda mais pela queda da renda.
Tenho insistido que no curto prazo apostar somente a política monetária não será capaz de reduzir a inflação em níveis suportáveis, portanto, penso que passou da hora de promover acordos setoriais, sem que isso caracterize abandono da economia de mercado. É preciso que os agentes econômicos sejam envolvidos no processo de controle de preços. E evidentemente para o longo prazo o governo gerar excedentes fiscais entre outras medidas estruturantes.
Evidentemente que para que isso ocorra é preciso credibilidade, capacidade de articulação e que o governo federal faça sua parte. Não é isso que se observa. De qualquer maneira, os números falam por si só: algo mais contundente tem que ser feito para que a inflação deixe de operar acima dos dois dígitos no acumulado anual.
A inflação ainda é o grande desafio.
O autor é economista, articulista do JC