Então descobrimos que o ex-presidente FHC tinha uma amante... e mais: teve um filho com essa mulher. Por essas razões podemos deduzir que talvez ele não tenha sido um bom marido. Na realidade, a fama de FHC “pular a cerca” não é de hoje... Remonta aos velhos tempos da USP da rua Maria Antônia... Essa amante, em particular, já era conhecida na USP desde os meus tempos de graduação.
Mas a relevância que a imprensa está dando a esse fato é objeto de um interessante tema sobre filosofia política. Desde Maquiavel, fundador da filosofia política moderna, o moralismo é - objetivamente - apenas uma ferramenta da manipulação, mas nunca um elemento efetivo no universo político.
Assim, segundo Maquiavel, é interessante ao príncipe ter a aparência de ser um homem com “moral”, um “bom cristão”, caracterizado pela retidão e pelos costumes aceitos pelo povo. Porém, no mundo da política real, nada disso pode ser determinante. O príncipe deve agir de forma a garantir que seu governo seja sólido e próspero. Maquiavel rompeu com a filosofia política medieval tomista, que defendia a efetiva aplicação do moralismo cristão no coração da política real.
Mas o “povo” - categoria um pouco abstrata, mas que se refere à maioria da população de nossa nação - junto com muitos jornalistas, parecem ainda não terem alçado essa forma de pensamento e ainda avaliam os políticos segundo critérios absolutamente irrelevantes, seguindo, dessa forma, uma perspectiva político-filosófica medieval. O próprio FHC já foi vítima desse “medievalismo” reinante na mentalidade da imprensa e do povo em geral. Quando disputava a eleição para Prefeitura de São Paulo contra Jânio Quadros - em um debate às vésperas da eleição - revelou que era ateu... Perdeu uma eleição considerada já ganha.
Agora temos esse caso de sua amante e é possível que todas as peripécias e detalhes íntimos dessa relação venham à tona. Para mim, tudo isso é absolutamente irrelevante. Não muda em absolutamente nada meu conceito sobre FHC. Porque minha posição sobre ele está circunscrito ao universo político. Somente isso.
Objetivamente falando, FHC foi um grande intelectual mas que executou uma política econômica a qual sou opositor. Mas em hipótese alguma sua vida particular pode ser combustível para uma maior ou menor oposição ao que ele representa. Esse tipo de debate não está à altura daquilo que precisamos na nossa República. Assim, mesmo sendo um opositor ao seu partido e aos princípios políticos que ele defende, coloco-me aqui em sua defesa contra o oportunismo que se avoluma para tentar crucificá-lo moralmente.
Nada disso é novo... Há boatos que dizem que Aécio Neves não segue as leis de trânsito... Se isso for verdade, deve procurar uma autoescola... Dizem ainda que ele destrata as suas namoradas... Se isso for verdade, diria a uma amiga a não ter um caso com ele... Mas se ele fosse um candidato que eu julgasse como o melhor para o nosso país, nele votaria sem pensar nesses elementos, que são de fórum íntimo. Esses mesmos princípios valem para qualquer outra personalidade política.
Quando os nossos desafios políticos são grandes, temos que parar de pensar pequeno, no estilo Big Brother Brasil... Afinal, no universo político, estamos a procura do melhor candidato ou de um marido para nossas filhas? Precisamos de uma política-econômica melhor ou de lições de comportamento conjugal? Mudando de universo, mas não de lógica: caso eu necessitasse operar meu coração, desejaria operar com o melhor médico. Se esse médico tem amante, é um mau pai, é ateu e destrata seu cachorro... pouco Importa! Eu optaria pelo melhor médico.
Nesse momento defender FHC não é defender a direita, mas sim combater as trevas do medievalismo na política. Caso estejamos, nesse caso, entre a opção de ser “de esquerda” ou a opção de ser “de direita”, afirmo categoricamente que chegou a hora de optar por sermos melhores.
O autor é professor de História/USP e diretor do Instituto de Ensino D’Incao