09 de julho de 2026
Articulistas

Nada acaba até que tenha acabado

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

As pessoas vêm fazendo previsões sobre o futuro desde o início da civilização. Seres humanos adoram fazer previsões, seja sobre o movimento das estrelas, as oscilações do mercado de ações ou a cor da moda da próxima estação. O problema real da previsão não é que sejamos bons ou ruins nesse quesito, mas, sim, saber distinguir previsões que podemos fazer com segurança daquelas que não podemos.


Compreender e tentar explicar o ocorrido no passado pode lançar luz sobre o que podemos prever no futuro. Mas, falar sobre o futuro é falar sobre uma “realidade” fabricada e tratada como se existisse no presente, é olhar para uma miragem ou para uma probabilidade. Pensar em acontecimentos futuros em termos de probabilidades é difícil até mesmo para um cara ou coroa. Isto porque, no caminho que nos leva ao futuro podemos nos deparar com muitas escolhas e encontrar muitas armadilhas, a maioria criada por nós mesmos, intencionalmente ou não. De todo modo, as encruzilhadas e as armadilhas são inevitáveis. Elas fornecem o cadinho em que podemos redefinir, aperfeiçoar e renovar nossa existência.


A humilhação de hoje pode ser a lição valiosa de amanhã; a missão cumprida de ontem pode ser a ironia dolorosa de hoje. Talvez cheguemos a descobrir que aquela pintura que compramos numa lojinha, era uma antiga e valiosa obra de arte. Talvez o dirigente da empresa em que escolhemos trabalhar esteja vinculado a um escândalo ético. Talvez nossos filhos atinjam grandes feitos e atribuam seu sucesso às pequenas lições que lhes ensinamos. Ou talvez nós os tenhamos, mesquinhamente, empurrados para a carreira errada e acabado com suas chances de felicidade verdadeira.


Escolhas que parecem insignificantes no momento em que as fazemos podem, algum dia, se revelar imensamente importantes. E outras que parecem incrivelmente importantes para nós agora, podem, mais tarde, parecer ter tido pouco efeito. Simplesmente não sabemos até que saibamos e ainda assim, podemos não saber, porque pode não depender apenas de nós, decidir. Na vida as escolhas ou os eventos que rotulamos como “resultados” nunca são pontos finais. São marcos artificialmente impostos, assim como o fim de um filme é, na verdade, artificial em uma história que, no mundo real, continuaria se desenrolando.


Existe sempre uma relação direta entre o futuro que não temos como conhecer e a ansiedade. A ansiedade e a dor, também, estão relacionadas. A primeira é a forma emocional da dor; a segunda, a forma física da ansiedade. Na mente, a ansiedade fomenta as víboras que a acompanham: preocupação, temor e apreensão. No corpo, dificulta a respiração e perturba até o ritmo natural do coração.


Poderia dizer que a vida é como uma noite escura em uma tempestuosa planície e, de repente, o fulgor de um relâmpago. Numa fração de segundo, talvez aquele clarão mostre um dos caminhos a seguir. Este é o padrão da vida: inspirações curtas e fugazes seguidas de longas batalhas em direção ao futuro. As ferramentas necessárias para estas batalhas são a determinação, a perseverança e uma obstinada repulsa ao desespero e a ansiedade.


Afinal de contas, o importante é que, quando não há mais nada a esperar do futuro, deveríamos estar preparados para fazer algo com a única coisa que nos resta – nós mesmos.


O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru