08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Ouro para o bem do Brasil

Mario Augusto Ferreira de Andrade
| Tempo de leitura: 2 min

Lendo o artigo da sra. Márcia Maria Pereira Sardinha (JC 28/02/16), muito bem elaborado, solicito a devida vênia para acrescentar: Bauru/1964 – Testemunha ocular da revolução que depôs João Goulart, eu, com 20 anos de idade, presenciei os fatos seguintes.


Dado o golpe militar, Bauru passou a receber diariamente comboios ferroviários lotados de soldados e armamento pesado (caminhões, tanques, canhões), haja vista ser um importante entroncamento ferroviário (Noroeste, Paulista e Sorocabana).  


Via-se nas ruas grande movimento de viaturas militares. Camionetas do exército estacionavam diante dos mercados, quitandas e tudo era requisitado. Sacos e sacos de cereais, legumes, ovos, etc eram retirados e os proprietários recebiam um tipo de vale para que fosse trocado depois pelo governo federal que estava se instalando.


O delegado de polícia e o promotor público, com a ajuda de terceiros que pertenciam ao CCC (Comando de Caça aos Comunistas), perseguiam e tentavam encontrar adeptos do comunismo, geralmente dirigentes de sindicatos, escolas e dissidentes. À época, onde hoje encontra-se a Livraria Jalovi, esquina da Rodrigues Alves com a Virgílio Malta, era a agência Ford (Salmen), onde eu trabalhava. A agência tornou-se o quartel-general da campanha “Ouro para o bem do Brasil”.


Vi famílias chegarem com todas suas jóias em ouro, inclusive alianças de casamento e depositarem-nas nas caixas. Uma febre patriótica tomou conta da população. Certo dia, um senhor idoso, residente em Piratininga, entregou uma caneta, daquelas de molhar no tinteiro, em formato de uma pena de águia, medindo uns 30 centímetros de tamanho, toda talhada em ouro maciço. No dia seguinte os filhos foram até a Ag. Ford e propuseram adquirir a jóia, pois tratava-se de um bem de família há muitas gerações. Foi chamado um perito que a avaliou e em troca de uma pequena fortuna conseguiram a devolução.


Para onde foi todo esse tesouro amealhado não sei precisar. Fica até hoje a interrogação: será que valeu a pena?