Além da morte violenta dos dois jovens, outro caso de polícia que beira o absurdo marcou o final da noite da última segunda-feira (29) em Bauru. Um adolescente de 16 anos participou de um assalto, na companhia de dois jovens e outro adolescente de 17 anos, contra seu próprio pai, um catador de recicláveis de 45 anos. O infrator estava encapuzado no momento do crime e só foi identificado pelo genitor na delegacia.
O crime ocorreu no Centro, por volta das 23h20 e a vítima chegou a ser agredida pelo quarteto, que fugiu levando uma mochila com a carteira do catador com R$ 1.915,11 em dinheiro.
A Polícia Militar conseguiu identificar o quarteto que seguia em um Peugeot 2006 cinza. O motorista Fábio Junior Pires, de 35 anos e o pedreiro Wellves Souza Aguiar, de 25, foram presos.
O filho da vítima e outro adolescente foram apreendidos. Os nomes não serão divulgados em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Perseguição
A abordagem ao catador de reciclagem ocorreu na quadra 18 da rua Antônio Alves, próximo à avenida Duque de Caxias, no Centro de Bauru. Segundo consta em boletim de ocorrência, ele caminhava quando o Peugeot parou e três pessoas desceram e anunciaram o assalto. Na ocasião, Wellves, que estava vestido com um moletom vermelho, teria segurado o catador enquanto os demais retiravam seus pertences e o agrediam.
Minutos após eles fugirem tomando a avenida como sentido, uma equipe de patrulha da Polícia Militar passou pelo local e foi informada pelo catador sobre o crime. O carro em que o grupo seguia foi identificado na Duque, na altura da rodovia Marechal Rondon.
O condutor do veículo não obedeceu ao sinal de parada e houve perseguição pela rodovia. O carro foi finalmente interceptado na altura de um trevo, próximo ao Núcleo Gasparini. Antes, porém, os ocupantes do veículo lançaram pela janela a mochila da vítima com o dinheiro e a carteira com documentos do catador.
Indagados pelos policiais, os jovens teriam confessado o crime e foram levados para a Central de Polícia Judiciária (CPJ).
Reconhecimento
Na delegacia, a surpresa desagradável. Ao ver que seu filho integrava o grupo de assaltantes, a vítima se emocionou e teria até cogitado retirar a queixa.
Os dois adultos foram detidos em flagrante. As mães dos menores foram chamadas na delegacia, mas apenas a do adolescente de 17 anos compareceu ao local.
A mãe do garoto de 16 anos, ex-mulher do catador, não foi localizada por telefone e o adolescente não soube indicar aos policiais o local onde ela reside atualmente.
A Conselheira Tutelar Viviane Scarabelo foi acionada na delegacia para acompanhar a apreensão do jovem. Em contato com a reportagem nessa terça-feira (1), a mãe do adolescente não quis comentar o fato.
Em conversa com a reportagem, a mãe do outro adolescente acusado disse que o garoto de 16 anos premeditou a ação e resolveu agir contra o pai porque teria sido abandonado em sua casa. “Conhecemos ele desde pequeno. Ele e meu filho são amigos. Os pais se separaram e a mãe dele mudou de casa há uns 15 dias, mas ele não foi junto. Ele abandonou a escola e tem passado fome. Soube que o pai estava com dinheiro e acabou fazendo besteira”, comenta a mulher, de 43 anos.
Ainda segundo ela, essa não seria a primeira vez que o filho assaltou o pai. O Conselho Tutelar informou que acompanha a situação da família há alguns anos. O órgão foi questionado sobre as ações tomadas para evitar conflitos na família em questão, no entanto, não formeceu mais detalhes, porque “o caso segue sob sigilo”.
Jovem leva irmão de 13 anos para furtar roupas
Na tarde de segunda-feira (29), mais um crime envolvendo família e juventude. Dois irmãos, de 19 e 13 anos, foram flagrados furtando duas lojas em um centro de compras localizado na rua Marcondes Salgados, na região do bairro Chácara das Flores.
Segundo a reportagem apurou com o pai dos jovens, um homem de 40 anos atualmente desempregado, o adolescente teria sido levado ao local, sem o conhecimento da família, por seu irmão mais velho, que já tem histórico de passagem pela polícia quando tinha 16 anos.
“Ele voltou a morar conosco há pouco tempo e achávamos que estava tudo bem. Estou desempregado e a nossa situação não é uma das melhores, mas nada justifica o crime. A honestidade é tudo e sempre ensinei isso a eles, mas não sei o que acontece”, lamenta o pai.
No boletim de ocorrência consta que eles foram flagrados, por meio do monitoramento eletrônico de uma loja de confecções, furtando peças como calças jeans e seis camisetas, por volta das 13h30.
Um alicate, além de um lacre metálico de segurança, foram encontrados em posse do acusado mais velho, no interior da bolsa que levava as roupas. Eles foram detidos pelos próprios funcionários ainda dentro do local. O jovem de 19 anos foi preso e responderá por furto qualificado e o adolescente entregue aos cuidados de sua mãe, que assinou um termo de compromisso em relação ao ato infracional praticado pelo filho.
Qual a origem de tudo isso? Psicólogo alerta para a carência afetiva e desestrutura familiar
| Quiosh Goto |
| Ulisses Herrera, psicólogo : “A base emocional vinda do ambiente familiar é fundamental nos primeiros anos de vida” |
Três tipos de crimes diferentes em um mesmo dia, cada qual com a sua gravidade, mas todos com algo em comum. Tanto a tragédia envolvendo os ex-namorados, quanto o assalto de um adolescente ao próprio pai e o furto cometido por influencia de um irmão mais velho carregam consigo o peso de envolverem jovens e relações familiares.
Especialista em terapia de casal e família, o psicólogo Ulisses Herrera explica que quase sempre a desestrutura do ambiente familiar está presente por trás de alguns tipos de crimes.
“A base emocional vinda do ambiente familiar é fundamental nos primeiros anos de vida e ajuda na formação do caráter da pessoa. Os vínculos devem ser estabelecidos desde o nascimento até os 8 anos de idade, no mínimo”, comenta Herrera.
“Muitos casos de violência ocorrem por carência afetiva, porque a pessoa não aprendeu a lidar com frustrações, perdas...”, completa o psicólogo. Ainda segundo ele, a mente de um agressor ou assassino passional entende a relação com outra pessoa como algo que irá salvá-lo.
“Ela acaba projetando toda sua satisfação, expectativa e felicidade no companheiro. E alimenta um sentimento de posse. Quando o relacionamento termina, essa imaturidade emocional vem à tona e a pessoa chega a acreditar no término de sua própria existência. Essa situação pode levar a um estado emocional extremo, de quase psicose, onde o agressor perde a noção da realidade”, avalia o psicólogo.
A diferença desses tipos de relações para um convívio saudável, segundo ele, está na forma como a pessoa consegue elaborar o luto. “Quando há carência afetiva intensa, há também baixa autoestima e a pessoa não consegue lidar com perdas, ela pensa que nunca mais conseguirá se relacionar com alguém”, reforça Herrera.
Sinais
O perfil de um agressor quase nunca desperta suspeita, mesmo quando têm antecedentes. Nem mesmo a convivência diária é certeza de que um perigo é tão real, por isso é preciso se ater a alguns sinais.
Ao longo da vida, o indivíduo mostra-se possessivo, impulsivo, “dono da verdade, explosivo, extremamente ciumento a ponto de cercear a liberdade do outro e de proibir certos comportamentos”.
Também é pouco disposto a manter uma vida social saudável, profere ameaças constantes, sejam elas veladas ou não e reage com violência às frustrações, seja por meio de agressões físicas ou verbais.