09 de julho de 2026
Bairros

Bauru é referência nacional em residência inclusiva

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 10 min

Alex Mita
Inauguradas em 2012, residências inclusivas da Apae são pioneiras; na foto, a unidade feminina 

As fachadas das casas são comuns como todas as outras da vizinhança. Elas não revelam dificuldades do passada ou os sonhos de hoje. Do lado de dentro, tudo muda de figura. Em cada quarto, os detalhes pessoais vão mostrando um pouco da personalidade de seus moradores, seus gostos e seus sonhos.

Referência nacional em residência inclusiva, Bauru conta com unidades, dirigidas pela Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), Ação Comunitária e Promoção Social São Francisco de Assis (Acop) e Associação Beneficente Cristã (ABC). Cada uma dessas entidades contam com duas casas, uma masculina e outra feminina.

Instituições de longa permanência, os seis lares juntos têm capacidade para receber 66 pessoas. Esta também é a média de atendimento atual. A equipe de referência é composta por cuidadores, ajudante geral e técnico de nível superior (psicólogos, assistente sociais, terapeuta ocupacional e coordenador). A equipe é especializada na área da assistência social e constantemente é capacitada para melhor trabalho com os residentes.

Público-alvo

O Serviço de Acolhimento em Residência Inclusiva é uma unidade que oferta Acolhimento Institucional, no âmbito da Proteção Social Especial de Alta Complexidade do Sistema Único de Assistência Social (SUAS). O serviço é destinado a jovens e adultos (maiores de 18 anos) com deficiência (em diferentes graus), com vínculos familiares rompidos, sem condições de autossustentabilidade e de retaguarda familiar, ou ainda que estejam em processo de desligamento de instituições de longa permanência.

Alguns têm demência, outros fizeram muito uso de álcool e perderam habilidades de raciocínio, alguns têm Alzheimer... Na maioria dos casos, os abrigados sofreram abandono ou fragilização dos vínculos familiares. Alguns são resgatados até mesmo das ruas. 

Piloto

De acordo com a secretária do Bem-Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo, as residências inclusivas bauruenses são piloto no Brasil. “Poucas cidades brasileiras têm esse modelo de inclusão. Nossas casas são modelo e conquistamos tal referência junto ao governo federal. Temos toda uma equipe de referência trabalhando nessas residências. Vem gente de outros municípios e estados conhecer os projetos. Pessoas de toda a Grande São Paulo, municípios da nossa região, como Marília e Presidente Prudente, cidades do estado do Mato Grosso, entre outros exemplos”, enumera.

Ainda segundo a titular da Sebes, Bauru se tornou modelo do projeto porque o município abraçou a ideia junto com a Apae, em 2011, pela necessidade de abrigar os meninos do Lar Escola Rafael Maurício. Foi encaminhado um projeto para Brasília e conseguimos o apoio. Em setembro de 2013, o pessoal do governo federal veio fazer o reconhecimento das nossas residências inclusivas e Bauru ganhou essa conotação de projeto piloto, grifa.

Apae representou São Paulo em Brasília

Divulgação
O coordenador do Serviço de Acolhimento da Apae Bauru, Roberto Franceschetti Filho, representou São Paulo em Brasília e apresentou o serviço de acolhimento em residência inclusiva de Bauru

Entre os dias 23 e 24 de fevereiro, ocorreu em Brasília, no auditório da Secretaria de Comercio Exterior MDIC, o “Encontro Técnico para Qualificação das Relações Institucionais nas Ofertas do Sistema Único de Assistência Social (SUAS)”. Na ocasião, o estado de São Paulo foi representado pelo munícipio de Bauru, através da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). No evento, o coordenador do Serviço de Acolhimento da Apae Bauru, Roberto Franceschetti Filho, apresentou o serviço de acolhimento em residência inclusiva de Bauru,  considerado modelo nacional de excelência na execução desse trabalho, onde a Apae é pioneira.

O evento contou com a presença da ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello; da secretária nacional de Assistência Social, Iêda Castro; da presidente da Federação Nacional das Apaes, Aracy Maria da Silva Lêdo; presidente da Federação Nacional das Associações Pestalozzi, Ester Alves Pacheco; do presidente da Subcomissão Permanente de Assistência Social da Câmara, deputado Eduardo Barbosa (PSDB/MG); do secretário executivo substituto do Ministério da Saúde, Neilton Araújo de Oliveira; do presidente do Conselho Nacional de Assistência Social, Edvaldo Ramos; e do conselheiro do Conselho Nacional de Promoção das Pessoas com Deficiência, Rubens Gil Júnior. Também estavam presentes um representante de cada estado brasileiro das Apaes e Pestalozzi.

Apae é pioneira no assunto

Primeira residência inclusiva de Bauru começou a ser projetada em 2007; ao menos 25 municípios já visitaram as unidades da entidade

Fotos: Alex Mita
Moradores da unidade masculina da residência inclusiva da Apae, Jeferson Rodrigo dos Santos e Elvis Alan de Souza estão inseridos no mercado de trabalho 
“Muitos sofreram algum tipo de violência no passado e a ressocialização é trabalhada resgatando a identidade”, comenta  o psicólogo da Apae Lázaro Leoni
“Além de receber outros municípios, nós viajamos para capacitar outras entidades”, lembra o coordenador do Serviço de Acolhimento da Apae Bauru, Roberto Franceschetti Filho

Respeitada como referência nacional, por ser a primeira a ser implantada, a residência inclusiva da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) Bauru teve início em maio de 2007, em convite feito pela  diretoria do bem-estar social de Bauru (Drads) para a realização de uma parceria e a construção de um novo modelo de acolhimento, que até então não era tipificado. Quem narra é o coordenador do Serviço de Acolhimento da Apae Bauru, Roberto Franceschetti Filho.

“Em 2011, novamente a Drads e Apae formaram parcerias para instituir a residência masculina, em decorrência do fechamento do Lar Escola Rafael Maurício, por determinação judicial. Assim nasceu a residência masculina, com os mesmos moldes da feminina. Ambas as casas tiveram seu propósito principal de romper com as práticas de isolamento que não favoreciam o convívio comunitário, e abrigavam de 50 a 100 pessoas afastadas da sociedade”. O modelo atual é personalizado em pequenos grupos.

“Entre 2013 e 2015, recebemos 25 municípios que estariam em processo de implantação de novas residências ou já estavam implantadas e vieram conhecer nosso serviço executado como modelo na região do estado de São Paulo. Também viajamos para capacitar outras entidades”, destaca Roberto. 

Fortalecimento de vínculos

De acordo com Roberto, desde 2007, 15 residentes voltaram ao convívio familiar e uma garota de 22 anos foi adotada. Alguns também estão sendo preparados e ajudados a gerenciar a sua própria vida, longe do acolhimento.

“Vale destacar que o trabalho de fortalecimento de vínculos com famílias de origem ou extensa são garantidos, mesmo sendo de outro município”. Além disso, acrescenta Roberto, os moradores das residências inclusivas também participam do projeto Apadrinhamento Afetivo, que consiste na busca de pessoas da comunidade para apadrinhar residentes.

“Essa madrinha é autorizada a levar os residentes para sua casa ou passeios em shopping, com o objetivo de trabalhar outra referência familiar.  O projeto foi implantado em 2011 e hoje observamos um grande aumento da autoestima e valorização pessoal dos residentes”, acrescenta.

Identidade

Para o psicólogo da Apae Lázaro Leoni, este é um trabalho muito forte e gratificante para todos. Muitos dos moradores sofreram algum tipo de violência no passado, e a ressocialização é trabalhada, resgatando a identidade como pessoas que têm um nome e estão inseridas na comunidade.

“Esse resgate, emocional, físico e social estão entre nossos principais objetivos. E nós identificamos que o trabalho vêm surtindo efeito. Até mesmo o senso crítico é trabalhado quando eles escolhem uma roupa nova na loja, o seu sapato preferido...”, acredita Lázaro.

“Estamos com 11 residentes inseridos no mercado de trabalho. Nos outros equipamentos, essa inserção social não existia. Eles também estão inseridos na comunidade participando de academia (hidroginásticas, natação, musculação), jogos de futebol em parques públicos, participam de missas ou cultos em igrejas, também vão a shows e eventos da cidade”, narra Roberto.

Rede

A articulação em rede é muito importante para o funcionamento adequado das residências, explica Roberto. Hoje, ela é composta pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), Centro de Referência em Assistência Social (Cras), Poder Judiciário, Ministério Publico,  Centro de Atenção Psicossocial (Caps), Unidade Básica de Saúde (UBS),  Unidade de Pronto Atentimento (UPA) e setor de educação.

Para o funcionamento das residências da Apae, a fonte de recurso é através dos convênios direto com a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social, através da sua Diretoria Regional de Desenvolvimento Social, com a Secretaria Municipal do Bem estar Social (Sebes), e com recursos próprios da Apae e apoio da sociedade.

Uma mesma casa, vários universos

Fotos: Alex Mita
Graziela Santos da Silva, 20 anos, é estudante e sonha em voltar a trabalhar
Na residência inclusiva feminina da Apae vivem nove mulheres; ao lado Letícia do Carmo Braga, 33 anos

Na residência inclusiva feminina da Apae vivem nove meninas. Na masculina, 15 garotos. A maioria dos moradores vive em acolhimento desde a infância. As suítes das residências são divididas por, no máximo, três moradores. A infraestrutura possui características residenciais como as de qualquer outra casa, o que favorece a progressão da autonomia nas atividades de vida diária e as instrumentais.

Graziela Santos da Silva, 20 anos, é uma das moradoras. Institucionalizada desde bebê, ela sabe da importância da sua inclusão na comunidade: “A escola me ajuda nisso. Eu já trabalhei em um supermercado e pretendo voltar logo. Sei que indo para a escola isso logo vai acontecer”, diz a estudante.

Letícia do Carmo Braga tem 33 anos e vive em acolhimento desde o início da adolescência. Ela mostra com orgulho a arrumação que fez em seu guarda-roupa. “Gosto de arrumar as minhas coisas e estou ansiosa para ver a minha mãe que vem me visitar no próximo mês”, comentou. Segundo a equipe da residência, Letícia é uma das moradoras que teve o vínculo familiar resgatado.

‘Meu sonho é ter minha própria família’

Limitações, sejam quais forem, não impedem de sonhar. Prova disso é Elvis Alan de Souza, 22 anos. Morador da residência inclusiva (masculina) da Apae, ele comenta que sonha em casar e ter a sua própria família. “E tenho namorada”, enfatiza.

Recentemente, Elvis, realizou um de seus sonhos, o de rever três irmãos acolhidos na cidade de Santa Cruz do Rio Pardo. “Fiquei 10 anos sem ver meus irmãos. Foi uma felicidade grande”. Assim como Elvis, o amigo Jeferson Rodrigo dos Santos também trabalha meio período em uma empresa de Bauru. Ansioso pela entrevista, ele fez questão de contar sobre o seu ofício de estampar camisetas e sobre o seu hobby preferido: ouvir música. “Eu já passei por muitos abrigos, mas aqui somos como uma família. Somos todos irmãos”, disse, sorridente.

Próximo passo pode ser a regionalização

Objetivo é aumentar o atendimento nas residências inclusivas, segundo a secretária do Bem-Estar Social (Sebes)

João Rosan
Titular da Sebes, Darlene Tendolo: “Com uma possível regionalização, projeto atenderia os habitantes de cidades menores, com o financiamento dos municípios”

Quando o assunto são as residências inclusivas, o próximo passo pode ser a regionalização do programa, com o objetivo de ampliar o atendimento, segundo a secretária do Bem-Estar Social de Bauru (Sebes), Darlene Tendolo.

Dessa forma, o projeto atenderia os habitantes de cidades menores, com o financiamento dos municípios da região, além do Estado e Brasília. “É uma estrutura muito cara para os municípios menores montarem a sua, já que muitas vezes eles contam apenas com uma assistente social”, comenta.

O orçamento gasto com as seis residências inclusivas de Bauru somam mais de R$1 milhão e 715 mil, anualmente.

O município desembolsa mais de R$1 milhão e 176 mil. O restante do valor vem do Estado e de Brasília, segundo a Sebes.

A Prefeitura de Bauru mantém sozinha a residência feminina da Acop. As demais também recebem verba estadual e/ou federal para ajudar nos custeios.

Inclusão

“Buscamos constantemente recursos para oferecer vida digna para essas pessoas. Quando um serviço como esse é instituído, ele precisa ter garantias, por isso buscamos também o financiamento junto ao estado e governo federal. Temos casos maravilhosos de pessoas recuperadas. Os moradores das residências inclusivas  realizam passeios, viajam, estudam... Têm uma vida de inclusão na sociedade. Além disso, procuramos resgatar o contato com as famílias, o que muitas vezes acontece”, enumera Darlene. 

A quem recorrer?

Antes de se mudar para a nova casa, o morador de uma residência inclusiva passa por uma espécie de avaliação em uma das unidades do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas). Muitas solicitações chegam do Ministério Público que solicita a vaga para vítimas de maus tratos, abandono familiar, perda de familiares... Muitas denúncias também são feitas por vizinhos.

O Creas I fica na avenida Alfredo Maia, quadra 1. O telefone de contato é o (14) 3234-8705. O Creas II fica na rua Raposo Tavares, 11-35, Vila Brunhari. O telefone de contato é o (14) 3223-5535.