| Fotos: Douglas Reis |
| Discussão beirou o empurra-empurra; Paulo Ladeira (de mochila) e Roque Ferreira (de costas) estiveram no embate |
| Ao fundo, opositores de Dilma com bandeira e megafone, em contraponto aos que os chamavam de fascistas |
O clima de tensão que tomou as ruas do País na última sexta-feira (4) se refletiu em Bauru, na manhã desse sábado (5). Manifestantes que panfletavam chamando a população para o ato que pedirá o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), marcado para o próximo domingo (13), entraram em confronto com militantes de esquerda que, todos os sábados, ocupam a quadra 5 do Calçadão da Batista, na altura da rua Treze de Maio. O local do conflito, que, por pouco não chegou às vias de fato, é conhecido como “esquina da resistência”.
Em menor gravidade e proporção, o fato repetiu as cenas de grupos políticos rivais que se enfrentaram, especialmente em São Paulo, em São Bernardo do Campo e Sorocaba, como reação à condução coercitiva do ex-presidente Lula que depôs à Polícia Federal, na última sexta (4), na condição de investigado da Operação Lava Jato.
A panfletagem dos defensores do impeachment já estava agendada antes do ocorrido e a concentração se deu a partir das 9h30 desse sábado (5), na Praça Machado de Mello, reunindo cerca de uma dúzia de manifestantes.
No local, antes mesmo da caminhada pelo Calçadão, um dos organizadores do ato, Gabriel Machado, tentou provocar, com o uso de megafone, integrantes da Casa do Hip-Hop que, segundo ele, estariam em atividade na Estação Rodoviária, supondo que os mesmos eram contrários ao impeachment. Ele não obteve, contudo, qualquer reação ou resposta.
Já na chegada à “esquina da resistência”, inicialmente, a passagem pelos militantes de esquerda se deu forma tranquila, sem qualquer animosidade.
Clima
Instantes depois, no entanto, os pró-impeachment se viraram em direção aos contrários, exibindo uma bandeira com as cores nacionais e dizendo palavras de ordem. Foi quando os militantes, dentre eles o vereador Roque Ferreira (PSOL), recém-saído do PT, reagiram, entoando: “Racistas! Fascistas! Não passarão!”.
O parlamentar e outros dois homens caminharam ao encontro do grupo adversário e os ânimos se acirraram. Um dele chegou a encostar no megafone de Gabriel Machado, que alegou à reportagem ter sido agredido.
A turma do “deixa disso” precisou entrar em ação para dispersar o confronto, que durou poucos minutos. Líder do movimento pró-impeachment, Paulo Ladeira foi um dos que tentou conter os ânimos, tentando cumprimentar com aperto de mãos alguns dos militantes. No momento do conflito, não havia policiais militares no local.
Próximos atos
No dia 13 de março, em Bauru, a avenida Getúlio Vargas receberá mais uma manifestação contrária à Dilma Rousseff, ao ex-presidente Lula e ao PT. A concentração está marcada para as 9h30, na frente da Polícia Federal.
Por outro lado, sindicatos organizam movimento nacional em defesa da democracia para o dia 19 deste mês. A vice-prefeita Estela Almagro (PT) afirma que, nesta semana, uma reunião definirá detalhes sobre a organização local do ato. A ideia é envolver militantes históricos não apenas do PT, mas de outros partidos e movimentos sociais.
“Cultura do ganha quem grita mais”
O acirramento do debate público que tomou o País e chegou a Bauru não é encarado com surpresa pelo antropólogo Cláudio Bertolli, professor da Unesp. Segundo ele, o País já não nutre a cultura do diálogo para mediar divergências. No ambiente político, essa característica teria tomado proporções ainda maiores. Isso porque, na última década, tornaram-se mínimas as diferenças programáticas e ideológicas entre as principais siglas partidárias. “Portanto, o poder passou a ser disputado no berro. Ganha quem grita mais. E essa postura não nasceu da militância, mas dos próprios políticos. É só observar o comportamento dos parlamentares no Congresso Nacional ou, principalmente, o tom do processo eleitoral de 2014”, pontua, referindo-se à disputa entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB).
CLASSE
Apesar disso, para Bertolli, o pano de fundo da divisão observada na sociedade tem origem na luta de classes. Em sua avaliação, a associação de elementos de figuras do populismo à implantação de programas sociais garante a Lula o apoio de classes menos favorecidas e a reprovação das que “pagaram a conta” da política liderada pelo ex-presidente.
Mesmo a perda de alguns direitos da classe trabalhadora, após o ajuste fiscal de Dilma, segundo o antropólogo, não tirou de parte da população a ideia de que seu antecessor e padrinho político fora responsável por resolver parte dos problemas brasileiros.
Historiadora de Bauru teme que democracia se torne briga de rua
A historiadora Sonia Mozer acredita que, desde a saída da ditadura militar, o Brasil esteja passando pelo teste mais doloroso e crítico. “Diziam que o País precisava ser passado a limpo. Talvez, estejam começando a fazer isso, por meio de um rito de passagem necessário, mas que não é fácil”.
Ela pontua que a democracia é o lugar da discussão, dos contrários e da conveniência com pessoas e/ou ideias divergentes, onde não há espaço justamente para o confronto. “Nossas instituições estão fortalecidas. O único perigo é transformarmos nossa democracia em uma briga de rua”.
Mozer reitera, no entanto, que muitas ações do Executivo, do Legislativo e do Judiciário têm se afastado do foco que deveria ser o principal: o País. “Estão se dirigindo a um salve-se quem puder, apenas com o intuito de demonstrar o poder que se tem ou adquirir o poder que não se tem”.
A historiadora define o atual cenário como uma “convulsão”, consequência de crises econômica e política internas em meio a crises de mesmas naturezas em escala global. “O mundo só entendeu a crise de 1929 na década de 1940. Só vamos compreender o que está acontecendo mais para frente. A história é um carro numa estrada escura só com os faróis traseiros”, finaliza.
Confira o vídeo (Crédito: Douglas Reis):