10 de julho de 2026
Regional

Campeões de divisão de acesso estão desativados

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 13 min

Samantha Ciuffa
Ex-jogador Cláudio Abade, autor do gol do título para o CA Lençoense

Um grupo seleto de 26 times profissionais deixou de existir na região de Bauru, alguns após participações meteóricas e outros por longo período sem obter êxito nos campeonatos profissionais das divisões de acesso da Federação Paulista de Futebol (FPF). É o retrato da decadência do futebol interiorano. No pódio dos campeões regionais há cinco: Sãomanoelense de São Manuel, Garça FC, Rio Branco de Ibitinga, Associação Atlética Barra Bonita e Lençoense de Lençóis Paulista. Todos licenciaram da Federação.

Pelos estádios acanhados da região desfilaram atletas em início de carreira como Didi, o criador da “folha seca”, o goleiro Marcos do Palmeiras, o arqueiro Waldir Peres revelado no Garça e depois ídolo do São Paulo, o ponta-esquerda Paraná no Barra Bonita, entre outros.
A rivalidade também alimentou os clássicos regionais entre Noroeste, Lençoense, Sãomanoelense, Garça, Rio Branco de Ibitinga e Associação Atlética Barra Bonita.

A paixão futebolística também emplacou em pequenas cidades movida a interesses políticos ou rivalidades internas de clubes amadores, como no caso da AABB e o Botafogo de Barra Bonita.

Brigas, invasões de campo, jogador sendo “caçado” nas baladas para retornar à concentração e arbitragem duvidosas selaram desclassificações e o sonho de obter o acesso à divisão seguinte do futebol paulista.

“O time era bom, entrosado, formado em menos de dois meses. Deu tudo certo naquela ocasião”, recorda o ex-jogador Cláudio Abade. Autor do gol que garantiu a vitória ao alvinegro de Lençóis contra a Jalesense, além de figurar como artilheiro da competição assinalando 24 tentos.   

Outra equipe campeã é o Garça que conquistou o título de 1969 e presente em 19 campeonatos da segundona, 15 da terceira divisão e quatro competições da quarta divisão.
Entre clubes campeões há o Rio Branco de Ibitinga que bateu o Sertãozinho na final de 1970. Fora os tradicionais times, houve participações curtas do Duartina FC, Agudos FC, Gália Esporte Clube, Cafelandense, Associação Atlética Botucatuense, 9 de Julho de Getulina, Flamengo de Pirajuí, a Associação Atlética Palmeiras em 1950 e 1951 na terra do glorioso XV de Jaú, o Galo da Comarca que volta este ano à Série B e não é destacado nesta matéria porque está em atividade.

AABB teve ascensão meteórica

Um calhamaço de papel com o resultado do jogo, data, autor do gol e nome do árbitro da partida resume os oito anos de campanha da Associação Atlética Barra Bonita (AABB) entre a terceira e quarta divisão do futebol paulista. Essa papelada é mostrada ao repórter pelo aposentado e ex-cartola do alvinegro barra-bonitense Osvaldo Parra como a prova dos confrontos entre clubes tradicionais, dos quais Noroeste de Bauru, Sãomanoelense, Lençoense, etc. “O time de Bauru era rival pela proximidade entre as cidades. Teve um jogo que terminou em confusão. O Norusca venceu por 3 a 2 e o último gol a bola não entrou, mas foi validado pelo árbitro para desgosto da torcida”, recorda Parra, 76 anos, ex-vereador e servidor aposentado da prefeitura de Barra Bonita. A partida foi no dia 22 de maio de 1983.

O alvinegro enfrentou oito vezes o Noroeste nas competições de 83 e 84. A AABB surpreendeu, em 4 de setembro de 83, em Bauru, quando bateu o Norusca por 1 a 0 pelo 1º turno pela 3ª divisão. A competição nessa época contou com 51 equipes divididas em quatro grupos de 13. Depois os dois empataram por 2 a 2 em 28 de setembro e 1 a 1 em 5 de outubro. No ano seguinte, em 1 de abril, o Barra Bonita venceu por 2 a 0 o alvirrubro em casa, depois o alvinegro  perdeu por 2 a 0  quando veio ao estádio Alfredo de Castilho em 6 de maio daquele ano, mas a AABB empatou  por 1 a 1 novamente jogando em casa contra o time de Bauru no confronto do 2º turno, porém ela tomou uma goleada de 5 a 0 na Cidade Sem Limites pela terceira fase da Série F no dia 22 de outubro de 1984, praticamente a última vez que as duas equipes se cruzaram nas quatro linhas. 

Fundada em 1923, a AABB entrou no profissionalismo em 1977 para dar uma resposta ao rival, o Botafogo da mesma cidade, campeão amador do Estado um ano antes, conforme revela o radialista José Antonio Bolla. No primeiro ano disputou na divisão composta de 45 clubes divididos em cinco séries com nove equipes. O alvinegro estreou com uma vitória de 2 a 1 contra o Municipal de Bariri e terminou a competição em 4º lugar.

O maior trunfo do alvinegro barra-bonitense é o título de 1982 numa vitória em cima do José Bonifácio por 4 a 3, em Araraquara, no último jogo do quadrangular final que reuniu União Funilense de Cosmópolis e Palmeirinha de Porto Ferreira. Dois anos depois da façanha, o time da “Cidade Simpatia” se despedia do profissionalismo ao perder de 2 a 0 do Jaboticabal em jogo em 24 de outubro e daí em diante a AABB se dedica somente a manter a parte social do clube com salão de baile e quadra.

A equipe formada pelo Barra Bonita que levantou a taça foi comandada pelo técnico José Galli, ex-Botafogo de Ribeirão Preto e Portuguesa de Desportos. Parra conta que ia buscar jogadores em bailes porque fugiam da concentração em vésperas de jogos importantes.  Fora a rivalidade com o Botafogo, o interesse dos ex-prefeitos José Kielse dos Santos e Clodoaldo Antonângelo, o Tatinha,  pelo futebol incentivou o alvinegro nas divisões profissionais.   

Fora das quatro linhas, além da pressão da torcida em cima do bandeirinha próximo ao alambrado, tem as figuras folclóricas que divertiam o espetáculo de forma espontânea. Na Barra Bonita, o gari carismático Paulo Roberto Siqueira, o “Paul Girls” frequentava o campo com uma capa e chapéu preto. “Diziam que ele era macumbeiro, porque sempre que jogava AABB e Noroeste, era difícil o time de Bauru ganhar. Chegaram até a pedir emprestado o mascote para melhorar a sorte do time bauruense”, conta, rindo, Osvaldo Parra, ex-cartola da equipe barra-bonitense.

O mascote ainda seria vereador por um mandato na cidade, em 2003, pelo PV, sendo o mais votado com 1.360 votos. 

Rival tentou uma temporada no futebol profissional em 1983 

O Botafogo de Barra Bonita só disputou uma temporada no futebol profissional em 1986, mas a equipe sempre foi uma grande rival nas competições amadoras da Associação Atlética Barra Bonita.

O radialista José Otávio Bolla conta que o ingresso da AABB no profissionalismo em 1977 ocorreu, porque um ano antes o rival conquistou o título de campeão amador do Estado.

O atual secretário de Esporte de Barra Bonita, Luiz Alberto Sescato, foi treinador do Botafogo quando disputou a competição de 1983. “O Nabi Abi Chedid naquele ano incentivou a participação de muitas equipes nas categorias profissionais e isso beneficiou o Botafogo a disputar na ocasião. Praticamente não se cobrou nenhuma taxa e foi um campeonato curto que agradou a todo mundo”, conta Sescatto,

O pai dele, Adalberto Sescatto ex-jogador e ex-presidente do XV de Jaú, ajudou na fundação do Botafogo em 1968 quando a família mudou-se para Barra Bonita. “Na fase amadora, o Botafogo conquistou sete títulos regionais e quatro vezes de Jogos Regionais representando a cidade. Temos estádio e escolinha de base. O Claudecir que jogou no Noroeste passou por aqui”, conta Sescatto.

Sãomanoelense tem título em 1968 

Pela proximidade com Botucatu, a  Associação Atlética Sãomanoelense tinha rivalidade com a Associação Atlética Ferroviária e Botafogo de Botucatu, mas também sempre deu trabalho para adversários como o Barra Bonita e Lençoense.

A melhor fase é no final da década de 60, quando conseguiu o título de 1968 da quarta divisão. O clube foi fundado em 21 de junho de 1919, suas cores são o vermelho e o preto. Teve 12 participações no Campeonato Paulista de Futebol. 

Lençoense faturou título de 1983

O auge da Lençoense é na década de 80. O clube atualmente existe no papel, mas está licenciado da FPF. Por divergências políticas, a equipe mudou em 2009 para Bariri e disputou a série B de 2010 como CAL Bariri, porém se licenciou novamente. O alvinegro também é conhecido por revelar o goleiro Marcos, ídolo do Palmeiras, que atuava no juniores do alvinegro.

O ex-centroavante Cláudio Abade foi o artilheiro com 24 gols na competição da terceira divisão de 1983 e autor do tento que garantiu a vitória em cima da Jalesense por 1 a 0 na final, no estádio Archangelo Brega. No primeiro jogo, em Jales, empatou 0 a 0. A equipe foi dirigida por Dirceu de Oliveira, ex-jogador e cidadão de Macatuba já falecido.

“O time era bom, entrosado, formado em menos de dois meses. Deu tudo certo naquela ocasião”, recorda o ex-jogador Cláudio Abade, nas dependências da Liga Lençoense de Futebol numa sala cheia de fotos na parede de times e prateleira lotada de troféus. 

A fama da Lençoense extrapola o município. “Na época onde dava mais público e renda no estádio na terceira divisão era jogos em Lençóis Paulista, isso está documentado na Federação. Até hoje é assim. Em jogos de campeonato amador sempre está lotado”, lembra Abade, que jogou no Noroeste, Sertãozinho, Pinheiros, Juventude, Vila Nova de Goiás etc.
Ele, por exemplo, ganhou um prêmio do jornal “A Gazeta Esportiva” por marcar o milésimo gol da terceira divisão em 1986 jogando pelo Sertãozinho.

Segundo Abade, os maiores rivais foram Sãomanoelense, Barra Bonita, Noroeste e clubes da região. A Lençoense tem ainda no currículo um vice-campeonato em 1999, quando foi derrotado na final por 1 a 0 pelo Flamengo de Guarulhos.

No ano passado, o ex-jogador Baroninho procurou Ababe interessado em reativar o Lençoense, mas acabou optando pelo XV de Jaú, que retorna à Série B do Campeonato Paulista, após um ano afastado. Atualmente o presidente da Lençoense é João Sergio de Moraes.

Ídolo do verdão era reserva no juniores 

Próximo ao vestiário do Estádio Archangelo Brega estão as marcas das mãos do goleiro Marcos, ex-Palmeiras e campeão do mundo, gravadas numa lápide de concreto. A homenagem foi feita durante uma partida de confraternização de final de ano que o arqueiro aceitou visitar Lençóis.

Na realidade, Marcos não atuou na equipe da Lençoense da divisão de acesso. “Ele era da categoria juniores e tinha estatura boa. Quem estava como titular era o Barata, de Agudos. Foi num amistoso em Guarulhos contra o time do Palmeiras é que o Marcos conseguiu se transferir para o time de Parque Antárctica. São coisas do futebol. Ele acabou jogando e a equipe alviverde se interessou”, conta Abade.

Na ocasião mais outros quatro jogadores do Lençoense também ficaram em São Paulo: Glauco, Marcos, Itamar e Lê, de Barra Bonita.

Há uma história de que o passe do Marcos foi trocado por um lote de material esportivo. “Realmente o material esportivo veio para cá, mas não foi essa a negociação. A história acabou ficando. Ela é até legal para justificar a transferência”, cita o ex-centroavante da Lençoense.

Didi jogou em Lençóis com pai de radialista 

O famoso Didi, antes de ser bicampeão mundial jogou nos campos de Lençóis Paulista. “O Príncipe Etíope do Rancho” era seu apelido, dado por Nelson Rodrigues a um dos maiores médios volantes de todos os tempos.

Ele foi o criador da “folha seca”, técnica que consistia em bater na bola, com o lado externo do pé, de modo a fazê-la girar sobre si mesma e modificar sua trajetória. Esse efeito inesperado era semelhante ao de uma folha caindo. E antes de ser grande craque jogou junto com Renato Bolla, pai do radialista e ex-dirigente da Associação Atlética Barra Bonita José Otávio Bolla. “Meu pai não quis seguir carreira no futebol. Didi quando saiu de Lençóis foi para o Bonsucesso. Naquela época jogar futebol não se ganhava como hoje”.

Bolla relata que Didi era “aventureiro” quando apareceu em Lençóis. “Não tenho essa declaração gravada, mas quando Didi ganhou a Copa de 1958 ele deu uma entrevista e o repórter perguntou a ele quem foi o maior jogador que tinha visto. O craque respondeu: maior não sei, mas o melhor é o Renatinho de Barra Bonita”. Segundo o filho, o pai ganhou o troféu Belfort Duarte, concedido a jogadores que não são indisciplinados e nem expulsos de campo.

Rio Branco tem título da 3ª divisão em 70

A história do Esporte Clube Rio Branco de Ibitinga se assemelha com a maior parte dos times do interior paulista. Iniciou-se no amadorismo, depois se reorganizou e disputou as divisões de acesso até suspender as atividades por problemas financeiros.

A campanha de 1970 é a mais marcante. Só perdeu uma partida para o Neves Paulista. A final foi contra Sertãozinho no antigo estádio da Fonte Luminosa, em Araraquara, pertencente a Ferroviária, quando venceu o adversário por 2 a 0. Os gols foram de Nascimento, aos 40 minutos do 1º tempo, e Tuta aos 24 minutos do 2º tempo. 

O time foi fundado em 1926 com o nome de Rio Branco Futebol Clube, e reorganizado em 30 de março de 1946, quando recebe a denominação atual. As cores são preto e branco.
Antes de ingressar no profissionalismo conquistou o título do Campeonato de Futebol Amador do Interior, em 1950, através do América Esporte Clube. Outra equipe colorada da cidade foi o Americano Esporte Clube, que participou de apenas um campeonato profissional estadual, em 1977, sem muita expressão.

A partir de 1967, o Esporte Clube Rio Branco conquistou o campeão da Terceira Divisão estadual (atual A-3), em 1970, e, no total, teve 18 participações no difícil Campeonato Paulista de Futebol, marca que permanecerá imbatível por muito tempo na história de Ibitinga.

Em 1971, passou a disputar a divisão de acesso para a elite do futebol paulista (atual A-2), mas, como não obteve grande sucesso, parou. Em 1976, retorna aos gramados profissionais, novamente na Terceira Divisão, e ficou por mais 12 temporadas nos campeonatos da Federação Paulista de Futebol, segundo a wikipédia.

Goleiro Waldir Peres foi principal revelação do Garça  

O Garça Futebol Clube revelou o goleiro Waldir Peres, que foi ídolo do São Paulo de 1973 a 1984 e da Seleção Brasileira em três Copas do Mundo (1974, 1978 e 1982). Foi titular na Copa do Mundo de 1982, na Espanha, onde era um dos destaques de um time de craques que contava com Zico, Sócrates, Falcão e Oscar. 

Peres é filho de ferroviário  da antiga Companhia Paulista e residiu em Garça. Ele começou jogando em time amador e depois ingressou no Garça, a partir de 1968 até ser titular no time principal. O título máximo garcense é o de 1969 na segunda divisão com Waldir Peres como titular. No ano seguinte ele foi para a Ponte Preta e 12 meses depois foi transferido para o São Paulo.

Quem relata a trajetória do Azulão da Alta Paulista é Wanderley Marcos Cassolla, o Tico, funcionário de carreira do INSS e ex-centroavante da equipe entre 1976 e 1977. Ele coleciona fotos antigas de várias fases do clube.

O Garça é resultado da fusão com o Bandeirantes, que disputou a Terceira Divisão, em 1956 e 1958, e é um clube extinto. Mas ao longo da trajetória o Garça trocou o nome para Garça Esporte Clube quando ingressou na segunda divisão em 1950, depois voltou a denominação Garça Futebol Clube. A fase profissional mais próspero é o Garça refundado em 15 de fevereiro de 1965.

O único título da história do Garça: campeão da terceira divisão no ano de 1969. A fase final foi no sistema de jogos de ida e volta contra Rio Branco de Ibitinga, Rio Claro e Garça.

Segundo Cassolla, o Garça superou todos os  adversários. O confronto decisivo foi contra Rio Claro com o Garça vencendo por 3 a 1.  Só que a Federação Paulista se viu diante de um novo “imbróglio”, quando o Rio Branco entrou com recurso e “melou” o campeonato. Depois de muitas “idas e vindas” o Garça teve que enfrentar o Rio Branco, num único jogo em campo neutro: no Estádio Alfredo de Castilho, em Bauru, no dia 18 de janeiro de 1970. O Garça venceu numa partida dramática por 1 a 0, gol do atacante Rogerinho, aos 36 minutos da etapa final.

O Azulão da Alta Paulista parou por problemas financeiros no final de 2004, depois de um vice-campeonato na Série B1.