A alta da inflação e a consequente queda da atratividade da caderneta de poupança estão levando um número cada vez maior de investidores a buscar modalidades mais rentáveis de investimento. Ainda conservador e sem disposição para correr riscos, este público tem optado por aplicações de renda fixa, que oferece juros próximos ao dobro do conferido pela poupança.
Para chegar a esta rentabilidade, muitos clientes, inclusive, decidem migrar suas aplicações dos bancos convencionais para corretoras de valores, que normalmente oferecem uma cartela maior de produtos. A tendência é confirmada por economistas e analistas de mercado consultados pelo Jornal da Cidade.
| Aceituno Jr. |
| Segundo Márcio Martins Junior, títulos como LCI e LCA são seguros e isentos de Imposto de Renda |
Entre as aplicações mais procuradas, segundo o agente autônomo de investimentos Márcio Martins Junior, estão a Letra de Crédito Imobiliário (LCI) e a Letra de Crédito do Agronegócio (LCA), títulos emitidos por bancos com lastro em empréstimos feitos a estes dois setores da economia. “Hoje, a maior vantagem está em LCI e LCA com rentabilidade pré-fixada, já que a tendência da Selic é de queda”, diz, referindo-se à taxa básica de juros, que é indexador para alguns papéis pós-fixados.
“O rendimento médio é de 13,5% ao ano, enquanto a poupança chega a cerca de 6% (índice menor que a inflação, que fechou 2015 em 10,67%). Trata-se de um produto com quase o dobro da rentabilidade. Mesmo com a tarifa cobrada pela corretora, de R$ 9,90 ao mês, continua sendo uma opção infinitamente mais vantajosa”, completa Martins Junior, que é responsável por uma corretora de valores de Bauru.
Segurança
De acordo com ele, estes títulos possuem a mesma segurança da poupança, já que contam com Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de até R$ 250 mil, valor que o banco poderá devolver ao investidor em caso de falência. A desvantagem, contudo, é que as LCI e LCA exigem prazo de carência, diferentemente da poupança, que começa a render a partir do primeiro mês de investimento.
“Há aplicações que chegam a ter prazo de um ou dois anos, período em que o cliente não pode movimentar o dinheiro”, aponta. Outra restrição é que ambas são mais indicadas para quem pode investir a partir de R$ 30 mil. As modalidades tem a vantagem, entretanto, de serem isentas de Imposto de Renda (IR) para pessoas físicas.
Sócio-proprietário de outra corretora de valores da cidade, Fábio Lara observa que aplicações em Certificado de Depósito Bancário (CDB) também são bastante procuradas, embora um pouco menos vantajosas do que as letras de crédito.
“No CDB, há incidência de IR sobre o lucro, começando com 22,5% para investimentos de até seis meses e, na melhor das hipóteses, chegando a 15% para aplicações acima de dois anos. No final, a rentabilidade líquida acaba em torno de 12% ao ano”, pontua. Para esta modalidade, o valor mínimo inicial a ser aplicado é de R$ 5 mil, mas valores mais elevados oferecem melhores taxas de rendimento.
Perfil
Segundo os analistas de mercado ouvidos pela reportagem, o perfil de investidores em renda fixa é formado, majoritariamente, por homens acima dos 25 anos de idade, pertencentes às classes A e B. “São empresários ou profissionais liberais, como médicos, advogados e dentistas. O número de investidores da classe C cresceu nos últimos anos, mas ainda continua representando um percentual pequeno dentro do todo”, avalia o agente de investimentos Márcio Martins Junior.
‘Brasil vive uma tendência de desbancarização’
| Malavolta Jr. |
| O economista Fernando Pinho destaca que os bancos, com bom nível de liquidez, não pagam boas taxas aos aplicadores |
Em tempos de crise, a queda da atratividade da caderneta de poupança e a baixa rentabilidade oferecida pelas aplicações mais conservadoras têm levado um número cada vez maior de pessoas a diversificar seus investimentos – inclusive fora das instituições bancárias. Segundo o economista Fernando Pinho, o fenômeno, conhecido como desbancarização, já foi observado nos Estados Unidos e países da Europa há cerca de dez anos e, agora, tem ganhado força no Brasil.
“O pequeno aplicador não consegue boas taxas de juros porque os bancos estão com nível de liquidez altíssimo. Como eles não têm para quem emprestar frente a uma economia em recessão, pagam taxas muito baixas. Neste cenário, as corretoras são uma alternativa com nível de risco baixo e condições de investimento mais rentáveis”, esclarece.
De acordo com Fábio Lara, algumas corretoras de valores em Bauru, incluindo a que ele administra, adotaram o sistema de plataforma aberta, que permite trabalhar com produtos de todas as instituições financeiras. Este mecanismo, ele cita, facilita a comparação entre as vantagens e desvantagens de cada aplicação disponível.
“A corretora passa a funcionar como um shopping financeiro, com produtos de 30, 40 bancos diferentes, dos maiores aos menores, além de outras modalidades de investimento. E isso permite ao cliente fazer uma escolha mais assertiva e rentável, de acordo com sua necessidade”, argumenta.
Conforme aponta o agente de investimentos Márcio Martins Junior, títulos como LCI e LCA em bancos convencionais oferecem taxas de rendimento médias de 12% - 1,5% menos do que os garantidos, normalmente, pelas corretoras.
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) foram contatadas pela reportagem, nessa terça-feira (8), mas informaram que não poderiam comentar sobre a migração para outras modalidades de investimento.
Aumento exponencial
Com dois representantes em Bauru, uma das maiores empresas de investimento do País registrou aumento exponencial no número de clientes e valores aplicados. Atualmente, 392 pessoas na cidade detém um montante de R$ 74,1 milhões geridos pelos dois escritórios, sendo 90% deste valor vinculados à renda fixa e fundos de investimentos. Apenas três anos atrás, a quantia era cinco vezes menor: de R$ 14,1 milhões, aplicados por 15 investidores.
Um deles era – e ainda é – um empresário de 31 anos que preferiu não se identificar. Morador de Bauru, ele conta que, com o apoio da corretora, gerencia os investimentos de toda a família.
“Comecei há 15 anos com aplicações no banco. Há cerca de cinco, decidi mudar”, diz, revelando que encerrou o investimento em renda fixa que mantinha na instituição financeira para aplicar em LCI e LCA junto à corretora. “Por uma questão de precaução, mantive a caderneta de poupança e a previdência privada no banco. Mas, hoje, os maiores valores estão nas outras modalidades”, pontua.