09 de julho de 2026
Articulistas

O País dos coitadinhos

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Os correspondentes dos jornais estrangeiros se divertem com o surrealismo da política no Brasil. Até se esforçam por compreendê-la. Nos regimes parlamentaristas europeus, o governo já teria caído há muito tempo, só pela perturbação da ordem econômica. A expectativa, hoje, é sobre o que possa acontecer com a manifestação pró-impeachment de Dilma. Pode ser que o Congresso faça o que o povo quer ou, simplesmente, prossiga com o andor. O maior partido de sustentação do governo Dilma é o PMDB, detentor de sete ministérios, mais de dez mil cargos de primeiro e segundo escalões. O presidente do Senado, Renan Calheiros, é do PMDB, Eduardo Cunha, presidente da Câmara, idem. Ambos estão no poder graças à troca de gentilezas com o PT. Não querem perder a vaca de tantas tetas prebendárias.

Na cobertura da cerimônia de entrega de um exemplar da Constituição de 1988 ao ex-presidente Lula por Renan Calheiros, o jornalista do Le Monde anotou, nos discursos, a ênfase dada à Carta Maior, como “parâmetro para a busca civilizada de solução para os impasses”. Se esta é a missão da lei maior deveriam lê-la com carinho. O governo nomeou um novo ministro da Justiça, que é membro do Ministério Público. Está no livrinho de capa verde-amarela que os procuradores não podem exercer outra função que não seja a de professor. Dispensa exegese.

Se o jornalista francês estudasse um pouco da História do Brasil, iria se deparar com a proposta de Capistrano de Abreu, para que a Constituição tivesse um artigo único: “todo brasileiro deve ter vergonha na cara. Parágrafo único: revogam-se as disposições em contrário”.

Três promotores públicos de São Paulo pediram a prisão preventiva de  Lula, mediante evidências de crimes por ele supostamente cometidos, como lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e falsidade ideológica. O Código de Processo Penal diz que a prisão preventiva é um recurso legítimo para impedir o acusado de continuar a praticar crimes; para evitar que atrapalhe o andamento do processo através de ameaças à testemunhas ou destruição de provas; em casos em que o risco de fuga do acusado é elevado. Os juristas sustentam que nem de longe Lula estaria pecando contra qualquer desses pressupostos. O único perigo é o de fuga, mas para dentro do governo, na condição de ministro nomeado. Lula ganharia foro privilegiado e só poderia prestar contas ao Supremo Tribunal Federal. Livre, portanto, do juiz Moro.

Surrealista foi o fato dos representantes do MP, na peça acusatória invocarem “Marx e Hegel”, dizendo que  eles “se envergonhariam da conduta do torneiro mecânico que chegou à Presidência”. Confundiram Hegel com Engels, companheiro de Marx na autoria do “Manifesto Comunista”. Esta cartilha foi editada  17 anos após a morte de Hegel, um filósofo burguês odiado pelos progressistas revolucionários. No libelo acusatório de 36 volumes e duas mil laudas, um erro material é insignificante. O que os jornalistas estrangeiros estão agora pesquisando é o exato sentido da expressão “vá catar coquinho”, destino apontado por um dos promotores para quem insiste em atormentá-lo pelo twitter. Os guapos rapazes do MP ainda aproveitaram para introduzir no processo, a transcrição de um vídeo onde a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB) defende Lula, mas o próprio ex-presidente aparece no fundo e ouve-se ele gritar: “eles que enfiem todo esse processo no c...” (woow!). Também grafaram Nietzsche errado e sua ideologia do super-homem ficou fora do contexto.

Esses meninos do MP, apesar dos excessos, merecem ser incentivados. Fazem parte de uma elite desejosa de melhorar este país e provar que a lei vale para todos. A missão persecutória é trabalhosa e inglória. Enquanto eles fazem força para prender, Dilma manda soltar. Com uma penada, no indulto natalino, a presidente extinguiu a punibilidade, ou seja, perdoou a pena de João Paulo Cunha, José Genoíno, Waldemar Costa Neto e Pedro Henry, condenados no mensalão por corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro a penas e 9 anos e 4 meses de prisão. Permaneceram em regime fechado 1 ano e 6 meses. José Dirceu só não está solto porque é reincidiu, mesmo preso. In-jus-tiça. Neste país dos coitadinhos (Emil Farhat) a gente fica com dó até de quem mata o pai e a mãe. O saidão da Páscoa vem aí.


O autor é jornalista e articulista do JC