09 de julho de 2026
Articulistas

Lançai-vos ao mar

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

Atualmente, a Ciência nos oferece muitas previsões seguras e com repercussões globais. Sabemos que se não mudarmos, provocaremos o aumento da temperatura média dos oceanos e do planeta, amplo degelo, elevação do nível do mar, extinções em massa, avanço da desertificação, crise dos recursos hídricos, gigantescas migrações humanas e zonas de caos político e institucional.


Há um encontro marcado, em futuro não tão distante, entre o progresso que ora se procura inflar e a crise ambiental que se avoluma. Vende-se a crença de que o progresso pode reverter os problemas relacionados ao aquecimento do planeta; que a tecnologia fará milagres; que a Ciência é onipotente. Será?


Hoje o mercado global está mais frágil e instável a crises de toda ordem. Com a população aumentando, sobretudo nas zonas mais pobres, há um imenso barril de pólvora se acumulando mundo afora, alimentado pela guerra, pela grave exclusão social associada a condições precárias de vida, à limitada educação, à falta de perspectivas, ao assédio da violência, das drogas, do crime organizado e do terrorismo.


É muito evidente que as instituições não estão conseguindo atender a todas as demandas da sociedade como um todo; é muito evidente que estamos vivendo uma mudança geopolítica que terá profundas repercussões no futuro. O mundo está cada vez mais multipolarizado e há uma luta velada por reservas de recursos naturais onde quer que estejam.


Por tudo isso a humanidade passa por um momento de incerteza, insegurança e de relativismo. Não há parâmetros exatos e poucas personalidades idôneas. As eleições norte-americanas se aproximam e um dos candidatos parece não ter assimilado que o poder e o tamanho daquele país indicam que raramente eles podem dar um passo sem ameaçar alguma nação ou beneficiar outra.

As economias norte-americana e chinesa são como um redemoinho puxando tudo para seu turbilhão, com contracorrentes que podem, facilmente, devastar países. Quando aquelas economias estão indo bem, elas representam o motor que aciona toda máquina; mas, quando falseiam, a máquina como um todo pode se fragmentar.


De qualquer maneira, o vazio do materialismo sempre arrasta multidões em busca de um significado para a vida. Há poucas referências seguras, pois, até o modelo relativamente estável de família ruiu em várias partes do planeta. No fundo do poço de cada desastre ético, das decepções, das perdas, dos surtos de desespero e das ressacas morais jaz a mesma questão: qual o significado disso tudo?


Não acredito que a humanidade vá mudar seus valores e o modo de ver o mundo a tempo de evitar o pior. Não me rendo à quimera de que um belo dia acordaremos plenamente conscientes de nossa situação e responsabilidade, que nos daremos as mãos, que deixaremos de lado nossas diferenças e interesses, que nos abraçaremos em todo planeta e diremos: a partir de agora vamos mudar o mundo. Crer nisso é desconhecer a natureza humana, nosso estágio evolutivo, a complexidade das sociedades e de seu mosaico cultural.


Da mesma forma que barcos entupidos de imigrantes, fugindo da guerra e da fome, se lançam ao mar da esperança, nós, também, estamos em uma margem superlotada de gente, que é complexa, que é destruidora, que é insustentável e entrando em colapso. Desta margem estamos olhando para a outra margem, quem sabe pautada por princípios e valores, só que esse mar nós não conhecemos e nem o que nos aguarda nessa travessia.


O poeta, palestrante e consultor Alan Shlup Sant’Anna nos faz um convite: “Lançai-vos ao mar. Sua natureza assim o pede. Sois humanos. Sim, há um preço a pagar. Muitos jamais chegarão. Mas, tesouros sem fim os aguardam. E dentre todos eles, o maior. O cumprimento de vossa natureza. De explorar e expandir. De tocar o que nenhum humano tocou. E beber das águas de um novo mundo”.

O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru