08 de julho de 2026
Articulistas

Sem bagunça e sem cadáveres

J. F. da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 3 min


Respirou-se ar de alívio. As passeatas nacionais aconteceram sem incidentes graças à separação dos manifestantes que preveniu bagunças e não gerou cadáveres. Paira no ar sentimento nítido de que o principal partido governante destruiu suas bandeiras, perdeu irremediavelmente sua credibilidade e que seus apoiadores iniciam a marcha de retirada. Os fatos acontecidos próprios de comédia de fim dos tempos exibem certeza de que a presidente já não conserva esperança de concluir seu mandato.

   

A tumultuada investidura do novo ministro da Casa Civil, que andava carecendo de blindagem, acontecimento carregado de desencontros e nunca visto na história de nações civilizadas, revela, além de desespero típico de derradeira jogada, um conjunto de espertezas que beiram a chicana para deslocamento de competência processual e pode terminar num melancólico abraço de afogados.

De agora em diante, tão claro foi o recado das ruas que tudo se tornou questão de tempo e de teimosia, inúteis novas manifestações em qualquer sentido ante risco de bagunças e pelo temor de comparações. Nesse tempo de teimosa espera permanece o risco de confrontos de rua, a vida econômica continua paralisada, empregos vão sumindo, os serviços públicos mantêm-se ineficientes, os enfermos persistem em sobreviver sem assistência médico-hospitalar, a violência tende a crescer sem controle e a educação com mínima qualidade, salvantes diferenciados bolsões é sonho distante de noite de verão. Tudo acentua diante do crescente e perigoso desgoverno clima coletivo de frustração e desesperança.

Ainda que existam justos motivos, não se deve dar por perdida a esperança de construir a nação dos nossos sonhos. A tragédia desses tempos bicudos ensinará, como está ensinando, milhares de cidadãos a valorizar o voto para aprimorar a escolha de seus representantes, suprimindo com mais velocidade os espaços em que vicejam os inescrupulosos salvadores da pátria e seus interesseiros asseclas. As máscaras dos disfarçados corruptos e corruptores continuarão a cair deixando expostas as marcas e manchas de suas criminosas hipocrisias. Isso não é sonho falso de otimistas, mas observação de realidade objetiva que está acontecendo diante de nossos perplexos olhos.

Confira-se que nossos processos eleitorais vêm sendo aprimorados a cada eleição, com banimento de muitos pelo voto e outros tantos pelos identificados abusos do poder econômico e político. Os valores da moralidade e da boa administração e a probidade administrativa vem tendo seu foco visualizado, investigados e punidos desvios com justo vigor o que revela investigações tecnicamente aprimoradas e decisões judiciais justas e bem motivadas, sem sintoma algum de perseguição ou atrevido direcionamento, bem avaliada a imparcialidade de investigadores e de julgadores e sempre presentes e acessíveis o contraditório e a ampla defesa com o meios e recursos adequados.

Prova provada de tudo isso aloja-se com muita visibilidade na “Operação Lavajato” com seus justos e naturais desdobramentos republicanos, levando indistintamente aos tribunais os casos que assim mereçam e que envolvem agentes públicos diferenciados e lideres de impérios econômicos sem exceção e isso praticamente vira triste pagina da história de nosso povo, parecendo presente, até, em atenção a traiçoeiro ofídio recentemente lembrado, a quase certeza de que as nossas leis penais já não são como as serpentes que só picam os pés descalços.

Interessante lembrar que eventuais abusos que possam ser cometidos se submetem a controle jurisdicional e que o tradicional e heróico remédio do Hábeas Corpus está acessível e pronto para corrigir sem formalidades processuais sofisticadas quaisquer atentados que comprometam a liberdade de locomoção, podendo ser aforado em qualquer pedaço de papel e mesmo sem procuração, até por quem não tenha qualificação como advogado. Se desvio ocorrer, se abuso, infelizmente, for cometido este é o remédio mais pronto e eficiente de que desfrutam quaisquer injustiçados. Genéricos ataques ao Poder Judiciário são atos vazios de puro desespero.

Apesar da crise que cedo ou tarde será superada pelo vigor aprimorante das nossas instituições, a passeata daqueles que protestaram com fome de justiça e sede de bom governo, cumpriu seu papel, sem bagunça e sem cadáveres, calando pelo receio de comparações a boca e iniciativa dos que pretenderiam ganhar as ruas com propostas contrárias. Assim vamos assistindo perplexos os derradeiros suspiros do fim de uma etapa inevitável da nossa trajetória histórica em direção a um futuro melhor, sem sangue e sem cadáveres.

O autor é advogado, articulista do JC e escreve a cada catorze dias.