A democracia em uma sociedade livre exige que governados saibam o que fazem os governantes, mesmo quando estes buscam agir protegidos pelas sombras. Max Weber (1864-1920) reconhecia na política a existência de uma “esfera oculta de poder”, onde agem “forças diabólicas”. Thomas Hobbes (1588-1679) chamava ao Estado de “deus mortal”. Seria apenas uma criatura artificialmente criada para reverberar a vontade da maioria. O Estado, como tal, está sujeito a deformações pela ganância de quem se aboletou no exercício do poder. Corre o risco de transformar-se num território de abusos, principalmente nas eras de crise. Mecanismos de defesa do interesse da maioria são mais do que necessários.
Dilma Rousseff chegou a dizer que “grampear o presidente” daria cadeia em outros países, e já há quem queira a prisão do juiz Sérgio Moro. Expressões como “Estado policial”, “abuso de autoridade” e “atentado à democracia” têm sido abundantemente usados. A história está cheia de invasões de privacidade em defesa dos interesses da República, desde a Grécia Antiga. Sem análise dos méritos, as aulas de Sócrates eram interceptadas por agentes infiltrados. O filósofo acabou condenado por “subverter a juventude” e “ofender aos deuses de Atenas”. Quem lê a biografia de Churchill surpreende-se com os grampos ao telefone do primeiro-ministro, a bem do Império Britânico em guerra. Em 1944 Churchill recebe a ligação de Edmund Lurcher, conhecido ladrão de obras de arte londrino, oferecendo-lhe uma tela do paisagista John Constable a preço muito baixo: 50 libras. Churchill, já terminando o primeiro litro de Johnny Walker, às 10 da manhã, vidrado na obra de Constable aceita o negócio e marca um encontro para o dia seguinte. O primeiro-ministro esquecera-se de que estava à véspera do Dia D, o mais importante da história contemporânea ocidental. Ele tinha um compromisso sério com o general Eisenhower para, juntos, iniciarem a invasão da Normandia à caça dos nazistas, do outro lado do Mar do Norte. O negócio nunca foi realizado.
Na língua inglesa existe uma palavra para significar a importância do acaso na descoberta de verdades ocultas: “serendipity”. Uma sequência feliz de eventos fortuitos que acabam levando a bons resultados. A gravação do bicheiro Carlinhos Cachoeira, feita por ele mesmo para caracterizar a tentativa de extorsão do ex-cobrador dos ônibus do Quaggio, Waldomiro Diniz, levou à prisão de José Dirceu e de mais meia-dúzia de membros do alto escalão do governo petista. Veio à tona o mensalão.
Chocou a opinião pública mundial aquilo que um jornal português chamou de “inacreditável fuga de Lula à Justiça”. Por se tratar de um país do G20, o Brasil ainda goza do prestígio reservado a membros do restrito clube das grandes potências. O NYTimes, em editorial, classifica de “ridículas” as manobras pela sobrevivência política de Lula. O ex-presidente não tem mais prestígio para ajudar a “salvar o país”. Como os 34 ministérios estavam ocupados, simplesmente criou-se mais um para acomodar Jacques Wagner, o ministro-chefe da Casa Civil. Dilma, se declarado o seu impeachment, só poderá culpar-se a si mesma por esse tipo de companheirismo à débito dos interesses republicanos. As conversas cujo teor vieram a público tratam de assuntos importantes para escancarar, mais uma vez, como se conspira contra a República. Isto basta para legitimar a sua publicidade. Os americanos também admitem que, em se tratando de pessoas públicas, que se dispõem a representar o povo no Legislativo ou no Executivo, exercem ou já exerceram mandatos, é direito do cidadão saber como eles se comportam até na vida privada. Se têm amantes, se batem na mulher ou nos filhos. Se dizem palavrões ou grosserias no linguajar cotidiano, ou adotam linguagens sexistas como “meu querido”, “minha querida, pode falar”. Mais grave ainda se se trata de coleta de elementos probatórios relacionados à investigação de crimes contra a administração pública.
O Brasil está numa emergência, em guerra contra a maior crise financeira da sua história. Há urgência em debelar-se o caos político para iniciar-se ajustes fiscais sérios e readequações orçamentárias. O Brasil escapa pelo ralo. Não há tempo para se discutir firulas jurídicas. O poder hoje exercido é prisioneiro de suas próprias mentiras. Getúlio Vargas saiu da vida para entrar na história. A grandeza nunca morre. Lula pode escapar da justiça, mas da história, o melhor que poderá esperar é o esquecimento.
O autor é jornalista e articulista do JC