08 de julho de 2026
Regional

Relógios centenários funcionam na região

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 11 min

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Big Ben de Garça da antiga rodoviária será restaurado

Um relógio não serve só para marcar horas. Ele marca a história de um local, de uma população e de muitos enamorados que contaram os minutos através dele para um encontro. O mais preciso deles é conhecido por Big Ben, símbolo mais representativo de Londres e do próprio Reino Unido. O Big Ben, ao contrário do que muitos pensam, não é o famoso relógio do Parlamento Inglês, nem tão pouco sua torre e sim o nome do sino.

O relógio é gigante, o ponteiro de minutos tem 14 pés de comprimento e cobre uma distância de um homem normal a cada cinco minutos. A torre que sustenta o sino é chamada de Torre do Relógio. O Big Ben é famoso pela precisão. Foram e são raras as vezes em que o relógio atrasa ou adianta. Quando isso acontece, colocam-se ou tiram pequenos pesos de uma bandeja presa a um pêndulo para corrigir a falha.

A título de curiosidade, uma moeda de um penny adianta o relógio em 25 centésimos de segundo durante 24 horas. Certa vez uma família de pássaros pousou no seu ponteiro e o desregulou em cinco minutos.

Na região de Bauru, na cidade de Garça (70 quilômetros de Bauru) também tem seu Big Ben. Estava instalado na torre da antiga rodoviária, uma área particular que foi recém adquirida pelo município. O local vai abrigar um Centro de Educação e Cultura e a relíquia da década de 40 voltará a fornecer a hora e o badalar dos sinos aos garcenses.

A máquina que contém peças importadas e foi montada no Brasil está nas mãos de um relojoeiro que graciosamente vai fazê-lo voltar a funcionar. Segundo ele, as peças não estavam quebradas. A engrenagem estava travada e voltou a funcionar para a alegria da população de Garça.

Na cidade de Jaú (47 quilômetros de Bauru) outro relógio marcou época. Em 1906, o aparelho foi instalado na igreja matriz. Foi doado por um capitalista italiano que custeou a manutenção do aparelho. Ele considerava que o relógio fornecia um horário oficial para que os moradores se orientassem. A peça desmontada ocupa um espaço no museu municipal .  

Na cidade de Lençóis Paulista (43 quilômetros de Bauru) o museu Alexandre Chitto guarda um relógio bastante conhecido daqueles que frequentaram os grupos escolares da década de 20. Conhecido como relógio oito eles estiveram presentes em todas as salas de aula e marcavam a hora dos estudantes.

Na mesma cidade, um relojoeiro usa como marcador de horas um relógio centenário que já pertenceu ao coronel Joaquim Anselmo Martins. Um fazendeiro que cultivava café.

Big Ben tupiniquim está em Garça  

Relógio da antiga torre da rodoviária está sendo recuperado, onde nos planos da prefeitura pretende instalar um Centro de Educação Cultural

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Prédio da antiga rodoviária de Garça da década de 40 passa por ampla reforma
Wanderley Cassolla na torre ao lado das engrenagens do relógio

Um relógio da década de 40 que estava instalado na torre da antiga rodoviária da cidade de Garça (70 quilômetros de Bauru) vai voltar ao seu local de origem e além de marcar as horas vai também mostrar “sua voz” por meio das baladas de um sino. Ele já está sob os cuidados de especialistas com mais de 40 anos de experiência que promete dar nova vida ao aparelho que encantou toda uma geração e que por certo irá encantar as novas gerações que irá conhecê-lo.

José de Dessa Cardoso confessa que conhece o relógio há muito tempo. “Eu já o tinha visto. O dono dele que é de Marília me levou uma vez lá na torre. Ele funciona igual a um relógio cuco. Tem pêndulo e o peso dele é grande. A corda dura oito dias até que ela chegue em baixo. Para dar corda, usa-se uma manivela.”

A montagem dele foi feita no Brasil, embora as peças sejam importadas, enfatiza o relojoeiro. “A fábrica dele era em São Paulo. Naquela época não se fabricava essas peças no país. O material é muito bom, não apresentou desgaste nenhum. Ele ficou 20 anos sem badaladas e estava parado há quatro anos. O sino não funcionava. Ele estava instalado na torre da antiga rodoviária, um imóvel particular. A prefeitura comprou o espaço para transformar em um Centro de Educação e Cultura. A torre vai receber o relógio de volta quando o prédio novo ficar pronto.”

O relógio não apresentou quebra de peças, segundo o especialista. “Eu coloquei ele para trabalhar e verificar se tinha algum defeito. Ele não apresentou defeitos. Está trabalhando normal.  Só o cabo de aço estava quebrado. Eu ainda não lubrifiquei as engrenagens. Vou limpar com gasolina de avião. Ele está funcionando há 15 dias. Alguns relojoeiros que foram ver tinham dito que não tinha conserto e que poderia ser substituído por uma máquina mais moderna. O dono do relógio pediu para eu olhar e constatei que ele está inteiro. Ele doou para a prefeitura. É uma peça histórica que vale ser preservada. As engrenagens estavam travadas.”

Igual ao Big Ben de Garça foram fabricados 1.200 peças no Brasil, segundo levantamento da prefeitura. A fabricação tem a assinatura da família de italianos Vitaliano José Michelini. Na região existe um outro instalado na torre da Igreja Nossa Senhora das Dores em 1951 na cidade de Bauru. A estação rodoviária, segundo Wanderley Tico Cassolla, não tinha construções dos anexos que prolongaram o imóvel até o cruzamento com a rua Minas Gerais.

“O amplo terreno, em chão batido, era usado para estacionamento das ‘jardineiras’ e em várias oportunidades, como local para os grandes comícios políticos. A rodoviária fica na área central da cidade e o imóvel estava praticamente abandonado. Com poucos comerciantes ainda instalados ali.”

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A antiga rodoviária é objeto de pesquisa

Segundo um trabalho de pesquisa intitulado “Antiga Estação Rodoviária: Lugar de Memória e Turismo” de autoria de Graziela F.S.Guimarães, publicado na revista científica Eletrônica Turismo de dezembro de 2004, a antiga estação rodoviária é considerada um marco histórico e constitui-se em patrimônio Cultural para a sociedade garcense. “Possui uma rara beleza arquitetônica e abriga a torre do antigo relógio.”

De acordo com o trabalho, a antiga estação rodoviária foi construída pelos irmãos Visotto, em 1939. O engenheiro responsável foi Dr. Bezerra, e o construtor operador foi Cassarsa. A inauguração foi em 1939 com a presença de honra de Getúlio Vargas, então presidente do país. “O espaço para embarque e desembarque era todo coberto. Possuía excelente iluminação, pisos de concreto e sanitário.”

Os mais antigos moradores dizem que é um patrimônio histórico que marcou a fase áurea de Garça. Foi tida como a maior estação rodoviária da América do Sul. Um incêndio ocorrido em 1943 destruiu parcialmente o imóvel. Até a pouco tempo funcionava um pequeno comércio no local.

Prédio antigo será Centro de Educação e Cultura

A antiga rodoviária de Garça era um imóvel particular. Como era de herdeiros, uma parte foi vendida para a prefeitura e a outra ainda estava com os donos. Porém, no final do ano passado, a administração local conseguiu comprar todo o imóvel. O investimento não foi revelado pelo secretário municipal de Desenvolvimento Urbano, Gilberto Donizetti Sanches.

“O trabalho começou em setembro de 2015. A partir da aquisição, a prefeitura deu seis meses para os inquilinos desocuparem o imóvel. Eram oito comerciantes. Eram botecos e um comércio que degradava o ambiente. A prefeitura adquiriu por pressão popular. É um prédio histórico que estava deteriorado. Vamos dar outra destinação e direcionar para a área educacional.”

Sanches enfatiza que como a cidade tem sua economia calcada na área tecnológica e de automação de portões existe uma carência de mão de obra especializada. “Vamos transformar em um Centro Educacional e Cultural direcionado para a ciência e tecnologia. Não vai ser uma escola normal é para qualificar a mão de obra. Reforçar a parte do saber, do conhecimento, da ciência. Será  construído um planetário também.”
O projeto ainda está em definição. “A área é de 1.600 metros. Em setembro não sabíamos as condições da estrutura, o prédio tem 75 anos. Fizemos o levantamento histórico da época que foi construído e constatamos que o prédio original é o que deixamos hoje. Em determinada época ela foi ampliada para abrigar um centro comercial. Garça era um local de distribuição para várias regiões.”

Durante o estudo da rodoviária foi constatado que a área ampliada não tinha valor histórico a ser preservado. “Além de estar muito deteriorada, com estrutura danificada. A caixa original, estava aparentemente estável, optamos por tirar tudo o que foi alterado e voltar ao estado original. A frente estava boa. Vamos reforçar a estrutura antiga, há infiltrações. Ainda estamos na fase final do projeto. Temos certeza que iremos aproveitar muita coisa.”

A antiga torre que abrigava o relógio foi projetada isolada da caixa da rodoviária, segundo o secretário. “Vamos restaurar a torre e colocar o relógio de volta. Ele já está funcionando. Temos uma verba da Educação prevista para o projeto. As marquises originais estão preservadas apesar de tudo danificado. O relógio está nas mãos de um relojoeiro garcense que assumiu o trabalho gratuitamente, por paixão.”

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Resgatando as badaladas

O secretário Gilberto Donizetti Sanches comemora o conserto do relógio. “Há mais de 20 anos que o morador de Garça não ouve as badaladas do sino. Pelo que sei, isso vai voltar. Tem um valor histórico incalculável. O prefeito da cidade quer entregar a obra até o final do ano. Para que isso se concretize optou se por um sistema de construção pré-fabricada. A empresa que ganhar a licitação vem e faz as paredes e depois ele vão montando as peças como se fosse montar um guarda-roupas.”

Relógio italiano marca hora em Jaú

Antigo aparelho foi doação do italiano Vitor Cesarino já no início do século passado, mas depois foi substituído por um mais aparelho mais moderno

Julio Polli/Divulgação
Torre da Igreja Matriz Nossa Senhora do Patrocínio de Jaú ostenta um relógio

A cidade de Jaú ( 47 quilômetros de Bauru) ganhou um relógio mecânico em 1906. Ele foi instalado na torre da Igreja Matriz Nossa Senhora do Patrocínio. A ‘andaça’ dos ponteiros regulou a vida dos jauenses até, por volta de 1914, quando parou marcando 10h07. Ele voltou a funcionar em março de 1915. Ficou instalado na torre até por volta de 1950, quando um padre da época substituiu por uma máquina mais moderna. Atualmente as engrenagens do relógio estão no museu municipal.

O relógio foi uma doação feita pelo italiano Vitor Cesarino com a finalidade de fazer com que o jauense tivesse um horário oficial. Durante muitos anos ele custeou a manutenção do relógio. Quando foi retirado, ele foi levado para a Igreja São Benedito, onde ficou instalado por algum tempo. O imigrante foi um grande colaborador da cidade. Ele também trouxe para Jaú uma agência do Banco Francês-Italiano nos últimos anos do século 19.

Relíquia de Lençóis

Uma relíquia marca as horas para o relojoeiro Uris Paccola, morador de Lençóis Paulista (43 quilômetros de Bauru). Dentro de uma caixa de madeira de lei, sob um vidro trabalhado funciona um relógio de parede que pertenceu ao coronel Joaquim Anselmo Martins, fazendeiro de café que foi vereador e prefeito da cidade. “Ele funciona normalmente. É uma relíquia.”

Paccola que agarrou a profissão há 60 anos conta que o dono do relógio levou o aparelho para conserto porque não funcionava mais e ele acabou fazendo negócio com o proprietário. “Ele tinha recebido o relógio em uma troca com produtos agrícolas. Não funcionava mais. É centenário.”

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Museu Alexandre Chitto de Lençóis onde estão guardados relógios de moradores

No Museu Alexandre Chitto em Lençóis Paulista um outro relógio chama a atenção dos visitantes. É um modelo conhecido como relógio oito da década de 20, comenta Conceição Langone.  “Segundo Mary Chitto ele foi colocado em todas as salas dos grupos escolares inaugurados da década 20. Em 1913, o governo iniciou a construção do primeiro grupo escolar em Lençoes, que na época se escrevia com e. A unidade escolar  foi inaugurada em 1914 e o relógio oito passou a ocupar um espaço dentro das salas de aula. O aparelho não funciona mais e faz parte do acervo do museu.”

Um relógio de parede que esteve instalado durante muitos anos na Estação Ferroviária de Pederneiras, está na estação. A história dele não está catalogada, segundo informações da Secretaria de Cultura, porém ele tem mais de 100 anos. Foi doado pela família do proprietário e faz parte do acervo.

Outro relógio relíquia da Igreja do Instituto Lauro de Souza Lima é datado de 1940 e tem patente italiana, podendo ser semelhante ao Big Ben de Garça. A igreja é um dos prédios da antiga colônia de hansenianos e estava passando por restauração. Com a ajuda de uma empresa, o funcionário do instituto Jaime Prado colocou a máquina para funcionar.