| Malavolta Jr. |
| O frei faz parte da Congregação Missionária Santo Inácio de Antioquia |
Um padre que usa a arte para evangelizar e propagar a fé. O personagem da Entrevista da Semana deste domingo (27) é o frei Alfredo Francisco de Souza, da Paróquia de Santa Luzia, responsável pelo texto e pela organização da tradicional Encenação da Paixão de Cristo no Vitória Régia, que chegou em sua 13ª edição na última terça-feira (22).
Antes de ser padre, ele deu aulas para crianças com dificuldades de aprendizado. Também lecionou língua portuguesa e inglês. “Para mim, ser padre não é só rezar missas. Somos aquelas pessoas que a Igreja tanto precisa, capazes de acrescentar e melhorar o mundo. Por isso eu não me vejo somente dentro de uma igreja. O Vitória Régia é um espaço, a praça é um espaço, as comunidades também são espaços, o mundo é um espaço”, pontua.
Nascido em Florianópolis, Santa Catarina, frei Alfredo está em Bauru há 13 anos, onde tem colocado em prática iniciativas criativas e até empreendedoras. Leia mais.
Jornal da Cidade – O senhor, que nasceu em Florianópolis, percorreu quais caminhos até chegar em Bauru?
Frei Alfredo Francisco de Souza – O caminho de um religioso passa por diversas etapas e lugares. Fiz a faculdade de filosofia na PUC de Belo Horizonte, a teologia eu fiz metade no Rio de Janeiro e metade em São Paulo. Tornei-me padre em 2001. Eu sou da Congregação Missionária Santo Inácio de Antioquia. Trabalhei três anos como padre na periferia de Santo Amaro. De lá, vim para Bauru, onde estou há 13 anos.
JC – Fale um pouco sobre a sua congregação.
Frei Alfredo – Nosso carisma é resgatar a dignidade do ser humano, o que abre um leque de possibilidades. Há três anos, eu era o superior da minha congregação. Nós temos missão nos Estados Unidos, Colômbia, três paróquias na Itália... E muitas vezes eu precisei ir até essas localidades ajudar os irmãos. Em Bauru, estamos há mais tempo do que eu e desenvolvemos atividades sociais através da creche Cantinho Inaciano, no Pousada da Esperança, e na comunidade do Ferradura Mirim, onde moramos atualmente.
JC – O chamado da vocação chegou para o senhor ainda na infância?
Frei Alfredo – Minha família é muito católica. Tenho muitas lembranças da minha infância dentro da Igreja. Quando eu tinha 10 anos de idade, eu estava sentado no primeiro banco e, enquanto via e ouvia o padre pregando, eu falei para mim em pensamento que queria ser como aquele homem. Cresci, entrei no seminário, desisti, namorei, trabalhei... até que, já maduro, eu tive a certeza sobre a minha vocação. Sempre tive o apoio da minha família, que me deixou livre para seguir meus caminhos.
JC – A certeza da vida religiosa foi marcada por um momento?
Frei Alfredo – Por uma passagem de participação dentro da Igreja. Quando jovem, a minha geração se preocupava muito e era engajada em movimentos sociais. Eu era também, inclusive com movimentos estudantis, em Florianópolis. Havia um padre jovem em Santa Catarina que reunia um grande grupo de jovens. E a questão política e social era muito presente. Estávamos sempre envolvidos com diversas causas. Acredito que minha vocação tenha nascido desse meu momento de juventude.
| Malavolta Jr. |
| O frei está em Bauru há 13 anos; tornou-se padre em 2001 |
JC – Um frei fotógrafo?
Frei Alfredo – (Risos) Não é que eu faça muitas fotos, mas gosto de tirar fotos de paisagens, de momentos que eu vejo quando viajo ou mesmo quando encontro algo que considero inusitado. Mas não tenho muito tempo para desenvolver a fotografia. Eu também gosto muito de música. Quando eu era mais jovem, eu tocava violão, fazia vocal e até tive uma banda. Às vezes eu me arrisco cantando na igreja. Em alguns momentos da comunidade, a gente coloca a música. Ensaio com eles. Mas já cantei até em jantar italiano.
JC – O senhor foi o responsável pela construção da Igreja de Santa Luzia, certo?
Frei Alfredo – Na verdade, quando eu cheguei havia apenas o alicerce da construção. Comecei a movimentar a comunidade. Quando a gente se junta para construir, as pessoas têm esperança e motivação. E foi nessa dinâmica que construímos o prédio e os relacionamentos da comunidade. Temos diversos eventos religiosos e também culturais na paróquia. Todo dia 13 há a missa de Santa Luzia. Estamos com as portas e corações abertos. O Papa Francisco mesmo diz que a Igreja precisa estar em saída, sempre em movimento. Temos movimentos fortes na paróquia.
JC – Um deles é a tradicional Encenação da Paixão de Cristo no Vitória Régia.
Frei Alfredo – Sim. Eu sou apaixonado pelo teatro. Na última terça-feira (22), chegamos em nossa 13.ª edição. Já recebemos uma moção de aplauso da Câmara de Bauru por esse trabalho, entre outras ações. Eu invento bastante coisa. Gosto muito de usar a arte para evangelizar e passar as mensagens de fé. Se tem uma coisa que a fé abriga é a criatividade. Temos um grupo de dança na paróquia que eu criei há bastante tempo: As Pastorinhas. É preciso chegar no coração de cada um da maneira que a pessoa consegue captar. É preciso quebrar as barreiras de qualquer tipo de preconceito. O mundo é feito de relações. Outro pensamento que sempre trago comigo é: a mente é como um paraquedas, só funciona se abrir.
JC – Como o senhor enxerga o papel da Igreja Católica no atual contexto mundial (terrorismo, crise econômica, intolerância religiosa...)?
Frei Alfredo – Eu vejo com muita esperança. Muita esperança. O Papa Francisco foi um presente do céu para nós. Não só para os católicos. A sociedade está carente de lideranças, de referenciais. E surge este homem do fim do mundo, como ele diz (lá da ponta). Ele dialoga com todos os setores da sociedade. Ele não tem medo de falar com ninguém. Ele não tem barreiras. Ele transita porque ele conquistou a sociedade mundial, de maneira geral. E ele se coloca como essa referência que tanto precisamos. É preciso escutar o Papa.
JC – Uma mensagem para este domingo de Páscoa?
Frei Alfredo – A mensagem principal está nas cruzes que temos que carregar. Nenhuma cruz é permanente, até a de Cristo teve horário. Precisamos ter esta esperança. A cruz das mulheres que sofrem o machismo, das pessoas vítimas dos atentados terroristas, das pessoas que estão doentes... No Brasil, vivemos um momento de confronto e intolerância, até mesmo pela política. Páscoa é o viver juntos. É a retirada dessa cruz e a superação do que não é vida, não é alegria, não é paz. É um movimento de saída de uma situação para outra. A Páscoa acontece quando eu olho para mim mesmo e sou capaz de captar ao meu redor o que é possível para melhorar, crescer como ser humano, como cristão e construir relações verdadeiras, baseadas na acolhida do outro como ele é, com justiça e verdade.
Perfil
Frei Alfredo Francisco de Souza
Tem 49 anos e nasceu em Florianópolis
Seu hobby é música e fotografia
Música clássica, MPB e pop rock são seus estilos musicais prediletos
No cinema, “A Cor Púrpura” tem sua predileção
Sobre o futebol, ele veste as camisas do Santos e do Figueirense
No momento, o frei está lendo “O Nome de Deus e a Misericórdia”, do Papa Francisco
Nota 10: Para os que têm capacidade e coragem de acolher e abraçar o diferente
Nota 0: Para os intolerantes e preconceituosos
E-mail: alfredosouza1966@gmail.com