Um sistema adotado recentemente pela Polícia Civil foi responsável por esclarecer a identidade de uma vítima de homicídio e de um autor de latrocínio em Bauru. É a primeira vez que a tecnologia, desenvolvida pelo FBI, nos Estados Unidos, auxilia a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) local a elucidar crimes desta gravidade.
Denominada Afis (Automated Fingerprint Identification System, ou Sistema de Identificação Automatizada de Impressões Digitais), ela permite comparar impressões digitais coletadas na cena de crimes com impressões previamente arquivadas em um banco de dados. Nos dois casos em que o dispositivo ajudou no trabalho da polícia de Bauru, ambos no ano passado, as impressões foram coletadas diretamente dos dedos de vítima e autor.
Na primeira ocorrência, descobriu-se que o homem encontrado morto às margens do rio Batalha, com ferimentos nas costas e na cabeça, em agosto de 2015, era Fábio Ponciano da Silva Souza, 28 anos. “Foi o primeiro caso da minha carreira em que conseguimos uma identificação a partir deste sistema”, pontua o titular da DIG, Kleber Granja. A autoria deste homicídio, contudo, ainda não foi esclarecida.
Também no ano passado, a Polícia Civil conseguiu esclarecer o latrocínio que vitimou o fiscal de renda Hugo Paulo Teixeira, 57 anos. Também em agosto, a chácara onde ele vivia com a esposa, às margens da rodovia Bauru-Iacanga, foi invadida por quatro pessoas.
Dedo decepado
Um dos criminosos foi identificado como Adriano José Pinheiro, 24 anos, o “Paraguai”, que teve o dedo anelar da mão direita decepado durante luta corporal com a vítima, que morreu após reagir ao assalto e receber dez facadas que atingiram cabeça, braços, tórax e axila. A partir da identificação de Paraguai, os outros quatro integrantes da quadrilha também foram presos.
Granja explica que a confrontação, contudo, pode ser feita até mesmo a partir de fragmentos de impressões digitais encontradas em locais de crime, que podem ter sido deixadas em superfícies como vidros ou metais, por exemplo. As amostras são enviadas ao Instituto de Identificação Ricardo Gumbleton Daunt (IIRGD), em São Paulo, onde são confrontadas automaticamente com cerca de 10 milhões de impressões armazenadas em um banco de dados.
“São impressões de RGs de indivíduos com passagens criminais e de RGs mais novos, da população em geral, que vão sendo digitalizadas. O resultado desta confrontação é inequívoco e mais preciso do que o DNA”, pontua.
Mesmo quando técnica não ajuda, índice de esclarecimentos é alto
A expectativa é que, com a ampliação paulatina do número de impressões armazenadas no banco de dados, mais casos possam começar a ser esclarecidos a partir da tecnologia disponível. Mas Kleber Granja salienta que ela funciona como um auxiliar no trabalho de investigação, já que, mesmo quando não é possível coletar amostras de digitais nas cenas dos crimes, a Polícia Civil tem obtidos resultados consistentes quanto à elucidação de crimes.
Segundo o delegado, os outros dois casos de latrocínio registrados em 2015 foram esclarecidos, mesmo sem o recurso do Afis. Da mesma forma, das 28 ocorrências de homicídio contabilizadas no ano passado, 20 foram elucidadas e outras quatro possuem tese de autoria definida.
Nos 28 eventos, morreram 31 vítimas. Os três casos em que houve múltiplas vítimas referem-se a confrontos policiais, que resultaram na morte de sete suspeitos, conforme o JC noticiou.
Mulheres
Os seis assassinatos que tiveram mulheres como alvo, em 2015, também foram esclarecidos, sendo quatro deles classificados como feminicídio. De acordo com o delegado Kleber Granja, desde que ele assumiu a DIG, em 2011, todos os homicídios contra mulheres foram elucidados.
“De forma geral, a Polícia Civil tem condições de traçar o perfil da vítima mais rápido, já que a mulher possui uma rotina mais regrada, em família, rastreável. Isso facilita o estudo, também, das pessoas que a cercam, permitindo criar uma tese sustentada e efetiva de esclarecimento da autoria desses crimes”, pontua.
| Quioshi Goto |
| Delegado Kleber Granja, da Delegacia de Investigações Gerais: “Resultado desta confrontação é mais preciso do que o DNA” |
Drogas e armas
Segundo Kleber Granja, o crime de homicídio tem difícil prevenção. Mas, além do amparo social que o município deve prestar aos seus moradores para afastá-los da criminalidade, os mecanismos para evitar este tipo de ocorrência passam, também, pelo combate a outros delitos que antecedem os assassinatos, como o tráfico de drogas e de armas. A tese é reforçada pelos dados de 2015, em que 42,8% dos assassinatos esclarecidos apontaram envolvimento da vítima e autor com o comércio ilegal de drogas. No mesmo ano, 64,3% dos homicídios foram efetivados com arma de fogo.
O delegado reforça que a polícia tem se esforçado para desarticular quadrilhas de traficantes e recolher armas obtidas sem autorização legal no mercado paralelo. Este trabalho, ainda de acordo com ele, contribuiu para a redução nos índices de homicídios – que caiu de 34 vítimas em 2014 para 31 casos no ano passado. E permite que Bauru siga dentro dos índices preconizados pela Organização Mundial da Saúde, que estabelece um limite máximo de dez mortes por 100 mil habitantes. Considerando a população de 366 mil habitantes em Bauru, o patamar de alerta seria atingido a partir de 36 vítimas fatais em um ano.