A cama sabe que vai perdê-lo. Todo dia, às seis, é assim. Antes da cara do Sol, outra luz nasce dentro desse velho com encontro marcado. As folhas no chão da calçada já se esparramaram à espera do companheiro. Vassoura, pá, sacos plásticos, ferramentas da limpeza diária. Sem camisa, a cansada musculatura desenha o corpo flácido. Chinelos arrastados em passos lentos e a mesma bermuda larga que, descuidada, deixa entrever o rego que separa as nádegas.
Em paz, ele se entrega à limpeza. A vassoura risca o chão num vai-e-vem-e-volta-e-vai sonoro, quase musical. O corpo velho, ainda espigado, mantém alguma elegância nos braços dançantes. A calçada, de repente um salão, sugere a poética imagem de negro presidente em tango argentino.
A vassoura na calçada é a mesma que lhe varre a alma. Limpezas iguais, por fora e por dentro. O braço que vai, volta com a lembrança dos filhos que moram longe, os netos tão distantes, o empréstimo consignado vencendo, o fim do ano chegando, a pintura da casa, o décimo-terceiro, a família enfim, o natal, os meninos correndo, alegria na casa, vem jogar bola comigo, vô! Imagens boas amontoadas, folhas da saudade.
A calçada limpa, a alma em paz. Ensacadas as folhas, recolhidos os pensamentos, hora de coar o café. A mulher, antiga companheira, está para acordar, a mesa precisa estar posta, seu diário dever. A velha chega à cozinha e não lhe dá sequer seco bom-dia. A frase é a de sempre, o mesmo alfinete diário: “já cumpriu sua besta mania das folhas? Tá mais calmo agora?” O velho nada responde, anestesiou-se à picada, sabe que a mulher precisa desse alfinete tanto quanto ele precisa das folhas no chão.
Servido o café, de novo o velho volta à calçada. O jornal, o banquinho, as costas no tronco lenhoso. Juntos, a árvore e o homem. Juntos, o jornal e a sujeira dos homens. Coisas difíceis de ler. Impossíveis de varrer.
Depois de um dia longo, anoitecendo, o velho volta para despedir-se da árvore. Arranca tufos de matos que lhe agridem as raízes. Cumpre, assim, proteção carinhosa à amiga que, no chão, espalha todos os dias as folhas generosas. Até a manhã, se Deus quiser...
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - curso_romag@uol.com.br