Cidades consideradas modernas são aquelas que exibem em sua principal via de entrada um portal, um obelisco, um monumento para chamar a atenção dos moradores e dos viajantes eventuais. De chamativa beleza ou suspeito bom gosto, caminhantes param à sua frente observando os detalhes da obra ou dos dizeres insculpidos nas lápides alinhadas.
Para a cidade tem o significado de amor. Para quem se aproxima ao seu derredor constata a homenagem aos moradores citadinos e da área rural. Vez por outra há uma singela reverência ao seu laborioso povo. O portal exibe a plenitude ampla do espaço e o verde das silenciosas árvores sob o vasto céu azul de nuvens brancas.
Possui também a imponência de um farol luminoso, indicando ao forasteiro as avenidas, ruas, becos, trilhas e pinguelas de uma cidade que quer ser jovem, de costumes cosmopolitas mas mantém, como lembranças, resquícios do chão de terra batida dos seus primeiros habitantes, placas registrando armazéns de secos e molhados, muitas casas exibindo arquiteturas estrangeiras – varandas e sacadas, casas rés das calçadas, muitas vazias e outras danificadas pela voragem do tempo.
As coisas que restam da cidade antiga sobrevivem num lugar da alma, lugar que atende pelo nome de saudade. Passando pelo portal e olhando para ele, repensava suas memórias mais queridas. Em frente ao portal, contemplando as nuvens, sabia que muitas pessoas, de todas as origens ali encontraram os caminhos sob a ogiva do céu na saudade dos corações. Buscando seus amores, os abraços, os sorrisos, as boas e as notícias não desejadas dissolvidas na poeira das presunções efêmeras.
No voo dos pensamentos, imagens confusas se colocam onde querem dando ao portal uma certidão de nascimento, uma visão de eternidade. À procura do melhor endereço o caminhante lembra-se do farol... Sente-se convidado a descansar em sua paz, como o ponto final, verdadeiro e eterno de sua peregrinação ao longo da existência.