Segredos. Muitos inocentes, outros nem tanto. Alguns aceitáveis, diríamos humanos. Há também os terríveis e, pior ainda, os monstruosos. Contudo, no retrato emoldurado na sala de jantar, não se imaginam as muitas caras escondidas no porão.
Pendurados em cabides, trancados no mais escuro de cada um de nós, lá jazem os segredos. Embora os escondamos, é justificável que os tenhamos. Mais do que isso, é humano que assim seja. Cada mortal há de ter um cantinho indevassável que seja só seu. Afinal, a vida tem esquinas inesperadas. Faltam placas e avisos e os buracos são traiçoeiros. Culpa daquela casca de banana, daquele vinho inebriante, daquela chave na mão, daquela conversa melada, da mão indecente, sobretudo inesperada, culpa daquele homem ou daquela mulher, todos desgraçados, que melhor a culpa fica neles do que em nós. E que ninguém duvide de que o segredo de cada um é uma pequena porção do fermento da paz por todos desejada. Impossível viver estando acesas todas as luzes. Bendito escuro que nos protege.
Independentemente das penas que os graduam, para a nossa segurança os segredos estão devidamente amordaçados. Alguns, mais graves, foram zipados, como os dentes de um fecho éclair que mordem raivosamente os trilhos da boca para que ela não os traia. Irmãs dos segredos são as culpas. No fundo desse poço sem fundo, algumas choram baixinho, nenhuma dificuldade em niná-las. Outras reclamam, mas de bom grado recebem propinas. O problema são as culpas que berram desesperadamente exigindo o divã e a conta difícil de pagar. Estas, contudo, são cada vez mais raras, temo que estejam em extinção.
Houve um tempo em que a culpa realmente machucava e o perdão era o curativo necessário. Tempo de temer os olhos divinos que tudo viam e sabiam. De obedecer ao Pai, tão certo era o juízo final. De confessar o pecado para limpar o porão. Tempo de códigos éticos, de respeito aos valores, de se confiar até mesmo num solitário fio de barba. Tempos em que se temia a morte e o depois dela.
Pouco a pouco, o homem foi se desamarrando. Percebeu que o melhor era desapegar-se de tudo e de todos. Precisava libertar-se da maldita culpa que o matava. Então, para não morrer, matou a morte e depois dela, o regramento ético, a voz da consciência e o divino poder. O homem matou a culpa. Num mundo assim, sem regras e valores, tornou-se o próprio deus. Nenhuma conta a prestar, confissões a fazer, dores a purgar. Estando morta a culpa, tudo lhe foi liberado, hora de viver exclusivamente para si. A vida virou um imenso pudim e a fome, que o lambuza, desde então só aumenta.
Precisava, contudo, esconder a cara monstruosa. Recorreu, então, às palavras, dado o poder de serem elas tintas para quaisquer paredes. Verbalizando, poderia construir um mundo verbalmente limpo, justo, ético e, até mesmo, religioso. Foi o que verbalmente fez. Nesse momento, a boca passou a esconder os feitos das mãos. A mão fazia, a boca mentia.
Então, a vida se fez feroz, selvagem, um vale-tudo sem culpa, nenhuma lei, nenhum Pai punidor. Um mundo brutal e faminto por baixo do pano. Por cima, outro limpo, irretocável. A perfeita maquiagem das palavras continua fazendo dele uma falsa cara linda. Definitivamente, a boca divorciou-se das mãos. A mão faz, a boca mente.
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras. curso_romag@uol.com.br