09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Acordai! Amanhã é segunda

Nélson Itaberá Gonçalves é jornalista e compositor
| Tempo de leitura: 4 min


Sem nenhuma pretensão de satanizar a tese pró ou contra o andamento do processo de impeachment, até porque seria perder tempo a esta altura, o que continua a me incomodar a partir do “sentimento das ruas” é a majoritária percepção de ignorância em torno da essência do conteúdo da denúncia e de reações movidas muito mais por ódio ou sentimento de aversão à política do que pelo raciocínio conjuntural. E aqui reside o maior risco. A falta de percepção, por manipulação ou ausência mesmo de capacidade de raciocínio sobre o cenário, sobre os perigos da convulsão social e, ou, do que está em jogo na acomodação em Brasília a partir de segunda-feira.

E o que distancia ainda mais o senso comum do envolvimento sereno com a discussão do impeachment é o questionamento, mesmo que de reflexão mínima, de que, com Dilma ou com Temer, há perigo iminente de convulsão social, por desagregação, perda de civismo, insurgência, certo anarquismo até e frustração, inclusive, com o eventual governo tampão.

A questão que mais me incomoda nesse lamaçal de manipulação de versões, dos comportamentos mais imbecis aos revoltosos sem causa, é de que continuo duvidando, mesmo entre os brasileiros mais vocacionados para o comportamento ético e sereno, que existam muitos capazes em sair em defesa de um eventual governo Temer no dia seguinte ao afastamento de Dilma. Até porque seria escolher pelo erro entre iguais.

E me causa, antecipadamente, ainda mais apreensão ouvir frases ingênuas no caminho do “vamos limpar um por vez”; “vamos tirar um por um até acabar com essa roubalheira”... Estamos em uma encruzilhada sem precedentes. Ruim com Dilma, péssimo com ela na segunda-feira. Ruim com Dilma, ruim com Temer na segunda-feira. Se o problema é a ferida da corrupção, a propina sujou tanto o terno do grisalho quanto o vestido da assecla lulista. Mas isto, repito, não está sendo julgado neste domingo na Câmara Federal.     

Registro que, embora não considere este Congresso o palco moral adequado para fazer cumprir a atual Constituição, com uma minoria de exceções, e observe que pedalar em créditos orçamentários nunca foi pecado mortal capaz de destruir o Éden Republicano – no campo político e de gestão –, não há a menor possibilidade política de Dilma continuar comandando o País. Mas daí a atropelar o processo é outra história.

Mas então não há saída? Sim! Há! Mesmo sem ser jurista, não me sinto ignorante o suficiente para deixar de ponderar que, juridicamente, organicamente, constitucionalmente, o caminho natural, legítimo, é o de derrubar a chapa Dilma-Temer em razão dos elementos probatórios que saltam aos olhos no sentido de comprovar que a dupla foi eleita com o uso de dinheiro sujo, do propinoduto da Petrobras. Este é o caminho institucional, jurídico e de respeito à Constituição e aos eleitores.

Mas não faltará quem diga que nem Dilma, nem o País, resistiriam a mais rachaduras em um segundo eventual pedido de impeachment. Entretanto, é ilusório esperar que a velha raposa peemedebista deixará de juntar os pausinhos em torno de um discurso de “reconstrução da Nação”. E aí entra o bloco do engavetamento, do deixa disso e do “País não aguenta mais” se encarregando de tentar livrar a cara de alguns entre os mais de uma centena de políticos e empresários metidos até a garganta na sujeira do petrolão.  

E essa “assepsia seletiva” não me passa à garganta. Calma lá cara pintada: o Cunha pode ser o vice do nosso País amanhã? O caminho natural desse engodo que se transformou a chapa vencedora das eleições é o da destituição da titular e do reserva. E esse caminho é pelo TSE. Mas não acredito em limpeza “geral e irrestrita”.

O PT não tem do que reclamar. Cavou sua cova. O petismo lulista paga pela baderna moral que ajudou a montar nas instâncias do Planalto, cicuta que os vermelhos beberam com a mesma voracidade com que agora alguns dos “aristocratas” de mão suja do PMDB, PP e outros também o fizeram. E contra eles não há que se ter a menor piedade. E mais: trocar a farda não limpa a tropa.

O sonho de meu sonho irreal é o de que, desse pesadelo, acordarei vendo apenas que a Casagrande cansou de brincar de democracia e nós, mortais dirigidos, voltaremos à senzala social. E onde vai ficar a “limpeza moral” que dominou bandeiras e gritos nas ruas até este domingo? E, juro, quero estar errado!

Na segunda-feira não sei se

acordarei com o Brasil da convulsão social a partir de quem perdeu a boquinha ou do igualmente desastroso “pacto de silêncio” organizado pelos que a reconquistaram, temporariamente, pela via indireta. O Brasil está longe de ser passado a limpo neste domingo.