09 de julho de 2026
Articulistas

Tiradentes, impostos e o momento atual

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 3 min

Qual é a relação existente entre Tiradentes, impostos e o momento atual da economia nacional? Vou tentar estabelecê-la neste artigo. Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes, transformou-se em mártir devido ao seu enforcamento em 1792. Isso deu em função de sua participação na Inconfidência Mineira, que pode ser retratada como um movimento de independência inspirado na revolução americana de 1776.


A tentativa separatista estava ligada ao declínio da produção de ouro de Minas Gerais, impossibilitando atender às exigências que eram impostas pela coroa portuguesa, que além de desejar o ouro, ainda elevou a carga de tributos. Neste particular, a revolta foi inevitável e Tiradentes comandou o grito de liberdade de uma colônia cansada de ser explorada. Em função de delações de informantes, a inconfidência mineira foi desmantelada e Tiradentes foi julgado e condenado à forca. Fim rápido e trágico de uma luta pela liberdade.


Observem que com este breve relato já é possível encontrar ligações importantes que nos remetem a responder a provocação deste artigo: Tiradentes lutou contra a dependência da coroa, se posicionou contra o aumento da carga tributária. O que observamos no momento atual da política e da economia brasileira que remete a Tiradentes?

Exatamente a necessidade de, sem violência, nos posicionarmos contra tudo que não promove o bem-estar social e pode ser considerado abusivo. Não podemos aceitar passivamente que de cada R$ 100,00 produzidos neste País, quase R$ 40,00, ou seja, 40%, sejam canalizados ao setor público e este seja incapaz de controlar suas contas, gerando indesejado desequilíbrio econômico.


Também não é possível aceitar os gastos sem qualidade. Obras inacabadas, construções com material de terceira, falta de investimentos em infraestrutura, inchaço da máquina pública, canalização de recursos para entidades e movimentos que somente servem à manutenção do poder, isso sem falar das estatais que foram e estão sendo saqueadas por acordos viando sustentar partidos e levar ao enriquecimento daqueles que se servem do poder.


A concentração exagerada de poder em Brasília é outro ponto a ser questionado. Um Parlamento que mais parece uma torcida de futebol (o que ficou evidenciado na sessão da Câmara dos Deputados do último domingo) gera dúvidas na real capacidade de decidir pela população e se há efetivamente “espírito público” entre os políticos. Não podemos permitir que a impunidade prevaleça.

Não há que se falar em político útil, que sirva a um determinado propósito e consiga sair ileso de maracutaias, roubalheira e de todo tipo de corrupção. Fizeram o certo no tocante as pedaladas fiscais, mas não podem, via “acórdão”, deixar de penalizar quem desviou milhões de Reais dos cofres públicos.


Lembrar em data especial, estabelecer um feriado, daqueles que podem ser considerados ícones de nossa história, como Tiradentes, somente faz sentido se vierem acompanhados de reflexão e acima de tudo de avanços da sociedade, caso contrário suas lutas terão sido em vão.


Temos uma democracia jovem, mas isso não pode ser desculpa para aceitarmos o desmando que prevalece neste momento. Tiradentes trilhou seu caminho e combateu um bom combate, mas sacrificou sua vida nesta luta. Nós, cidadãos contemporâneos, precisamos continuar alertas, com o senso crítico aguçado, e não aceitarmos passivamente tudo que o País está vivenciando. Temos que lutar para que a saída para este momento não seja às custas de mais impostos, que possamos exigir qualidade nos gastos públicos, e que todos, mas todos mesmo, que estão envolvidos em corrupção possam ser penalizados.

É hora de valorizarmos os éticos e aqueles que lutam pela população. São poucos, mas devem ser valorizados. Data para muita reflexão.


O autor é economista e articulista do JC