Orfandade requer incondicional atenção. Perder amparo familiar, incontornável é. Sentir-se fronteiriço à temida insegurança, é assinar promissória de desamparo. É contrair débitos de vulnerabilidade. E, na correspondência emocional, há certos órfãos merecedores de curiosa reflexão. Especialmente os órfãos de pais...vivos.
Conhecido como um mal estar coletivo, a sociedade reconhece sua existência há tempos. A guarda do assunto assume diversas responsabilidades. Quando grande parte da população é desassistida pelos serviços públicos, garantidos e conquistados por lei, órfã de pai vivo se torna. Sem acesso a uma educação conceituada, a iniciativa privada, compreendendo aproximação do disciplinado lucro, aprova, com nota máxima, a instituição particular de ensino. Apontado mercantil produto, desapontado, não o lápis, ficava publicamente o aluno da escola pública. A paternalidade começava a privatizar-se.
A saúde pública, desassistida aos exames preventivos, diagnosticada fora pelas vias curativas. Tarde demais. Doente estava, doente permaneceu. Sem previsão de alta, órfã de novos cuidados, acompanhou, como se não bastasse, impactante nascimento dos convênios médicos particulares. Tanto que determinada empresa de planos de saúde, com saudável cuidado, cuidou de afirmar “Cuidar de você. Esse é o plano.” Cuidadosamente a paternalidade, com pleno plano,mercantilizava-se.
Por outro lado, com preocupação social à altura de um triplex, grande parte dos políticos, sensíveis às políticas públicas, souberam superar, com a rapidez de um lobby, empreendedora iniciativa privada. Intencionando enriquecer na alça da histórica miséria, transformaram muita Bolsa Família em Victor Hugo. Com a paralisia dos serviços públicos, novamente a iniciativa privada, percebendo incômodo visitante a se instaurar nas extensões das cidades, rapidamente agiu. Acolhedora e ex-tre-ma-men-te atenta às injustiças sociais, instalou sólidas empresas de segurança particular. Afinal, inaceitável um medo corajoso transitar livremente, como atestado consequente à insegurança pública, nos perímetros dos condomínios luxuosos. Impossível permitir ameaçador cheiro fétido da pobreza palmilhar por onde reside a fina fragrância dos perfumes importados.
Por tudo isso, para cada disparo, para a violência que insiste em se arrastar, o arrastão!, a indesejada revelação da nossa impotência. A nossa dor é concreta. A nossa fragilidade é real. Ocorre no modo indicativo. As estatísticas, no subjuntivo. Apenas entulham espaço e tempo nas protocolares reuniões. Abstratas, difusas como um exercício de logaritmo com resposta equivocada. Dessa forma, mais que cobrar a paternalidade definitiva dos fatos, mudar o estado civil das nossas atitudes, exigindo o que nos é de direito, já eliminaria muita órfã esperança, por muito esperar, por costumeiramente esperançar. Momento desses, impossível esquecer-se da primorosa obra de Ariano Suassuna, O Auto da Compadecida. Num breve diálogo de Jesus com Nossa Senhora Aparecida, esta é surpreendida com a presença do Diabo. Rapidamente, com intenção de acalmá-la, Jesus categoricamente diz: “Acalme-se, minha mãe. O inferno é como repartição pública. Existe, mas não funciona.” Eta vida privada!
O autor é professor de Língua Portuguesa de colégios e universidade e colaborador cultural deste jornal; alexandrebenegas@gmail.com