09 de julho de 2026
Articulistas

Os olhos da escola

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Quando se olha com encanto, tudo se encanta, sobretudo a coisa olhada. Quando se olha  com desprezo, desprezada a coisa fica. Com ódio, odienta ficará. Nossos olhos fazem as coisas serem belas ou feias, boas ou más e, até mesmo,  o que nunca foram. O amor, por exemplo, é cego: vê o que ninguém vê, mas não vê o que todos estão carecas de saber. O que mais o amor sabe fazer é enganar a retina.


E o os olhos maternais? Neles, o perdão não tem medida. Clemência maior não há. Vale a pena, também, olhar  os olhos mágicos da criança. Em cada coisa vista, outras se agregam ludicamente. Uma pedra nunca é uma pedra só. Mais do que  pedra,  dinossauro, foguete,  monstro, caminhão, revólver... até coisa sem nome, posto  não existir ainda.


Tendo a história por fazer, o tempo tem pressa. Então a escola se apressa, sabe que precisa castrar os olhos infantis. Afinal, já   se anuncia  a chegada da idade adulta. Hora de educar para a  realidade da vida. Nessa nova pedagogia, pouco vale a poesia nos olhos da criança. O cotidiano dos homens sérios reclama um outro jeito de olhar. Reclama  olhos contábeis do somar,  do subtrair e, sobretudo, do multiplicar. Hora, enfim,  de  ver  na conta o que realmente conta.


Olhos poéticos sabidamente não contam. Poesia é apenas perfume, coisa epidérmica, nada produz, nada compra, nenhum espaço ocupa  no bolso fundo ou na rica bolsa  de valores. Disso sabendo, a escola, por força do seu compromisso pragmático, passa a investir fortemente na razão e quase nada na emoção. Muito no raciocínio, pouco na sensibilidade. Muito no homem competitivo, pouquíssimo no homem cooperativo. Assim  de mãos dadas com o sistema, a escola  aplaude  os “winners”, que vão se dar bem na vida. Completamente esquecidos, ficam os  “losers”, perdedores fracassados. Na lógica desse “american way of life”, é justo que fiquem pelo caminho todos os derrotados. Sem taça ou medalha na mão, nenhum pódio, pouco valem.


Claro que é preciso investir na razão, no intelecto, nas técnicas, a modernidade precisa desse homem pragmático. Só um idiota o negaria. Mas por que, em igual medida, não  investir também no homem estético? Por que  tão pouco no homem, cuja pele arrepia se tocada pela emoção. A escola há muito está manca. Teimosa, insiste em pender  para um lado só.


Oportuno seria indagar como andam as linguagens estéticas, hoje, em nossas escolas. Como anda a poesia? O teatro? A dança? A pintura? A escultura? O cinema? A fotografia? A música? A arquitetura? As artes digitais? Como andam, em nossas escolas, todos esses estímulos estéticos formadores de um homem mais humano? Hoje, carência maior não há.


Além de ensinar a ler – coisa que, aliás,  deixa muito a desejar, a escola deveria ensinar a ver. Que se estimule o cérebro,   mas   não se descuide dos olhos. Pelos olhos, o mundo ganha sentido e beleza. Pelos olhos, a lágrima ainda nos emociona e  nos une.  Olhemos, então,  com olhos melhores a transformadora pedagogia do olhar.


O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras. curso_romag@uol.com.br