08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Negro consumidor

Greice Luiz
| Tempo de leitura: 3 min

Que o nosso país é fruto de exploração todos nós sabemos e mesmo assim fechamos os olhos para esta realidade. Digo isto porque todos nós sofremos com a exploração dos recursos naturais, escravatura e desvalorização no mercado, mas me chama a atenção a ignorância do costume de não encarar o negro (a) como consumidor.

    

Isto não vai muito longe, de uma década pra cá a indústria de cosméticos não visualizava o negro como consumir, veja o exemplo nas lojas! Lembro que na minha infância existia comércio de produtos para alisamento, relaxamento, cremes que não atingiam as necessidades do cabelo afro (que a maioria são finos e delicados) sempre com a sugestão de mudar a textura dele com títulos para cabelos opacos, quebradiços e secos...


Se uma boa porcentagem da população tem o cabelo afro, por que a indústria demorou mais de um século para encarar esta realidade? Estou contando um século a partir da abolição. Como isto faz 128 anos, acredito que o nosso país permanece estacionado quando o requisito é igualdade.


É como se o cabelo afro não tivesse necessidades, sugerindo que cuidar dele é utilizar químicas como progressivas, relaxamentos, chapinha e outros meios! Toda vez que você ri de um corte afro, penteado, estilo e cuidados com o cabelo afro, você está alimentando o que lhe foi enraizado, de que cabelo afro é ‘duro’ ou ‘ruim’.


E, detalhe, os produtos que a indústria cosmética oferece para cabelos de textura afro são de alto custo, existindo cremes de pentear com valores próximos a cem reais. Por que os produtos são caros se o sistema reforça uma sociedade estratificada?


Porque, vamos combinar, se o indivíduo tem uma remuneração de mil reais, como ele conseguirá pagar as suas contas mensais e ainda zelar pelo seu cabelo que terá o custo mínimo de trinta por cento do seu salário voltados ao cuidado do seu cabelo afro? Cito este exemplo não é para retratar o consumismo, o foco é destacar a sensação de que ou você cuida da sua autoestima ou passa fome! Eu luto para que o negro nunca tenha que escolher algo, por direito ele pode ter os dois.


Em alguns casos as linhas de maquiagens raramente possuem os tons necessário para maquiar a pele negra, shampoo, protetores, esmaltes, hidratantes para pele, entre outros produtos, não atendem às nossas necessidades! Compramos a mercadoria disponível no mercado sem estar satisfeitos com a expectativas...


Aí me perguntam: por que a questão é somente a visão do negro? A resposta é simples. Se é necessário abordar este tema é porque estamos longe da igualdade, quando isto acontecer não será necessário este debate... A invisibilidade grita aos nossos olhos em todos os aspectos, poucos professores doutores negros nas universidades, médicos negros, falta de representatividade na mídia, nas propagandas, estilistas negras, apresentador de programas de TV, políticos negros, agências de comunicação com editores chefes negros, protagonista de novelas e no cinema negros, entre outros casos...


E esta sensibilidade só consegue alcançar quem está na pele do negro, ou tem filhos negros, pais, parentes, pessoas próximas afrodescendentes, em outros casos raramente ganharei a sua confiança e razão para dizer que a minha tese está correta. Se é um a cada cem, como iremos mudar a realidade se não temos representação? Acredito que o negro possui uma falsa liberdade! Sem perceber, a sociedade dita em quais condições e negro deve ficar.


Em alguns casos, as oportunidades são iguais e a sorte para poucos, porque a capacidade existe, muitos têm, mas não são prioridades e nem reconhecidas. Uma sugestão: faça diferente ao observar quantos negros (as) estão nas condições privilegiadas que citei acima, olhe para os lados e veja as suas amizades, companheiros de trabalhos, amigos de escolas e universidades, mídia, especialistas em que os negros estejam executando atividades, sendo valorizados e ganhando bem!