09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A nau dos insensatos

Henrique Perazzi de Aquino, jornalista e professor de História (www.mafuad
| Tempo de leitura: 4 min

Tem quem ainda não veja e entenda no que está vindo por aí como um urdido e salafra de um golpe a nos passar uma sonora rasteira. Das duas uma. Ou estão envolvidos com a coisa ou ainda não sacaram direito o que está por vir e logo ali na curva da esquina. Tem uma turba ainda movida pelo ódio visceral ao PT e, consequentemente, a tudo o que resvale com esquerda, movimentos sociais, atendimento à reivindicação das classes menos favorecidas e esses, acredito, não irão mudar de ideia tão já. Sentirão a coisa danando seus bolsos, interesses contrariados e entenderão só mais tarde do erro de deixar tudo o que duramente conquistamos ir-se pelo ralo assim quase num sopro.


Os sensatos já estão mais do que com um pé atrás, diria, com os dois. Tudo começa pelo próprio surfista do golpe, o vice Michel Temer quando declarou: “O Governo do PT atendeu aos trabalhadores e o nosso atenderá aos empresários”. Embutido nessa fala o algo mais, a crueldade em curso. Pode-se reclamar e muito do PT, mas impossível não observar os avanços dos treze anos sob seu jugo. E o que será feito disso tudo? Com o atual Congresso, onde impera o desejo da bancada BBB (Boi, Bala e Bíblia), reverterão tudo ao seu bel prazer e dane-se aos trabalhadores, minorias, pobres e quetais. Está mais do que claro, estamos vivenciando o regime do vale tudo e quanto mais puderem fazer para tirar proveito desse momento criado por Eduardo Cunha, onde o rolo compressor é a lei, tudo será feito. Sem dó e piedade.


Tenho um parente muito próximo dos altos escalões de uma das maiores universidades do país, pessoa bem próxima do governador e do deputado estadual aqui de Bauru. Continua a defender o seu soldo, suas benesses, vantagens, mas dia desses me disse a boca pequena: “Eles vão acabar com a universidade e eu estou nela”. Sim, não só com a universidade, mas com a Educação num todo, com o que resta de Saúde (adeus SUS) e também com o emprego como o conhecemos. As leis trabalhistas serão tão flexibilizadas, que o empregador será o legislador de como será o contrato com o empregado. Adeus 13º salário, férias, horas extras e tudo o mais. Quem quiser será assim, quem não quiser, dá-lhe desemprego. E até quando irão os que apoiam o golpe em dar respaldo para algo dessa natureza?


A grande pergunta, escrita num outdoor espalhado em algumas cidades do Nordeste deixa claro algo sobre isso: “Se os pobres desse país soubessem o que estão preparando para eles, não havia ruas que coubessem tanta gente para protestar contra o impeachment”. A ficha da maioria ainda não caiu e talvez só caia quando tudo estiver consumado. Talvez tarde demais para reverter o estrago. Não me venham falar em fim da corrupção ou em quem roubou mais ou menos, pois a roubalheira nunca cessou nesse país e continuará a todo vapor, mas só para os do clube dos que calarem o bico, deixarem a coisa rolar e respaldarem o baú de maldades sendo urdido não mais às escondidas, mas tudo as claras. Está tudo escancarado como fratura exposta e a questão nem é mais a de determinar se o agrupamento pronto para tomar o poder é golpista ou não. O buraco é mais embaixo. Levem em consideração o que farão ao país, muito além do próprio golpe institucional.


Estejam preparados e não digam que não foram alertados. Sempre é tempo de recuar, voltar atrás e brecar o monstro de prosseguir no seu intento. Reconhecer um tremendo erro de avaliação seria de grande valia, não para o PT, mas para o país. Sou muito o que escreveu o jornalista norte-americano Glenn Greenwald, radicado no Brasil e escrevendo para publicações do mundo todo, sacando tudo à sua volta e melhor que muitos brasileiros: “Como é possível não perceber que o objetivo da elite brasileira com o impeachment de Dilma é proteger os verdadeiros ladrões”.

Ainda dá tempo de cair fora dessa nau dos insensatos e defender o que nos resta de democracia. Ou você faz parte da turma que está pouco se lixando para isso e torce mesmo para que tudo piore cada vez mais? Meu filho, 22 anos, prestes a se formar está desistindo do país e outro tanto age e pensa da mesma forma. Não vai dar para recomeçar tudo de novo e eu com 56 anos, já debilitado por tantos embates ao longo da vida, nem sei como farei para prosseguir a caminhada diante de tanta iniquidade e insensatez.