08 de julho de 2026
Regional

Aluno aprende como cultivar a terra

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 6 min

Filhos de produtores rurais, trabalhadores rurais e assentados estão cursando o “Jovem Agricultor do Futuro” que vem sendo desenvolvido desde março deste ano na cidade de Piratininga. Eles têm de 14 a 17 anos e pretendem levar em frente a profissão que seus pais levaram ou levam até hoje.

A estudante Yasmim Azevedo Domingues da Silva, 16 anos, é exemplo dentre os adolescentes que frequentam o curso. “Eu sempre morei em sítio. Há dois anos, minha família veio morar em Piratininga. No campo eu ajudava meu pai com a horta. O que aprendi com ele hoje ensino as meninas daqui. Eu colhia verdura do pé e comia. O sabor delas era outro. Muito diferente daquelas que são vendidas nos supermercados.”

Ela admite que não consegue mais voltar para o sítio e isso lhe faz falta. “Depois que mudamos para a cidade não consegui mais ter contato com a terra. Aqui tenho oportunidade de aprender mais e eu gosto desse meio. Pretendo ser agrônoma como o professor Vinícius. Eu amo a vida no campo.”

Questionada sobre o que fará com os conhecimentos que terá após o curso, ela é enfática em dizer que estudará agronomia e comprará uma terra para cultivar. “Eu quero ter uma grande horta. Quero ensinar as outras pessoas a cultivar verduras em suas casas. Eu aprendi muito com meu pai. Aqui eu ajudo as outras meninas que não possuem conhecimento algum.”

A instrutora pedagógica do curso, Vanessa Evaristo da Veiga Cabral, ressalta que o curso vai além do prático. “Com esse programa pretendemos formar cidadãos competentes. Mostramos a tecnologia aplicada no campo. Eles aprendem a agregar valor a produção. Pretendemos fazer com que eles se fixem nas propriedades rurais. A maioria deles é filho de trabalhadores rurais, assentados e proprietários de pequenos espaços.”

O programa é feito por projetos articuladores. “Temos oficinas de cidadania. Eles aprendem como se comportar. Saímos para as ruas da cidade mostrando o lixo e ensinamos como eles reciclam. Trazemos profissionais de saúde para palestras sobre higiene pessoal e outros assuntos. Eles têm aula de informática onde formatam planilhas de custos e calculam os lucros. Usando essas planilhas eles podem fazer um planejamento sustentável. Custo de produção e viabilizar o lucro.”

Para reforçar a teoria ensinada, algumas atividades são rotineiras, confirma a instrutora. “Eles estão montando um canteiro de verduras e legumes. Todos os dias um grupo deles montam os lanches. Outro é responsável pela limpeza do chão, das mesas e do banheiro. Todo mundo tem tarefa diária. Isso provoca uma mudança de comportamento na casa deles também. São pequenas atitudes que aos poucos geram mudanças.”

Um dos objetivos, segundo Vanessa Cabral, é tornar a área sustentável. “Aqui é o começo do programa. Estamos começando com os canteiros. Vamos implantar os animais que são ovinos e aves. Para eles terem contato com tudo um pouco. Para complementar, os alunos fazem visitas técnicas. Recentemente vistamos a Agrishow, que é uma grande feira agropecuária em Ribeirão Preto. Lá eles viram as tecnologias. Conheceram outras formas de plantio. Outras maneiras de ganhar dinheiro com outras culturas como plantar eucalipto. Propriedades que mexem com gado leiteiro.”


Agronegócio no Brasil

O curso “Jovem Agricultor do Futuro” é o primeiro a ser realizado em Piratininga. Mas desde 2008 está profissionalizando adolescentes na região. É totalmente gratuito e oferece transporte e alimentação. O agronegócio pode, enfim, ser um caminho para o futuro, opina Maurício Lima Verde Guimarães.

“A agricultura é um futuro garantido. É a sustentação do país. Temos fila de espera para esse curso. É um incentivo para a criação de empresas de pequeno, médio e grande porte no setor do agronegócio. Um dos grandes problemas do Brasil é não ter mão de obra especializada no agronegócios. Treinamos quase cinco mil jovens que estão espalhados pelo país.” Agregando valor aos produtos cultivados os jovens poderão conquistar melhores vendas e alavancar o agronegócio, comenta a instrutora pedagógica Vanessa Cabral. “Nós mostramos para eles que um pé de alface,  qualquer um vende. Mas quando você apresenta de uma forma diferente, com uma embalagem diferenciada e com uma abordagem fora do normal, seu produto ganha outro espaço. O orgânico é uma tendência. Explicamos que não é vender por vender. É vender um produto de uma produção caseira, orgânica com uma embalagem diferente.”  Segundo ela, nas oficinas de comercialização os alunos vão criar logotipo para montar suas embalagens. “Possivelmente irão estampar em sacolas e embrulhos que serão usados nas vendas. Quando estiver pronto, eles sairão vendendo na cidade.”


Aula prática possibilita tombar e gradear a terra

Para começar um canteiro, explica o engenheiro agrônomo Vinícius Vazzoler, a prefeitura de Piratininga cedeu o trator para tombar e gradear a terra. “A terra não estava pronta. Fizemos a análise de solo e seguindo a análise fizemos a correção com a adubação. Usamos esterco de galinha e calcário para corrigir a acidez. Jogamos dois quilos de esterco de galinha por metro quadrado. Agora estamos plantando. Já instalamos a irrigação.”

Os alunos, segundo ele, estão aprendendo todas as etapas. “Aqui era tudo mato. Estamos ensinando os alunos a fazerem um canteiro. Ele precisa ter terra fofa, adubada e ser alto para que a raiz possa buscar mais nutrientes fazendo com que a planta se desenvolva de maneira sadia.”

Na prática, os alunos vão aprender a plantar, cultivar e colher. “Passamos a eles as técnicas, os procedimentos corretos. Como deve ser cultivado o solo, o que deve fazer nesse solo para o plantio. Eles aprendem todas as etapas para que eles consigam alcançar o objetivo da colheita no final. Aqui estamos montando uma horta com rúcula, alface, almeirão, beterraba, cenoura. Vamos plantar culturas anuais  como o milho, batata doce, feijão e abóbora.” 

Em um mês deve começar a colheita de alguns cultivos. “As rúculas podem ser colhidas em torno de 25 dias. O alface demora um pouco mais. Leva uns 25 dias na estufa depois vai ser transplantada no canteiro e com mais uns 25 dias pode ser colhida. O milho é um pouco mais demorado, leva uns três meses. Eles vão colher o milho verde. A batata doce quatro meses e o feijão uns três meses.”

A estufa para mudas está quase pronta e foi construída pelos próprios alunos. “Construímos uma pequena estufa para ser o berçário das mudas. Com orientação eles montaram. Essa turma tem mais mulheres. Elas se mostram bem interessadas. Pegam na enxada, são dedicadas e fazem bem feito. Sujam a mão na terra, no esterco.” 


O que pensam os alunos

O adolescente Pedro Henrique da Costa, conhecido por “Café”, tem 15 anos e confessa que quando entrou no curso não tinha objetivo definido. “Comecei a frequentar e decidi que vou ter uma profissão que envolva a agricultura, talvez ser agrônomo. Tive um norte sobre o meu futuro.”

Ele conta que ainda não colocou em prática o que está aprendendo. “Vou aplicar no quintal de casa. Por enquanto não comecei a fazer isso porque ainda estou aprendendo e não quero fazer errado. Muitas coisas que não sabia estou tomando conhecimento.”

Erika Regina dos Santos tem 14 anos e é filha de agricultor. “Estou aprendendo a cultivar a terra, a mexer nas plantas. Meu pai é agricultor. Eu quero ajudar meu pai quero aprender a fazer isso também com mais técnicas. Penso em ser veterinária, essa parte ainda não começou aqui.”