08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

STF afasta Cunha

Mauro Cesar P. Landolffi, professor
| Tempo de leitura: 3 min


“Em decisão inédita e unânime, STF afasta Cunha da Câmara”.  Essa foi a manchete da Folha de S. Paulo – aliás de quase todos os veículos de imprensa no Brasil – para anunciar com alarde o afastamento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, pelo Supremo Tribunal Federal. Se notícias como essa ficarão na história, é bom que se deixe bem esclarecida essa história.

A Procuradoria Geral da República fez o pedido para que Cunha fosse afastado no dia 16/12/2015 – quase cinco meses (140 dias) – antes que os ministros da “mais alta corte” resolvessem se mexer. Já com antecedentes engavetados, Cunha havia sido flagrado, como um moleque, mentindo para seus pares sobre suas comprovadas milionárias contas fantasmas na Suíça, escondendo dinheiro que recebeu ilegalmente por propinas que ele pôde fazer em virtude de seu papel como figura pública. Perdeu, indiscutivelmente, sua credibilidade, perdeu as condições para fazer parte do legislativo nacional, para presidir a câmara, para mover um processo tão sério quanto a deposição da presidente da república e até mesmo para ser levado a sério. Quando o STF um belo dia resolveu decidir por seu afastamento, o réu já havia feito remendos na nossa Constituição para satisfazer seus interesses pessoais, os de seus cupinchas e daqueles que apoiavam a sua permanência lá, também atrás de interesses particulares; arrebanhou um bando de parlamentares corruptos e oportunistas –que hoje lambem suas botas- com regalias, adicionais e fundos para que realizassem seu sonho de se perpetuar em suas cadeiras na vida pública; instalou e presidiu um processo para remover uma presidente eleita por 54 milhões de votos, isso além de manipular seus comparsas para emperrar seu julgamento na casa, entre outras bandidagens. O STF se limitou a assistir –bem comportado- a todas essas manobras, e depois que o réu havia feito o que queria e o que queriam aqueles que financiavam sua permanência lá, tomaram uma decisão “inédita e unânime”, numa tentativa talvez de mudar sua imagem frente àqueles que acompanham o desenrolar deste circo a que estamos assistindo. De inédito, aliás, não há quase nada, pois a história registra que já em 1964 o supremo tribunal federal também se portou servilmente e apoiou um golpe de estado que resultou também em um grande e triste retrocesso em nossa história. Houve um certo desconforto quando se divulgaram escutas telefônicas em que o ex-presidente Lula dizia que o supremo estava “acovardado”. Há quem diga que Lula foi eufêmico. O fato é que o STF só iria se retratar com a história e com os brasileiros (só iria demonstrar autoridade moral) se tivesse declarado a nulidade de todos os atos oficiais praticados pelo réu Eduardo cunha nesse período. O Cunha irá abrir a boca e delatar um monte de gente, num ato de vingança? Muito pouco provável, pois o que cheira é que tudo foi feito como parte de um bom acordo; os interesses das partes – não os do povo – foram satisfeitos. Foram distribuídas gordas vantagens para todos. Como infelizmente ainda acontece por aqui, interesses particulares se sobrepuseram aos interesses coletivos -e tudo está acertado. Essa é a história.