09 de julho de 2026
Cultura

Cauby Peixoto chegou a cantar com Badê em Bauru

Aline Mendes
| Tempo de leitura: 5 min

Arquivo Pessoal
Regional Auriverde acompanha Cauby Peixoto em 1958: Roberto (violão), Aristeu Neves (pandeiro), Décio (percussão) e Nilo (Cavaquinho); logo atrás do cantor, Badê (com acordeom) e Lale (violão)

Há 58 anos, Cauby Peixoto, que morreu nesse domingo (15), em São Paulo, foi protagonista de uma noite memorável na sua primeira visita a Bauru. O cantor realizou dois shows: um no Cine Bandeirantes e outro no Bauru Tênis Clube, em ambos, acompanhado do grupo Regional Auriverde, formado por músicos da cidade e região, incluindo Badê (acordeom), Roberto e Lale (violão), Décio (percussão), Aristeu Neves (pandeiro) e Nilo (Cavaquinho). “As moças que assistiam o show tentavam rasgar a roupa do Cauby para guardar um pedacinho! Ele estava no auge. Foi uma noite emocionante, badalada e inesquecível”, conta Badê, na época com 17 anos.

“Como cantor ele era muito capaz, um fenômeno. Cantava todos os estilos e tinha uma voz maravilhosa. É uma perda irreparável para o Brasil”, completa o músico, que aos 75 anos continua tocando na noite bauruense.

Ele diz que, ao longo da carreira, Cauby voltou a se apresentar na cidade, mas com outros músicos. No ano passado, o cantor faria um show em Bauru, cancelado por motivos de saúde.

‘Ele nasceu e viveu com a música’; ‘Timbre marcante a vida toda’; ‘Uma figura ímpar’...

Fotos: Divulgação
“Falando em qualidade e técnica vocal, foi um dos melhores intérpretes do Brasil. Igual a ele é impossível haver outro, ainda mais que faça sucesso por tanto tempo. Também costumava chamar os outros carinhosamente por “professor”, mas na verdade o professor sempre foi ele. Cauby nasceu e viveu com a música”. Humberto Carlos Biazon - cantor do Musical Álibi

“Sou fã do Cauby desde moça, acompanhei sua carreira e estou consternada pela sua morte. Para mim, era uma das mais belas vozes da música popular brasileira, cantando também canções internacionais. Tinha um timbre marcante, conservado a vida inteira. Tudo nele era exacerbado, mas na minha opinião, para o lado bom”. Sônia Berriel, maestrina

“Mais uma estrela brilhando e cantando no céu, o inigualável Cauby! Deixa um legado de profissionalismo no que se refere ao instrumento voz, de respeito ao público e excelência na escolha do repertório. Era uma figura ímpar, uma referência de showman para outros artistas”

Marco Belinasi, cantor e compositor.

Adeus, professor

“Sempre vou cantar. Se me pagarem para cantar, ótimo. Se não pagam, canto do mesmo jeito”, dizia Cauby Peixoto. O potente canto do “professor”, apelido dado por colegas artistas, virou saudade entre domingo (15) e segunda-feira (16). Tinha 85 anos, estava internado no hospital Sancta Maggiori, São Paulo e sucumbiu a uma insistente pneumonia. 

A saúde frágil já havia feito com que pelo menos dois shows em Bauru fossem cancelados nos últimos dez anos. Tinha ponte de safena, convivia com dores, locomovia-se com lentidão, vivia no palco. 

Ravena Rosa/Agência Brasil
Nancy Lara, fã que virou empresária, fiel escudeira e até cuidadora de Cauby, exibe camisa com nome do cantor durante o velório; à frente, cantora Ângela Maria chora e é amparada

Expoente da época de ouro da canção, mas também precursor do rock no Brasil, Cauby chegou perto da fama internacional ainda na década de 50 como Ron Coby – história mostrada no documentário “Começaria Tudo Outra Vez” (2013), de Nelson Hoineff. 

Privilegiando o poder da música na voz do artista, o filme é amparado em rico acervo histórico e na sincera idolatria dos fãs – um, inclusive, de 16 anos. Nascido em Niterói e estrela maior do Bar Brahma, em São Paulo, Cauby exibia  fala econômica, mas quando soltava o vozeirão...  

Berço

Caubi Peixoto Barros (nome de batismo) nasceu em 10 de fevereiro de 1931 e, na família, músicos não faltavam: o pai, Cadete, tocava violão; os irmãos eram Moacyr Peixoto (pianista) e Araken (trompetista), além de Andyara, cantora. 

A carreira teve início em programas de calouros. Acabou se tornando o primeiro cantor brasileiro a gravar rock, a faixa “Rock’n’Roll” em Copacabana, em 1957. 

Na mesma década, após gravar seu primeiro disco, trocou o Rio por São Paulo para ser o crooner das boates Oásis e Arpége. De volta ao Rio, entrou para o elenco da Rádio Nacional. Segundo lembrou a jornalista Patricia Palumbo, no livro Bastidores, biografia escrita por Rodrigo Faour, era “um mestre”. 

Divulgação
Professor era o apelido de Cauby, o cantor que transformou toda uma vida em aula de música

Auge

Nos anos 50, Cauby logo se destacaria pela voz poderosa que dava brilho a standards da música americana. A identificação de Cauby com Sinatra, Bing Crosby e outros o levaria a tentar a sorte nos EUA a partir de 1955.

Lá, como Ron Coby, se apresentou em nightclubs e chegou a gravar com o maestro Percy Faith. Participou do filme Jamboree, EUA, cantando Toreador. Insistiu na conquista da América chegando a fazer temporadas de mais de um ano, foi chamado pela imprensa de “Elvis Presley brasileiro”, mas o sonho de carreira internacional não virou.

Em compensação, no Brasil, emplacava sucesso após sucesso, participava de filmes, cantava na noite, nos principais programas de rádio e televisão, aderia (à sua maneira) aos estilos que iam surgindo e formava a extraordinária bagagem que o transformou em mito.

Tripé

Onde quer que fosse, tinha que cantar três músicas obrigatoriamente: “Conceição”, “Bastidores” (presente de Chico Buarque) e “New York, New York”. Nunca se fazia de rogado. “Às vezes, encerro o show, deixo ‘Conceição’ e Bastidores, a minha preferida, para o fim, mas a plateia exige minha volta para cantar New York, New York. Não tem jeito”. Cauby estava em shows com a companheira de sempre, Ângela Maria. O último da dupla foi em 3 de maio. “Perdi um irmão”, resumiu a estrela. 

Despedida

Após velório na Assembleia Legislativa de São Paulo, o corpo de Cauby Peixoto foi enterrado no fim da tarde de ontem no Cemitério de Congonhas, Zona Sul de São Paulo. “Conceição” foi cantada durante o sepultamento por amigos e fãs emocionados.

Na telinha

A TV Cultura exibe nesta quinta-feira (19/5), às 22h, o especial Cauby Canta Sinatra, O musical é uma homenagem que Cauby Peixoto faz a Frank Sinatra. Com o repertório escolhido pelo próprio cantor, o especial foi gravado ao vivo, em maio de 2010, no Teatro Fecap, em São Paulo.