09 de julho de 2026
Geral

"Para setor imobiliário, o pior já passou"

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Samantha Ciuffa
José Augusto Viana Neto, presidente do Creci-SP, esteve ontem em Bauru para reunião de trabalho com corretores da região

O setor imobiliário já experimentou seus momentos mais difíceis durante a crise e a tendência é de que, agora, volte a crescer. A avaliação é do presidente do Conselho Regional de Corretor de Imóveis de São Paulo (Creci-SP), José Augusto Viana Neto, que esteve ontem no Obeid Praza, em Bauru, para uma reunião de trabalho com profissionais da área na região.

Ele afirma que “a crise política já provocou todo mal que poderia” e que “o pior já passou”, lembrando que os resultados de financiamentos imobiliários e de índice de inadimplência em 2016 são mais positivos do que há 12 anos, quando o cenário para o setor já era considerado favorável. Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista concedida ao JC.

JC - Quais são as reais perspectivas para o mercado imobiliário nos próximos meses?
Viana Neto – As pessoas dizem que o mercado está ruim, mas é um engano muito grande. A supervalorização imobiliária é ruim, porque traz inflação. Para os corretores, o mercado é bom sem a presença dos investidores profissionais, porque estes especulam demais e só querem ganhar. Quando há valorização artificial dos imóveis, como houve há pouco tempo, muita gente fica sem possibilidade de ter acesso à casa própria, o que diminui a frequência de negócios.

JC – Então, este cenário de crise, de alguma forma, favorece o trabalho dos corretores?
Viana Neto – Os preços não oscilam mais na mesma velocidade em que estavam oscilando, o que favorece a pechincha, a negociação, onde a figura do corretor é fundamental. No nosso meio, quem está mais sentindo são os profissionais que trabalhavam com lançamentos. Com os bancos restringindo crédito, os novos empreendimentos minguaram.

JC – Diante deste cenário, houve redução no número de corretores inscritos no Creci?
Viana Neto – O número de cancelamento de inscrições é muito baixo, porque há uma confiança de que o cenário irá melhorar. O ritmo de novas inscrições desacelerou, assim como o de requerimento de novos estagiários, mas os números absolutos continuam aumentando.

JC - A Fipe divulgou, nesta terça-feira, uma pesquisa apontando a redução de 4,8% no preço dos aluguéis nos últimos 12 meses. Essa redução tem gerado maior rotatividade?
Viana Neto – Temos de levar em consideração que 60% das locações no Estado são de aluguéis de até R$ 1 mil. Nesta faixa de preço, que fica entre 0,7% a 1% do valor do imóvel, não existe a menor possibilidade de redução, porque a demanda é grande e há uma escassez de imóveis. Então não há tanta rotatividade, o locatário não sai do imóvel, mas consegue negociar as propostas de reajuste. A possibilidade de redução de preços está mais concentrada nos imóveis de classe média, média alta, em que o índice de unidades desocupadas acaba sendo maior.

JC – O setor de locação segue mais aquecido do que o de venda de imóveis?
Viana Neto – Sim. Os bancos aumentaram as taxas de juros, encurtaram os prazos de pagamento e reduziram o percentual financiável do valor do imóvel, que hoje está, em média, em 62%. Isso restringe a possibilidade de as pessoas comprarem. Mas a locação comercial segue em queda, devido ao mau desempenho da economia.

JC – O senhor acredita que a perspectiva de mudança de governo possa alterar a realidade do setor imobiliário?
Viana Neto – A crise política chegou a um ponto tão intenso, que todo o mal que ela poderia provocar, já provocou. Acredito que o pior já passou e as pessoas continuam vivendo, independentemente da política. Elas continuam se casando, se divorciando, os filhos continuam saindo de casa para estudar, para viver uma vida independente quando ingressa no mercado de trabalho. Tudo isso acaba gerando demanda por imóveis. Ou seja, existe um Brasil por trás deste que estamos assistindo pela televisão. Em 2004, quando a situação já era considerada muito boa, foram consumidos pouco menos de R$ 6 bilhões em financiamento imobiliário no País. No ano passado, foram mais de R$ 130 bilhões. Em 2016, somente no primeiro trimestre, já faturaram R$ 13 bilhões, muito mais do que o resultado de 2008 e de anos anteriores inteiros. E é importante dizer que os índices de inadimplência seguem muito menores do que naquela época.