09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Não é hora e nem há tempo para de lamber feridas

Roque Ferreira - Dirigente nacional da Esquerda Marxista e vereador PSOL- B
| Tempo de leitura: 4 min

A narrativa organizada pelos setores mais conservadores, que estão dando base para a abertura do processo de impedimento da presidenta Dilma, como já disse várias vezes, é o primeiro ato de uma peça de horrores dirigida por uma camarilha despudorada, vassala dos interesses mais reacionários e conservadores da burguesia, que necessitará atacar os mínimos direitos da classe trabalhadora. Isso fica evidente no texto publicado nesta coluna em 12/05, e assinado pelo empresário Caio Coube.


Não farei nenhum esforço para contraditar seu texto, pois o mesmo é marcado por clichês largamente conhecidos, pelos que perderam as eleições, e perder eleições é uma das especialidades do senhor Caio Coube. Uso este espaço para afirmar que o ocorrido na Câmara dos Deputados e no Senado traduz de maneira muito clara que o Brasil de fato é uma pátria educadora. O espetáculo garantiu uma correta educação política do povo trabalhador e da juventude ao ver ao vivo e a cores como funcionam as instituições da “democracia” e o que são os “representantes do povo” na república do capitalismo.


Um Congresso de corruptos medíocres abre seu corpo e alma para o país e a população vê que é um monstro que chafurda cotidianamente no pântano. Num espetáculo desmoralizante destrona um governo atolado na crise econômica e na corrupção. Neste exato momento (11:41hs do dia 12/05/2016), a presidenta afastada Dilma Rousseff recebe a solidariedade de milhares de pessoas em frente ao palácio, que lá estão defendendo os direitos democráticos atacados pelo que há de mais podre nesta república, e que se materializa no impedimento da presidenta.


Otto Von Bismarck, o chanceler de ferro, foi o estadista mais importante da Alemanha do século XIX, e dizia: “Que o povo não deve saber como se fazem nem as salsichas e nem as leis”. O Congresso de Cunha e Renan comprovou isso mostrando o que são as instituições desta “democracia”, quem são os “representantes do povo” e seus partidos, poupando assim muito trabalho aos revolucionários. E mostrou também o que era a “base aliada” do governo Dilma/Lula, que nunca cansamos de denunciar, e que por isso sofríamos toda sorte de agressões dos “petistas de ocasião”.


A Nova República, o regime burguês saído da Constituinte de 1988, cantada em verso e prosa pelos defensores do “Estado Democrático de Direito”, leia-se, regime burguês de exploração do homem pelo homem, construído no pacto de 1988 para salvar as ruinas da ditadura militar, está chegando ao fim.


Um novo regime terá que substituir este que está em estado avançado de decomposição. Não apenas um novo governo, mas um novo regime, um novo Estado. Ou viveremos um longo tempo de decomposição do corpo deste moribundo, com sofrimentos crescentes para um povo já demasiado sofrido e traído.


Este morto-vivo, que se recusa a desaparecer e não para de se debater, de se autoflagelar agravando os ferimentos, terá que ser enterrado revolucionariamente pelo agravamento e agudização da luta de classes. Do resultado dos próximos enfrentamentos teremos a reconstrução de um Estado capitalista monstrengo ou um novo Estado.


Um Estado que exproprie o capital, que reorganize e planifique a economia segundo os interesses da maioria. Para isso, o atual regime decadente deve ser morto e enterrado pela única classe progressista desta sociedade, o proletariado.


Enquanto as direções dos aparatos dos movimentos sociais continuam a manobrar para continuar sua política de colaboração de classes, as massas caminham no sentido inverso. Uma luta de classes mais aguda e mais política começa a colocar sua cabeça para fora como a toupeira da história. “A roda da história é mais forte que os aparelhos”, explicava León Trotsky.


Não há conciliação que dure na luta entre as classes. E a crise que vivemos colocará cada vez mais nas ruas as forças da revolução e da contrarrevolução. Como em 2013, quando em semanas tudo o que parecia sólido começou a se desmanchar, quando a situação política se transformou anunciando a chegada de um novo tempo, onde tudo pode acontecer, e das formas mais inusitadas.


É uma época convulsiva a que vivemos, quando tudo pode terminar em explosão. Neste difícil e doloroso terreno é que a classe trabalhadora e a juventude aprenderão, unificarão suas lutas e as levantarão ao nível político colocando a questão do fim deste regime e de quem deve decidir o futuro.


Teremos que ocupar as ruas, trabalhar de forma permanente nas bases do movimento sindical, social, da juventude, para fortalecer a consciência política. Os burocratas abandonaram “os de baixo”, mas a classe proletária, de forma vigorosa, não aceitará a agressão a seus direitos.


Seguiremos em frente combatendo pela independência de classe dos trabalhadores, trabalhadoras e juventude. Não é hora de lamber feridas. A hora exige firmeza, compromisso e ânimo para lutar para derrotar os conservadores, reacionários e exploradores do povo.


Neste cenário político, apontando uma perspectiva de saída socialista e revolucionária, explicando pacientemente a situação que vivemos e nossas tarefas a como marxistas, reafirmamos nossas bandeiras: Fora Temer e o Congresso Nacional! Por uma Assembleia Popular Nacional Constituinte! Por um Governo dos Trabalhadores!