08 de julho de 2026
Geral

Genialidade só vem com o trabalho!

Alberto Consolaro éâ??professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC.
| Tempo de leitura: 4 min

Ilustração
Estudos com cérebros de gênios revelam não ter diferenças: se dedicaram mais!

Com radar, arqueólogos da Universidade Staffordshire acharam o corpo do genial escritor Shakespeare, mas o seu crânio, não! A tumba se localiza na Igreja da Sagrada Trindade no Reino Unido.

Há dois séculos, a frenologia era muito atuante e até tinha credibilidade. Afirmava que a partir das formas, protuberâncias e sulcos no crânio se poderia estabelecer sinais claros da personalidade, incluindo se era um gênio. Os túmulos de famosos foram todos violados. Criada pelo médico alemão Franz Joseph Gall, a frenologia tornou-se popular, mas hoje está desacreditada como uma pseudociência.

Para os arqueólogos liderados por Kevin Colls, o culpado da violação foi o Frank Chambers em 1794, quando aceitou a aposta de Horace Walpole que daria 300 libras a quem lhe levasse o crânio de Shakespeare. Os canibais tinham fascinação por comer a cabeça e mais ainda o cérebro dos que morriam, pois acreditavam na transferência de poder, força e sabedoria.

O cérebro de Albert Einstein foi retirado pelo patologista Thomas Harvey quando sucumbiu frente ao rompimento de aneurisma na aorta. Removeu sem autorização da família e preservou o cérebro. Por 30 anos perambulou pelos EUA procurando especialistas e técnicos que o ajudassem processar e analisar o cérebro de Einstein. Até hoje briga–se para quem deve ficar com as partes processadas para análises microscópicas. Estão distribuídas em locais e guardiões diferentes.
O cérebro de Einstein ainda não descansou: continua inquieto até depois de morto. Que coisa!

SUCESSO!

Conhecimento e sabedoria são desejados, mas que seja gratuito, transferido passivamente e com pouco ou nenhum trabalho. Cena onde se vê alguém sentar e ler uma obra literária ou científica é rara. O objeto de desejo é cabeça com saídas USB para absorver conhecimento de outros humanos e máquinas! Conhecimento e sabedoria são construídos e requer reflexão e dedicação extrema com organização máxima no pensar e fazer! O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário, afinal o S é antes do T.

Talvez a busca passiva de conhecimento e sabedoria explique por que se quer tanto o cérebro de pessoas geniais. Não adianta, sem trabalho interpretativo, nada se aproveita da memória para construir a sabedoria. Tal como depois de uma aula: precisa-se aquietar, relaxar, ler e interpretar serenamente para a sabedoria impregnar!

Diante do sucesso é comum afirmar-se: ele é um cara de sorte, teve sucesso rápido, queria ter sido assim! Ele tem o “dom”! Mal sabes o trabalho que deu, como numa frase bem popular: ele repara nas cachaças que bebo, mas não sabe os tombos que eu levei e ainda levo!

DOM EXISTE?

O arquiteto universal, energia vital, força total ou simplesmente Deus não seria injusto com os humanos dando para uns sorte ou azar, talento ou limitação, habilidades ou descoordenação. Nascemos com todas as possibilidades e nos cabe explorá-las, mas para isto se requer muito treinamento. Malcolm Gladewell desenvolveu a teoria das 10 mil horas: ninguém é virtuose musical, gênio esportivo e intelectual autêntico sem treinamento acima destes limites. Ele analisou gênios da música, artes e esportes, e todos antes do sucesso treinaram muito mais que isto.

Usar o termo “dom” é quase aceitar o termo sorte, acaso ou coincidência. Ninguém acha o sucesso, ele é construído. O dom é dádiva divina para todos, cabe nos explorar as habilidades estimuladas de acordo com o meio onde se nasce e vive. Devemos aprender desde cedo que nascemos para o sucesso, mas antes temos que pelo menos dar uma “raladinha”, um outro nome para trabalho!

Todos os trabalhos com cérebros dos gênios, inclusive o de Einstein, revelaram não ser possível diferenciar ou encontrar áreas de brilhantismo. Os autores quase sempre afirmam que a genialidade deve ser um truque da natureza. Para o estudioso do assunto Brian D. Burrell, na vida de todos os gênios se resgata sempre uma vida de contemplação, estudo, curiosidade, colaboração e acima de tudo: muita dedicação e trabalho duro.

Quando desejo “- sucesso aí!” quero dizer na verdade: “bom trabalho para você”! A você que luta muito, lembre-se: vitória pode demorar, mas ela sempre vem!

OBSERVATÓRIO

Do bem! As pessoas eram induzidas a fazer cinco atos de caridade por semana durante 42 dias. Avaliadas pela psicóloga Sonja Lyubomirsky, percebeu-se que as pessoas ficavam mais felizes prolongadamente especialmente quando não contava para ninguém e nem esperava nada em troca. Em outro estudo com 1700 pessoas, o bem praticado aliviou estresse, enxaqueca e sintomas do lúpus e esclerose múltipla.

Que achas? - A criatividade dos escritores também se registrava como escreviam certas palavras e não apenas na estruturação do texto. A oralidade era escrita de forma intuitiva e pouco sistematizada. Muitos idiomas não tem leis ortográficas. O alemão na Suíça tem registro advindo da oralidade. O cantonês de Hong Kong e de Macau e o indi nem tem ortografia, embora falados por milhões! Ortografia é bom ou ruim?

(Comunique-se: e-mail: consolaro@uol.com.br)