Tenho minha mãe, que completará 84 anos no próximo dia 5, cega há cinco anos por causa do diabetes. Então, escrever a reportagem sobre o Jantar às Cegas (Segunda-Feira, 23/05/2016) foi mais do que significativo. Experimentar horas sem visão é angustiante. Você não tem ideia do que está no seu prato. Tudo bem que fui avisada de que era um pãozinho para ser comido com as mãos e um queijo coalho com mel para ser comido com palitos que já vinham espetados. Isso facilitou a vida.
Mas uma coisa é certa. Você não tem a menor ideia de onde está, a forma da mesa (eu poderia apostar que ela era redonda e, ao tirar a venda, descobri ser quadrada), demora a entender de onde vem o som e seus sentidos ficam completamente confusos. Ah! Você fala mais alto. A pessoa está ao seu lado e você está gritando, “mas ela não é surda”, alguém me diz. É muito surpreendente. A sensação é que não se está em um restaurante, mas sim numa balada (sem a música, claro).
A lentidão dos movimentos é uma constante. Depois, já sem a venda, vejo alguns participantes pedindo para serem levados ao banheiro e vão num andar que repete uma câmara lenta, com postura mais arcada e a sensação de que estão prestes a cair ou vão pisar em um buraco sem fundo. Mãe, prometo quando levá-la a algum lugar nunca mais pedir para acelerar os passos. E vou brigar com seu fisioterapeuta quando pedir passos largos, dona Bárbara. Por para nós que ainda temos visão, falar é fácil, reconheço. Viver sem ela é terrível.
Para finalizar, um parêntese: Para quem quer emagrecer, a experiência pode ser motivadora. Já se sabe que “comemos com os olhos”. A falta da imagem faz com que se coma menos. O que, segundo pesquisadores, pode ajudar os obesos a ficar em forma. Sou obesa e não pago para ver, sem trocadilhos.