09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Sobre "Mulheres no Ministério"

Allan Rodrigo Dias
| Tempo de leitura: 6 min


Não tendo lido a coluna de opinião deste jornal há algum tempo, foi com estranheza que percebi, por meio das minhas redes sociais, uma forte indignação em relação ao um texto publicado no JC em 22/05/2016, intitulado “Mulheres no Ministério”, de autoria do jornalista Zarcillo Barbosa.

O fato de ter descoberto esta “peça” através de pessoas indignadas já me privou da esperança de encontrar uma redenção ao final do artigo, que ia me causando mais e mais repulsa a cada palavra absorvida do chorume ideológico contido naquela mancha de texto. Sendo assim gostaria de comentar as asneiras proferidas por esse senhor em vários pontos deste artigo.

Primeiramente, o interino Michel Temer não se esqueceu de “colocar mulher em seu Ministério”. Ninguém “se esquece” de algo assim. O recado foi dado claramente, mas não quero comentar sobre esse assunto, pois quero focar no texto do senhor Zarcillo, e a questão dos ministérios de Temer mereceriam um texto à parte, muito embora encontrem paralelos no artigo de que trato aqui.

Numa total falta de sintonia com a realidade, o autor atribui às mulheres uma boa vida em detrimento à “escravidão dos machos”, que há milênios enfrentaram os perigos proporcionados por animais selvagens para “garantir a comida na caverna”. Pois bem, o uso dessa alegoria já denota uma latente desonestidade intelectual (desculpe-me, por favor, senhor Zarcillo, mas eu me recuso a acreditar que tal observação tenha sido fruto de ignorância, afinal, ela é a vilã do jornalismo), dado que não foi falado sobre o papel das mulheres na época, que cuidavam da prole, defendendo seus rebentos de ataques de predadores na época. Trocando em miúdos, ambos os gêneros tinham seus papéis e tanto homens quanto mulheres tinham que lidar com animais selvagens, na incerteza da sobrevivência.

Quando atalha à substituição dos perigos da natureza pela correria e o estresse da vida profissional, o senhor Barbosa parece criar para bem de seu fraco argumento uma realidade alternativa, onde os homens trabalham fora e as mulheres ficam em casa assistindo televisão (aliás, causa-me estranheza o autor saber que exista uma série chamada Game of Thrones, tamanha a falta de noção dos tempos atuais) e indo a supermercados. Quando buscamos dados e rejeitamos a fantasia, descobrimos que as mulheres ocupam hoje aproximadamente 50% do mercado de trabalho, sendo responsáveis pelo sustento da casa em cerca de 40% dos lares, isso sem falar no acúmulo das tarefas domésticas, que muitos homens ainda se recusam a assumir. Isso tudo sem falar que mulheres tem seus salários em média 25% menores que os dos homens que executam a mesma função, só pelo fato de serem mulheres, ignorando-se completamente a competência das mesmas.

O relato do caso da moça com o problema de pneu arriado é outro exemplo de como as mulheres são obrigadas a lidar com o machismo, mesmo que velado, durante toda a vida. Nota-se que, para Zarcillo, era importante explicitar o vestuário da mulher, como se isso devesse ter algum peso em sua narrativa. Ao dizer que “sobrou para ele” a tarefa de trocar o pneu, ocultando se a ajuda foi solicitada ou não, o autor assumiu o tão desejado papel masculino do cavaleiro em armadura reluzente salvando a donzela em perigo, provando toda sua masculinidade ao fazer um serviço braçal que a incompetência feminina impedia a dama de vestido colante de executar. Só para não me estender neste ponto, seria muito mais honesto da parte do senhor Barbosa falar sobre como as novas gerações, homens e mulheres, não estão preparadas para fazer coisas que eram consideradas essenciais, como trocar um pneu. Só o fato da mulher socorrida ter oferecido dinheiro (o que parece ter indignado bastante o veteraníssimo jornalista) pelo serviço já denota uma mudança de paradigmas, que passou, para variar, desapercebida para o articulista.

Nem vou me reter aqui sobre a “aula de história” dada focando em questões como patriarcado. Sinceramente gostaria de ler a opinião de verdadeiros professores da matéria (professora Anadir seria um exemplo perfeito de competência para a tarefa), que desmentiriam tamanho absurdo apenas baseando-se em fatos, ignorados pelo colunista.

Ao me deparar com os alegados artifícios estéticos que as mulheres usam “exclusivamente” para enganar os homens, vejo que o pré-histórico jornalista mais uma vez evoca uma visão deturpada de mundo onde as fêmeas humanas realizam toda e qualquer atividade nesta vida exclusivamente para se relacionar com os machos.

Até a pífia tentativa de atribuir uma menor longevidade masculina à “responsabilidade econômica” é facilmente rechaçada, podendo ser usados, inclusive, dados que eu já apresentei anteriormente sobre a relação da mulher com o mercado de trabalho. Embora nem os cientistas tenham definitivamente estabelecido um fator decisivo para explicar a diferença de expectativa de vida entre homens e mulheres, é mais fácil apontar a testosterona como responsável pela morte prematura de homens em relação às mulheres do que usar a falácia da pressão econômica exercida sobre os machos humanos.

O trecho em que o senhor Zarcillo tem a desfaçatez de pinçar dois exemplos femininos de busca de mulheres pelo poder, ignorando todos os milhares de casos em que os homens exerceram com propriedade sua sanha de obediência forçosa é de dar pena. Desrespeita a qualquer pessoa que tenha a menor noção de retórica.

O texto como um todo é tão incoerente, que pede uma necessidade de acabar com a imagem do homem duro e insensível, em contraponto à ternura e compreensão feminina, quando tais papéis foram criados pelos próprios homens. Logo abaixo, mais uma vez desonestamente, tenta diminuir Shere Hite em sua afirmação sobre intimidade e demonstrações de afeto, e acusa a sociedade (que por mais que o senhor Barbosa queira negar é patriarcal) de negar ao homem o direito de sermos emocionais e afetivos. É o mesmo artifício patético usado por homens que defendem o serviço militar obrigatório das mulheres, ao invés de lutar pela abolição da necessidade do cumprimento do mesmo pelos machos.

Pulei intencionalmente qualquer comentário sobre a parte em que o jornalista comenta sobre as mudanças pretendidas pelo supremo mandatário católico em relação ao papel das mulheres nas igrejas, pois acho a religião foro íntimo de cada um e não tenho o mínimo interesse em cutucar um vespeiro. Outrossim, gostaria de comentar a única sentença no artigo todo do senhor Zarcillo Barbosa com a qual concordo quase integralmente: “está na hora de mudar”. Quando digo que concordo quase que integralmente, quero dizer que já passou da hora de mudar. Adaptação é a chave para evitar a extinção, e nos livrar de preconceitos é fundamental para sermos pessoas melhores. Eu pessoalmente fui por muito tempo um exemplo autêntico de machista, que concordaria com muito dos absurdos que o texto do domingo passado despejou neste jornal, mas tenho nos últimos anos desconstruído muitos (pre)conceitos em que me baseei anteriormente, e tem sido uma experiência muito proveitosa. Recomendo.

Ainda na veia de mudança, gostaria de pedir encarecidamente aos responsáveis pelo Jornal da Cidade que revejam com urgência seu quadro de articulistas, buscando pessoas cujas opiniões se baseiem em fatos e não achismos sem nenhuma relação com a realidade, sob risco de ver anulada sua relevância com seu público.