08 de julho de 2026
Articulistas

Tremendão e Ternurinha

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Quis o destino que Erasmo Carlos e Wanderléa nascessem num 5 de junho. A diferença é que, hoje, o Tremendão completa 75 anos – e a Ternurinha, 70. Inventores da juventude, nas palavras do jornalista Júlio Maria.

Ambos são figuras primordiais na construção do pop brasileiro e, mais do que isso, ajudaram a moldar comportamentos. Goste ou não dos dois, impossível é ignorá-los.

Wanderléa era só sorrisos na tarde de tempo carrancudo da Virada Cultural em Bauru no domingo passado. Por várias vezes se colocou na ponta do palco para ouvir o que público queria dizer ou entregar a ela. Atirou buquês ao fim da música do tal “senhor juiz” num casamento conturbado: um buquê era de verdade e outro, imaginário. Todos levantaram as mãos diante da simpatia real.  

De um fã, ganhou foto em que ela própria aparece em tempos de outrora. De outros, juras de afeto e amor – depois reiteradas pessoalmente após fila para autógrafos. No palco e fora dele, parecia sinceramente grata. E apresentar-se com uma ótima banda foi mais uma demonstração de respeito e profissionalismo.

Erasmo também já tocou em Bauru, claro. A aparição mais recente foi em março de 2013. Despachado como só ele, levou ao palco do Alameda um sósia de Roberto Carlos. Arrancou gargalhadas.

O Tremendão é quase um Roberto às avessas. Fala palavrão, não é maluco por azul e tem olhar de malandro (em óbvia contraposição à meiguice constante do amigo de fé, irmão camarada).  Erasmo também tem uma voz curta: não é, de fato, um cantor pródigo, de variados recursos. Não tem a precisão do “rei”, mas sabe fazer a coisa virar legal, mora?

Nunca escondeu os cabelos brancos, sempre disse a que veio. Autêntico e afetuoso, é um artista a ser melhor reconhecido dentro de suas peculiaridades. No fim das contas, compará-lo ao parceiro de décadas é bobagem, papo frouxo.

Erasmo e Wanderléa já provaram seu valor, bicho. E a passagem do tempo com dignidade até ofusca críticas do passado, já em estado crítico de tão desgastadas. Vamos baixar a guarda. Absolvidos estão, Tremendão e Ternurinha, pela Justiça suprema dos deuses da música. E que tenham hoje, do presente, uma bela e jovem tarde de domingo.


O autor é editor executivo do JC