08 de julho de 2026
Articulistas

Figuras

João Jabbour
| Tempo de leitura: 3 min

Todos os conhecemos. São pessoas de bem... comunicativas. Os temos na família, entre amigos, na firma ou em algum grupo de nossa convivência. Se destacam, inicialmente, por sua capacidade de chamar nossa atenção e nos deixar à vontade no ambiente. Em seguida, quando reparamos melhor, notamos outros predicados nestes autênticos ‘relações públicas da humanidade’. Têm falhas também, como todos nós.

Você tem os seus figuras. Tenho os meus. Na minha família, começa com meu irmão Calil. É o cara! Não há quem o ignore. Nem quem não ria com ele e seus trejeitos e modo de vida. Parece haver um padrão que os unem: gostam de cerveja, churrasco, calor humano e situações engraçadas ou inusitadas consigo mesmos.

No meu trabalho, por exemplo, tem o excelente repórter Marquinho Libório, ‘presa’ preferencial do Vitor Oshiro (meu malvado favorito) no Facebook. Acabou de chegar do Rio de Janeiro, onde passou férias. Vitor descobriu que, neste período, ele arrumou uma vaguinha de figurante em uma novela de época da Globo. Mais ainda: achou uma foto do Marquinho vestido com trajes de 1927. Imagine o que aconteceu daí para frente...

No bar que frequento (Tatu), há vários. Mas o Pardal foi com quem tomei uma cerveja e uma pinga com limão, ontem. Domingo frio, chuvoso (chove lá fora, pinga aqui dentro!). Pardal é um sujeito bacana, vizinho leal, bauruense antigo, o cara mais informado e relacionado que conheço na região do Cruzeiro do Sul. Craque do passado, faz as coxinhas com massa de batata e mandioca mais saborosas da região onde moro. Gente boa demais.

O figura é uma pessoa muito acessível e de fácil empatia. Alguns desavisados e metidos a besta acham que podem subestimá-los. Quebram a cara rapidinho. Figura é acessível, tem um senso de desprendimento grande, paciência, sabedoria, ouvido de mercador para bobagens em profusão mas, se provocados ao extremo, reagem com firmeza e surpreendem os babacas que os confundem com bobos alegres.

Os figuras são sábios. E sábias... Levam a vida na flauta, sem estresse, são essenciais à complexa e desgastante relação humana. Aliás, por falar nelas (gênero feminino), há figuraças. Posso citar a Catarina Carvalho, a Maria Helena Catini, a Ines Faneco, cujo muro da casa é uma página de Facebook à moda antiga, analógica, feita a mão. Você certamente conhece várias e vários outros em seu habitat natural...

Os figuras são criaturas enviadas por quem criou tudo isso para descontrair a vida, para nos lembrar permanentemente de princípios básicos das relações em sociedade e de que não é possível levar a vida tão a sério que não possamos sorrir, às vezes...

Há muitas figuras locais, mas há as nacionais também. Sexta-feira recebemos a visita, no JC, do ex-deputado e ex-candidato a presidente da República Eduardo Jorge (PV). Figura ímpar na política. Não é afetado, não usa casaca nem tem ar de superioridade. Veste tênis e calça jeans surrada e tem uma mensagem consistente e autêntica. Ao contrário de muita gente que usa o manto do politicamente correto apenas como disfarce a segundas intenções nada democráticas nem humanistas.

Para enxergar e reconhecer as figuras, é necessário não ter vendas nos olhos, muito menos preconceito e rótulos prontos para colar nas pessoas. Basicamente, somos todos iguais, em defeitos e virtudes. Dinheiro ou poder não servem de parâmetro para formarmos opinião sobre alguém, pelo contrário, criam, muitas vezes, ilusões passageiras e frágeis. O ébrio pode ser uma grande pessoa, anônima, perdida em seu vício...          

Figura, em resumo, é o ser humano em estado menos alterado possível pelos vendavais que nos assolam durante a existência. São pessoas como todos deveríamos ser, pelo menos em essência.

Todo respeito a elas.