Uma garota de sete anos de idade assistia inocentemente à TV no domingo à tarde, quando se deparou com o apelo da apresentadora Eliana, em seu programa no SBT, para que as vítimas de estupro procurassem ajuda. Foi o suficiente para a menina relatar para a mãe os abusos sofridos há cerca de 20 dias, em um bairro da região sudeste de Bauru. O agressor era o próprio pai. Em Pirajuí, um homem foi condenado por situação semelhante.
O caso de Bauru chegou ainda no domingo à noite ao conhecimento da Polícia Civil, que deverá ouvir todos os envolvidos no episódio ainda nesta semana. Até que haja convicção das autoridades para o pedido de prisão temporária, o pai da menina seguirá em liberdade.
Ao Jornal da Cidade, a mãe da garota relatou que a filha foi violentada no dia 14 de maio, quando foi passar o fim de semana na casa do pai, que está separado da mulher há três anos. Depois de consumir bebida alcoólica, o homem teria ficado nu, despido a filha e acariciado seu corpo, além de tentar consumar a conjunção carnal, o que só não teria ocorrido porque a menina começou a chorar.
“Ela diz que esta foi a única vez que o pai mexeu com ela. E conta com muita riqueza de detalhes. Não tem como ela ter inventado”, alega a mãe, que teve outros dois filhos com o mesmo homem. “Ela amava muito o pai e, depois que voltou para casa, no dia 15, nunca mais falou dele. E ele também não telefonou mais”, observa.
Encorajamento
| Samantha Ciuffa |
| Priscila Bianchini, delegada: “Outras duas mulheres criaram coragem após repercussão gerada pelo caso do Rio de Janeiro” |
De acordo com a delegada Priscila Bianchini, titular da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), casos que provocam comoção nacional – como o da adolescente estuprada no Rio de Janeiro por pelo menos 33 homens, entre os dias 21 e 22 de maio – normalmente contribuem para encorajar as vítimas a denunciar seus agressores. Na última semana, além do registro feito pela mãe da garota de sete anos, outras duas mulheres procuraram a DDM para prestar queixa sobre abusos sexuais, estimuladas pelas campanhas recentes.
“Elas relataram que criaram coragem por conta da repercussão gerada por este caso chocante do Rio. Uma delas foi estuprada em abril e ainda não tinha procurado a polícia. E decidiu, agora, dar prosseguimento à denúncia”, conta.
Em maio de 2012, quando a apresentadora Xuxa Meneghel revelou ter sofrido abuso sexual até os 13 anos, o Disque 100, serviço que recebe denúncias sobre casos de violação dos direitos humanos, registrou aumento de 30% no volume de ligações. “Sempre recomendamos para que elas não fiquem quietas, porque só quando os crimes não ficam impunes conseguimos reprimir a repetição desses casos. Mas sabemos que muitas ainda têm vergonha, medo, se sentem ameaças, culpadas ou não se sentem fortes o suficiente para enfrentar todo o processo até a punição do agressor”, pontua Priscila.
Investigações
Segundo a delegada Priscila Bianchini, a garota de sete anos deverá ser ouvida nos próximos dias e encaminhada à Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) para avaliação psicológica, antes de a delegacia adotar qualquer medida em relação ao pai da criança. A mãe da vítima informou ao JC que a criança já foi submetida a exame no Instituto Médico Legal (IML), que não constatou rompimento do hímen ou mesmo lesões em partes íntimas. Há a possibilidade, contudo, de eventuais ferimentos terem desaparecido devido ao tempo transcorrido – de 20 dias – entre o estupro e a denúncia.
‘Poderia esperar tudo dele, menos isso’, diz mãe
Separada do ex-marido há três anos, a mãe da garota, de 25 anos, conta que viveu um relacionamento tumultuado com o pai dos seus três filhos. Mas, ainda que já tivesse sido agredida por ele, afirma que jamais poderia imaginar que ele estupraria uma das crianças. Os nomes dos envolvidos não serão divulgados em respeito ao ECA. Leia, abaixo, o relato dado pela mulher ao Jornal da Cidade.
JC – Como era o relacionamento do seu ex com os filhos?
Mãe – Tive um relacionamento muito tumultuado e me separei há três anos. Na época, meu marido chegou a fugir com minha filha para Marília. Consegui uma medida protetiva contra ele e, desde então, tivemos pouco contato. Mas, alguns meses atrás, meu filho do meio, de 5 anos, começou a dar trabalho na creche e reclamava da ausência do pai. Por ele, pedi para meu ex se reaproximar. Ele passou alguns fins de semana com o menino, depois com o mais novo, mas tinha medo de deixá-lo sozinho com a menina.
JC – Ele já tinha histórico de agressão?
Mãe – Só comigo. Mas tinha medo mesmo assim, por ela ser menina. Ele levou nossa filha para a casa dele no dia 13 de maio, mas ela só foi contar o que aconteceu neste domingo, assistindo ao Programa da Eliana, quando a apresentadora pediu para as vítimas de estupro não ficarem com medo e procurarem ajuda.
JC – Como foi que tudo aconteceu?
Mãe – Ela foi passar aquele fim de semana com o pai. Eles foram a uma festa e ele bebeu. Eles voltaram para casa e, na hora de dormir, ele começou a abusar dela. Tirou a roupa dele e dela e começou a passar a mão no corpo dela. Minha filha disse que ele tentou a penetração, mas ela chorou e disse que era criança. E ele disse que ele também era criança. Mas acabou desistindo, não conseguiu ir até o fim e pediu para ela não contar para ninguém, senão ele iria para a cadeia e seria morto.
JC – Existe a possibilidade de ela ter sido violentada outras vezes?
Mãe – Ela diz que esta foi a única vez que o pai mexeu com ela. E ela conta com muita riqueza de detalhes, não tem como uma criança de sete anos ter noção, sozinha, de tudo o que ela descreveu. Ela repetiu a mesma história, com estes mesmos detalhes, várias vezes. Não tem como ela ter inventado.
JC – Ela mudou o comportamento quando voltou para casa?
Mãe - Ela amava muito o pai e, depois que voltou para casa, no dia 15, nunca mais falou dele. E ele também não telefonou mais. E ele estava ligando todo dia para saber do filho que estava com problema de comportamento. Ela era muito quieta e começou a ficar mais agitada, mas achei que pudesse ser uma reação para chamar atenção por causa do irmão, que estava fazendo mais arte. Jamais poderia imaginar que o pai dela faria uma coisa dessas. Poderia esperar tudo dele, menos isso.