A Operação Lava Jato, deflagrada em 2014 pela Polícia Federal, escancarou a maneira como a política é feita no país. A cada dia uma novidade, mais desconcertante do que o discurso de posse de Michel Temer, marcado por uma ostentação mesoclítica. “Procurarei não errar, mas se o fizer consertá-lo-ei”. Quem importar-se-á? Dir-me-ás que Temer já teve que retroceder várias vezes, principalmente pela escolha de nomes para o Ministério, manchados pelas denúncias de envolvimento em atos de corrupção. Ajudar-nos-ia, em muito se, em vez do uso da mesóclise, tão rara quanto o uso de biquíni com este frio, fosse possível voltar à política nos seus parâmetros originais, como instrumento de mudanças na sociedade.
O que mudou, por enquanto, deve ter sido a mentalidade dos empresários das maiores empreiteiras, que amargam na cadeia os erros cometidos com o propinoduto. Em vez da Política, é o Judiciário que produz mudanças. Os analistas estrangeiros quebram a cabeça para tentar entender como o Brasil pode sair da crise econômica com o Legislativo e o Executivo comprometidos por revelações estarrecedoras. Ficamos sabendo que “estancar a sangria” da Lava Jato estava na pauta do PMDB. Envolve os senadores Romero Jucá, José Sarney e Renan Calheiros, cardeais da política e do partido da situação. Eduardo Cunha, presidente afastado da Câmara dos Deputados, também do PMDB, vai ter que responder a uma terceira denúncia por corrupção e lavagem de dinheiro.
A esposa também foi denunciada, acusada de esbanjar dinheiro público com sapatos e roupas de grife. Estão todos sob ameaça de prisão preventiva, solicitada pelo procurador geral da República Rodrigo Janot ao Supremo Tribunal Federal. A autoridade diz que ninguém está acima da lei, que tanto bate em Chico como em Francisco. As prisões, teriam que ser autorizadas pelo Senado. É aí que o corporativismo funciona. Considerados os exemplos históricos, a tendência é de nada acontecer, na maioria dos casos. Em algumas ocasiões, políticos caíram em desgraça porque eram pouco cotados. A estratégia é a de entregar o “boi de piranha”. No caso, Eduardo Cunha que já está todo estropiado e não tem mais salvação. O amor separar-nos-á. E segue o andor. Na semana, o STF encaminha para o juiz Sério Moro a denúncia contra o ex-presidente Lula, acusado de ter atuado para evitar a delação do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró. Quem importar-se-á?
Percebam que PMDB e PT têm características importantes, mais semelhantes do que diferentes. Estão mais para sócios que se desentenderam do que opositores de fato. A desgraça os une além do Impeachment X Golpe, tendo como inimigo comum o Judiciário. Querem sentenciar o juiz Sérgio Moro, acusado de divulgar grampos de investigados com foro privilegiado.
A Corregedoria mandou arquivar, mas, 14 senadores ainda insistem que ele deva responder a processo administrativo disciplinar e seja afastado da Lava Jato. Prenda-se o prendedor. Para zonzar mais ainda a cabeça o agente Newton Ishii, famoso por aparecer nas escoltas a presos e investigados, foi condenado pelo Superior Tribunal de Justiça a 4 anos e 2 meses, por “facilitação de contrabando”. Com tornozeleira eletrônica, dorme em casa e amanhã volta para o trabalho na Policia Federal, porque não perdeu o emprego.
Dilma, nessa história toda, vai perder o mandato por excesso de inocência. Dela, poucos vão se lembrar. A sociedade sofre hoje de uma patologia provocada por excesso de informação. A “midiotia”. Temos que deletar o recente para acolher o novo despejado pela mídia, como se fosse objeto da realidade. Aceitam-se todas as contradições.
Dilma foi apresentada pelo marqueteiro do PT como “mãe dos pobres”, “mãe do povo”, “mãe do PAC”. Nada mais arcaico hoje do que reduzir a mulher à maternidade. Perderam a oportunidade de ampliar o significado de uma mulher na Presidência da República.
Existe uma crença compartilhada de que a corrupção deve ser tolerada no uso da função pública. A Biologia descobriu que a corrupção não é exclusiva da espécie humana. Há atitudes corruptas entre chimpanzés, abelhas e formigas. A sociedade, de certa forma a exerce, ou, pelo menos, a tolera.
O autor é jornalista e articulista do JC