09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Thaís Amadei Pegoraro

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

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 ‘Há dois anos, eu nunca havia escalado’

Ela chegou ao topo do mundo, literalmente, e se prepara, agora, para completar a meta de escalar os sete cumes mais altos de cada continente, em 12 meses. A Entrevista da Semana de hoje conta a história da bauruense Thaís Amadei Pegoraro, 37 anos, que escalou o cume do Monte Everest, a mais alta montanha do planeta (com 8.848 metros de altitude), no último dia 19 de maio.

“Não há espaço para você se emocionar muito lá no alto. Eu observei o cenário deslumbrante. Estava muito acima das nuvens e vi a curvatura da terra. Mas o principal pensamento é o de descer rápido e acho que é instinto de sobrevivência. Só me dei conta de tudo o que havia acontecido quando eu cheguei de volta ao acampamento base”.  

Desde o ano passado, ela passou pelo William McKinley, na América do Norte; Elbrus, na Europa; Kilimanjaro, na África; Vinson, na Antártica; Aconcágua, na América do Sul; e, agora, o Monte Everest, na Ásia. Para finalizar, ela se prepara para o Carstensz, na Oceania, para onde vai no dia 23 de junho.

De toda a história do alpinismo, Thaís é a 14.ª brasileira a alcançar o cume do Everest. Em 12 meses, ela terá escalado os setes cumes. Até hoje, somente sete brasileiros têm tal feito, mas ninguém em um ano. “Além do apoio da família e amigos em toda a jornada, contei com uma ajuda ainda mais especial: minha mãe, Leila Liz Amadei, que me acompanhou até o acampamento base, no Everest”, grifa.

Quem sabe a história de Thaís vire um livro sobre como é possível conciliar a vida profissional com os sonhos. E ela nem escalava há dois anos. Confira como tudo começou.

Jornal da Cidade – Qual foi a sensação de ver o mundo do alto do Everest?
Thaís Amadei Pegoraro – Eu cheguei ao cume no dia 19 de maio. Não há espaço para você se emocionar muito lá no alto. Eu observei o cenário deslumbrante. Estava muito acima das nuvens e vi as maiores montanhas muito lá embaixo. Vi a curvatura da terra. É tão alto que é possível ver a estratosfera e um pouco dessa curvatura. Mas o principal pensamento que você tem é o de descer rápido, e acho que é instinto de sobrevivência. Isso porque a gente sabe que 80% dos acidentes ocorrem na descida, que é a hora que a pessoa relaxa e está muito cansada. Há quem durma de tanta exaustão. Bom, a emoção veio mesmo quando eu cheguei de volta ao acampamento base e me dei conta de tudo o que havia acontecido.

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Até hoje, somente sete brasileiros escalaram os sete cumes, mas ninguém cumpriu o feito em um ano

JC – Quando você passou a se interessar pelos esportes radicais?
Thaís – Eu nunca fui atleta profissional, mas trago comigo a curiosidade de experimentar coisas diferentes desde a infância. Há cinco anos, fui transferida (profissionalmente) de São Paulo para o Rio de Janeiro e o Rio é um parque de diversões para os esporte radicais. As diferentes experiências que cada um desses esportes propiciam sempre me chamaram a atenção.  

JC – Quer dizer que o montanhismo é algo novo em sua vida e você já chegou ao cume do Everest?
Thaís – (Risos) Na verdade, eu nem escalava há dois anos. Eu fiz o meu primeiro curso de escalada em rocha em março de 2014, mas eu entendi que a escalada em rocha é muito diferente da escalada em gelo. Sendo assim, em junho do mesmo ano, fiz meu primeiro curso de escalada em gelo, na Bolívia. E me apaixonei.

JC – Você se inspirou em alguém para o montanhismo ?
Thaís – Desde criança eu trago comigo o sonho de escalar o Everest, mas não sei dizer de onde esse sonho veio. Bom, em fevereiro/março de 2014, eu saí da empresa que eu trabalhava e montei uma empresa de coaching para carreiras e executivos, foi quando esse sonho foi despertado.  

JC – Você trabalhou antes em qual área?
Thaís – Na verdade, eu tive três mudanças profissionais até hoje. Fui advogada por uns sete anos. Mas achava a profissão muito árida e fui contratada por uma empresa como headhunter, contratando advogados. Eu ajudava as pessoas a mudarem de emprego. Depois de seis anos, eu cheguei à conclusão de que não queria apenas mudar as pessoas de lugar, mas sim contribuir com o desenvolvimento das coisas que eram importantes para esses clientes. Foi quando montei minha empresa de coaching. Mas antes eu passei por vários processos e técnicas, que são capazes de fazer você resgatar sonhos, sentir-se mais capaz de alcançar seus objetivos e se empoderar. Foi nesse período que eu lembrei do meu sonho de escalar o Everest e me propus a fazer. E num prazo de dois ou três meses, eu mudei completamente a minha vida.

JC – Por que os sete cumes?
Thaís – A meta é escalar as maiores montanhas de cada continente. O Everest demanda uma preparação muito grande e você só treina para montanha, na montanha. É claro que há todo um processo de musculação e treinos do dia a dia para dar base, mas é na montanha que você está em contato com a neve, com os equipamentos e as variáveis. Por que não desenhar um projeto de preparo para o Everest indo para a maior montanha de cada continente? No meu pano de fundo havia sempre a ideia de chamar a atenção das pessoas para que elas acreditem que é possível alcançar qualquer objetivo. E esse meu projeto pessoal chama a atenção das pessoas nesse sentido.

JC – Você usará essa experiência também para as suas atividades profissionais?
Thaís – Eu não havia pensando sobre isso. Mas os clientes descobrem esse meu hobby, ou atividade paralela, e o nosso trabalho ganha mais profundidade, porque eles observam que eu não sou só o que eu falo, mas também o que eu faço. E as palestras passaram a ser uma provocação das pessoas. E as pessoas se emocionam. Elas se identificam com a luta, com os fracassos, com as conquistas...

JC – Falta uma montanha.
Thaís – Isso. Falta o Carstensz, na Oceania, para onde eu vou no dia 23 de junho. Em 12 meses, eu terei escalado os setes cumes. Até hoje, somente sete brasileiros têm tal feito, mas ninguém em um ano. Fiz a minha parte, mas tive muita sorte.

JC – Quais foram os maiores desafios desse um ano?
Thaís – A minha própria mente, em acreditar que daria certo. Eu não tinha patrocínio, nunca fui atleta profissional... Havia várias variáveis. Depois, veio o meu medo de altura. Eu travo em alguns momentos da montanha e o papel do guia é muito importante também por isso. E tem a minha vida profissional, já que não parei e precisei conciliar tudo ao mesmo tempo. Na subida, passei por muita exaustão física, já que é um esporte de alta performance e longa duração. No dia do ataque ao cume, foram 21 horas de atividades físicas ininterruptas. E já não é mais físico, você precisa ter um planejamento mental muito grande, assim como o preparo emocional. Você precisa entender que vai sentir dor, vai ter vontade de dormir em pé e que seu corpo vai dizer “não” em vários momentos. O Everest é conhecido como a montanha que gera muitos perigos, mas você tem que estar lá focada em seu objetivo. Se a gente parar para pensar em tudo de ruim que pode acontecer, a gente desiste. E muita gente desiste mesmo.

JC – Quanto tempo levou a subida do Everest?
Thaís – A expedição durou 60 dias. Foram 11 de caminhada para chegar até o acampamento base. A partir daí, são 50 dias em que você fica subindo e descendo a montanha, em etapas, para seu corpo se adaptar à falta de oxigênio. Destes 50 dias, 12 nós estávamos especificamente escalando a montanha. Comíamos o máximo possível no acampamento base. Na subida, a gente leva uns saquinhos com pó dentro. Quando você hidrata, a comida em pó vira lasanha, estrogonofe... É algo muito louco (risos), mas não é uma comida que deva ser ingerida por muito tempo.   

JC – O que ficou desta sua experiência?
Thaís – Principalmente que o ser humano é muito mais forte do que acredita. A nossa capacidade de adaptação e de nos reinventarmos ficou muito clara para mim com o Everest. Eu tive que desistir a 300 metros do cume da primeira montanha do projeto, no Aconcágua, a maior montanha da América do Sul. Lidar com o fracasso me fortaleceu. Eu voltei, me preparei mais, voltei lá e fiz.

Perfil

Thaís Amadei Pegoraro
Tem 37 anos e nasceu em Bauru

É do signo de Sagitário e atualmente vive na cidade do Rio de Janeiro
Kitesurf e montanhismo são hobbies
A música varia de acordo com o seu momento, atualmente sua trilha sonora é movida pelo rock and roll
Seus livros são voltados para a escalada e coaching
Nota 10: Para os que têm coragem de correr atrás, viver os seus sonhos e abandonar o “mais do mesmo”
Nota 0: Para quem só critica e não faz a sua parte
E-mail: thaispegoraro@thaispegoraro.com