A história da escravidão africana no Brasil é uma aventura dramática e difícil de ser contada. Mesmo após 128 anos da abolição, o assunto ainda é evitado em muitas cidades que no passado usufruíram do trabalho escravo. A imprensa, por outro lado, publica flagrantes atuais de situações análogas à escravidão no país, muitas vezes dentro de um Estado desenvolvido como São Paulo. Além disso, pouco ainda foi dito sobre a escravidão em nossa região, nos primórdios de Bauru.
Nos últimos anos, os documentos coletados e divulgados pelo professor Edson Fernandes, especialista na história de Lençóis Paulista, revelaram fatos importantes sobre os cativos no início do povoamento local. Havia, por exemplo, o casamento entre escravos, e também entre escravos e libertos - a Igreja oficializava o casamento, atestando o nome da pessoa e o de seu proprietário. Naquela época, Bauru ainda era o Bairro do Bauru, uma Boca do Sertão que pertencia à Freguesia de Lençoes, e os primeiros proprietários de terras (ao menos vários deles), chegaram aqui trazendo seus escravos.
A maioria dos fazendeiros dessa frente pioneira era mineira, pois o esgotamento do ouro em Minas Gerais causara uma grande crise econômica naquele estado. Com a Lei de Terras de 1850 e a chance de tomar gratuitamente (grilagem) fartas áreas do sertão paulista, muitos vieram formar novas fazendas na nossa região. O título de Boca do Sertão era dado a toda localidade que estivesse mais avançada para o oeste, no limite das áreas selvagens do nosso estado. Portanto, Lençoes ( que a partir de 1865 foi elevada de Freguesia a Vila, com status de Município, e hoje é Lençóis Paulista) era a Boca do Sertão enquanto Município, bem como Bauru era a Boca do Sertão enquanto bairro rural. Bairro rural, por sua vez, era o nome dado a qualquer aglomerado de sítios e fazendas, com algumas vendas instaladas entre as picadas de terra e um comércio bem rústico de subsistência.
O trabalho escravo foi utilizado em muitas dessas antigas propriedades de Bauru. Há registros oficiais das famílias, de suas terras, bens e das heranças - algumas incluindo os escravos, seus nomes, a idade, características físicas e o valor de cada um. Tratava-se de uma escravidão residual, com características mais doméstica e pessoais, pois os fazendeiros ricos ou muito ricos só rumariam para Bauru com as grandes plantações de café e com a promessa da ferrovia. Antes deles, os agricultores e criadores que se fixaram aqui (desde 1850) eram aventureiros, homens que procuravam terras inexploradas para registrar em seu nome, que construíam casarões rústicos para morar com a parentela em uma zona selvagem - enfrentando os índios ou convivendo com eles - e tinham dois, três ou quatro escravos (os de mais condição, talvez, uma dezena deles). Naqueles tempos, poucos fazendeiros na Boca do Sertão conseguiam enriquecer o bastante para ter 20 ou 30 escravos, o que era uma fortuna surpreendente.
Mais pessoal e mais doméstica, porém escravidão cruel como em qualquer lugar. A pesquisa do professor Edson Fernandes revela que um cidadão podia ter “partes” de um escravo, quando ele serviria a mais de um senhor. Há relatos de quilombos escondidos nas matas vizinhas e os jornais da época, editados na capital, traziam anúncios garantindo recompensas a quem encontrasse escravos fugidos por estas bandas.
Como Bauru só foi emancipada em 1896 (Vila de Bauru, sede do Município de Espírito Santo de Fortaleza, a partir de então com o nome de Bauru), portanto depois da abolição, a escravidão foi um fato esquecido e não muito divulgado, mas que certamente manchou as nossas origens. No próprio episódio da fundação, no Primeiro de Agosto, foi o estafeta Domiciano, ex-escravo da família de Araújo Leite, quem trouxe o telegrama que oficializava o Município. Domiciano veio do telégrafo do povoado de Bom Jardim, sendo recebido com fogos e uma grande festa.
Ex-escravo. Essa marca acompanhou os alforriados até a morte e também os libertos do 13 de maio de 1888. Era uma forma de perpetuar o abuso e a segregação social que a lei estava abolindo.