08 de julho de 2026
Articulistas

Azul e Rosa

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Quando temos a inquebrantável certeza  do que pensamos. Quando nenhuma dúvida desafia a nossa crença. Quando sabemos  colocar em tudo a etiqueta do bem e do mal. Quando nos entregamos de peito e alma a uma causa ou ideia por   estarmos convictos  de ser aquele o único caminho a seguir. Quando estamos exatamente assim, entupidos de tantas certezas, bem outra pode ser a verdade: a de que possivelmente estejamos  cegos.

Ninguém  extermina 49 pessoas e fere outras dezenas senão movido pela fanática certeza de que fazia a coisa mais justa e necessária. Para Omar Mateen, 29 anos, era preciso dar um  fim àquela festa nojenta de gays e lésbicas que se esfregavam despudoradamente na boate Pulse, em Orlando, nos Estados Unidos. Para esse jovem cheio de certezas, o mundo é binário: Maria tem que ser Maria, não pode ser José. José tem que ser José, não pode ser Maria. Maria José ou José Maria, então, nem pensar. Fora desse estreito e dual paradigma, estariam rastejando todos os imorais, os indecentes, os sujos... E para esses pervertidos, disso Omar nunca duvidou,  a sentença  única: a morte. Assim pensando, assim fez, descarregou contra a corja obscena o intolerante AR 15.

O mais instigante  é que Mateen era frequentador dessa mesma boate e  usuário de aplicativos voltados para o público gay. Eis uma explicação possível para o tamanho do  ódio assassino:  não se aceitar como um dos pervertidos, daí incluir-se  entre os que deveriam morrer. Tanto assim que, antes de começar a matança, ele telefonou para o serviço de emergência dando conta do que iria fazer. Consequência, seria morto depois.

Ninguém odeia  tanto coisa que não o machuca. Seu drama possível,  o conflito de ser o que não aceitava ser. Os fanáticos são exatamente assim, acreditam ter o modelo único, a  receita exclusiva do como  viver. Não conseguem perceber que a vida, sendo infinitamente maior,  não pode caber  numa cabecinha burra entupida de  minhocas e certezas.  Não conseguem enxergar  o drama de almas femininas  habitando corpos masculinos nem  o sofrimento de  identidades masculinas presas em corpos femininos. Não   entendem, também, que existam desejos sem direção certa e necessária, que se despertam, diferentemente, a cada caso e situação. Insistem na  asinina certeza de que é possível  encarcerar o desejo e o amor em tão estreitas gaiolas. Parados no tempo, a vida para eles tem que ser “limpa”  e, nesse caso, tingida de azul e rosa.

O pior é que, mesmo nas camadas mais refinadas, a odiosa discriminação, ainda que sutil, está bem viva. O  governador da Flórida, Rich Scott, esbravejou contra o ato claro de terrorismo ocorrido na boate, mas   nada disse sobre o perfil das vítimas e do local. O senador pela Flórida Marco Rubio denunciou  a barbárie terrorista, mas, em 2015, evocando leis divinas, colocou-se visceralmente contra o casamento gay. Outros até “aceitam” os homoafetivos, mas como pessoas  de segunda classe.   Tramita na Câmara dos deputados do nosso país um projeto de lei  que define como família apenas o núcleo social formado  da união entre homem e mulher. Casais que não cabem na caixinha heteroafetiva estão excluídos, não são família. São o que então? A cegueira é tamanha  a ponto de negar a solar realidade, tantos  hoje são os  arranjos familiares.

A vida seria bem  melhor se soubéssemos conviver harmonicamente com os diferentes. Mas Omar Mateen não era um diferente com o legítimo direito de pensar diferente. Era um antagonista. O  diferente  compromete-se com o projeto de uma sociedade mais livre e mais humana. O antagonista, ao contrário, é um desumanizador, veiculando sempre o discurso da discriminação odiosa. Com o antagonista, claro, não podemos ser tolerantes,  seria  injustificável omissão.

Melhor relembrar as palavras de Paulo Freire, que tão bem explicitam o que, com dificuldade,  tento dizer: “eu me bato muito pela tolerância, que para mim é uma virtude... revolucionária até. É esta possibilidade de conviver com o diferente para poder brigar com o antagonista. O antagonista é diferente também, mas um diferente diferente.”  


O autor é professor de redação e Membro da Academia Bauruense de Letras – curso_romag@uol.com.br