11 de julho de 2026
Nacional

"Saída do Brasil da recessão deve ser muito lenta", diz pesquisador

Estadão Conteúdo
| Tempo de leitura: 3 min

Para o pesquisador Regis Bonelli, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), o Brasil não tem um caminho fácil pela frente. Na avaliação dele, a economia brasileira deve sair da recessão crescendo a taxas muito baixas. Enquanto alguns economistas já preveem um crescimento econômico próximo de 2% em 2017, o Ibre prevê uma estagnação.

As projeções do Ibre estão mais pessimistas. Qual é a análise do quadro atual?
Prevemos uma saída da recessão, mas muito lenta. Os vetores de crescimento como investimento e infraestrutura e a contribuição do setor externo não parecem até o momento ter um futuro muito brilhante.

Por que o futuro não parece bom?
Enquanto houver muita capacidade ociosa, o investimento demora para recuperar. A indústria, que é o caso mais claro, não tem estoques tão altos, mas ainda há muita capacidade ociosa. O investimento em infraestrutura ainda é uma incógnita. Aparentemente, o governo está conseguindo avançar nas concessões e privatizações, mas não será um resultado imediato. E, por enquanto, os programas estão bastante tímidos.

Nem o setor externo pode puxar a economia brasileira?
No ano passado, a contribuição foi muito boa. Em 2016, a gente acha que a contribuição deve ser menor, porque as exportações, embora possam estar se recuperando, não serão notáveis em termos de quantidade. E, se a economia se estabilizar - como a gente acredita neste segundo semestre - a tendência é que retome um pouco das importações. O nosso cenário está bastante ajustado. Nós vemos uma saída da recessão, provavelmente, no fim deste ano, mas a taxas muito, muito baixas.

Só a melhora recente das expectativas não é suficiente para a retomada da economia?
As expectativas estão melhorando, mas muito lentamente. Você olha as respostas e vê alguma coisa um pouco melhor, mas ainda patinando no fundo do poço. Isso, entre os empresários. Porque, no caso dos consumidores, não é assim. A situação ainda está ruim, com uma incerteza muito alta. A nossa previsão é de que o desemprego passe de 11% e aumente no ano que vem. Além disso, as famílias ainda estão digerindo um ciclo de endividamento.

Com o sr. analisa o início da equipe econômica?
Acho que está na direção certa. É uma equipe profissional. Não gosto de comparações de qualidade de equipe. Eu certamente acho que essa, pelo diagnóstico que tem feito, mostra que conhece a gravidade da situação. Tem uma visão de mundo, um propósito de uma direção. Mas é uma tarefa muito difícil. A gente acompanha no noticiário a dificuldade que (a equipe) tem para passar (as medidas) politicamente.

O debate sobre a produtividade tem permeado as discussões econômicas nas últimas décadas?

Avançamos muito. A má utilização do estoque de capital vem ocorrendo por causa de obras paralisadas, malfeitas, obras pela metade. Isso faz com que o investimento feito não tenha gerado produto. O estoque de capital está cada vez mais ineficiente. No Maranhão, gastou-se mais de um R$ 1 bilhão de terraplenagem e a obra foi interrompida. O que é isso? É gasto de capital fixo, investimento, que não gera produto. A refinaria Comperj, no Rio, é um escândalo, porque consumiu uma quantidade imensa de investimento, mas não gerou produto nenhum.

Isso coloca o Brasil para trás num cenário já complicado...
O que se nota também é que está acabando a fase da transição do bônus demográfico. Então, olhando para frente, não vai ter mão de obra. Ou seja, o ônus que estamos colocando sobre a produtividade é maior ainda. Se a produtividade não crescer muito rápido, o País não vai crescer, porque não vai ter como incorporar trabalho à produção.

Qual pode ser a consequência desse problema?
Tem muita gente pensando em esquemas de imigração em larga escala, mas a quantidade de gente que seria necessária para complementar o trabalhador brasileiro em termos de imigrantes é um número da classe do milhão. E a gente não tem institucionalidade para receber isso. O Brasil recebe 10 mil imigrantes por ano, se muito, com todas as dificuldades. Imagina receber 1 milhão? O problema é que não estamos vendo acontecer e não tem sinal visível.