09 de julho de 2026
Geral

Remédio: a indústria do alívio da dor

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

O Brasil é o 4º maior mercado de comércio de remédios do mundo. Uma ‘dose’ dessa situação explica-se pela cultura da automedicação. Mas outra parcela significativa da sociedade brasileira alimenta vertiginosamente o faturamento de farmácias no País não necessariamente porque as pessoas estão adoecendo mais. O marketing da poderosa indústria farmacêutica explora com sucesso uma característica singular do brasileiro: “o alívio imediato”.

Ou seja, em Bauru ou em qualquer canto do País os brasileiros demonstram que há exacerbada intolerância em lidar com as alterações naturais do corpo. É a falsa ideia embutida no modismo comportamental de que as pessoas poderiam estar “100%” todos os dias. E a indústria farmacêutica sabe, como ninguém, oferecer o “colo” do consumo, ou a muleta da promessa de alívio imediato para milhões de pessoas atarefadas, angustiadas e estressadas com a já conturbada correria diária. E, então, engolem-se remédios como se fossem balas de açúcar o tempo todo.

E é exatamente esse pragmatismo avesso do comportamento que serve de alerta e, em parte, explica porque estamos no topo dos países que mais consomem remédios no mundo. Para o infectologista, secretário municipal de Saúde e membro da entidade que congrega os gestores públicos de saúde no Brasil, Fernando Casquel Monti, a cultura da intolerância com a dor preocupa. 

“O consumo no mercado livre das farmácias é que preocupa. Acho que o questionamento a ser colocado é a de uso de remédios em razão da intolerância do brasileiro, em particular, em lidar com as alterações normais, naturais, biológicas, do corpo. É impossível obter resultado com o marketing do bem-estar 100%. É impossível estar bem o tempo todo”, adverte.
E aqui reside o ponto de reflexão para a compra, indiscriminada ou não, de remédios de venda livre nos balcões e gôndolas de uma infinidade de drogarias na praça. “O brasileiro lida muito mal com o desconforto. As pessoas passam por dissabores, ansiedade, tensão, correria, angústia. E, mesmo que isso tudo não existisse, é normal ter desconfortos ligados a questões pontuais, porque dormiu mal ou comeu algo que não fez bem e uma série de outras consequências que o corpo manifesta. Mas o brasileiro lida muito mal com isso”, reforça Monti.

E a indústria sabe ‘pegar’ o brasileiro pela dor ou pelo amor. “A propaganda televisiva é maciça também com a venda de remédios. E o marketing do alívio imediato está lá todo dia martelando. A cultura do corpo em perfeito estado e do bem-estar está todo dia em nossas casas”, amplia o secretário. 

Para Monti, do ponto de vista de análise do comportamento diante da dor, o brasileiro, na média, tende a atender mais facilmente aos apelos de consumo. “Veja o nível de consumo de analgésicos, de descongestionante. O sujeito tem uma gripe e não consegue conviver com o desconforto normal que ela traz. O corpo reage e dá sinais. Aqui ninguém está falando em não ir ao médico ou não tomar medicamento. Mas de alertar que é preciso ter tolerância com o mal-estar”, conclui.   

Do ponto de vista da comercialização de remédios controlados, Fernando Monti considera que o País evoluiu. “A última medida mais firme nesse sentido veio com o controle dos antibióticos. A regulação percebeu que o uso de antibióticos chegou a tal ponto que em pouco tempo não teria mais o que usar para combater a bactéria, tal o exagero no uso. E isso se regulou a partir do controle por receita. Mas a venda livre no balcão para os remédios comuns é que preocupa”, posiciona. Do que se distribui, por prescrição médica, nos programas da rede pública de saúde, Monti vê estabilidade e tem avanços significativos e controle melhor, porque passam pelo crivo do médico.  

O comportamento

Que fatores psicológicos explicam o uso indiscriminado de medicamentos por parte da população: por modismo, desinformação e automedicação?

Para o especialista em psicologia cognitiva-comportamental Arnaldo Vicente, parte da sociedade está dependente do remédio devido às crenças distorcidas de incapacidade: “-O remédio me deixa 100%; - “sem o remédio não ficarei bem, melhor nem diminuir”; - “só melhorei por causa do remédio”, elenca.  Na visão de Vicente, estas crenças maximizam os efeitos dos remédios e minimizam, ou desconsideram, as capacidades pessoais desenvolvidas antes e durante o uso dos medicamentos. “Isso gera ansiedade e aflição nas pessoas que só diminuem quando ingerem os medicamentos, caracterizando a dependência exagerada. Estas crenças são apoiadas na família e na cultura popular, principalmente por falta de informações”, aborda.

De outro lado, o psicólogo também sugere a observação do típico consumidor que tem aversão exagerada aos remédios. “Na contramão desse movimento devemos lembrar que a aversão exagerada ao remédios é ancorada em crenças como: - se tomo, sou fraco; - se tomo não vou mais ser o mesmo; - esses remédios são perigosos e podem matar”, pondera. 
Assim, entre um extremo e outro, o psicólogo reflete que “tomar remédios exige que haja uma necessidade pontual e comprovada e sempre prescrito pelo médico, evitando a automedicação e a crença popular”. 

Em síntese, é razoável tomar cuidado com o dito: “Se serviu para ele, serve para mim”. Ou seja, o uso responsivo de medicamentos resulta em benefícios e pode salvar vidas. Lembrando que remédios não mudam pensamentos, mas pode contê-los em sua intensidade emocional”, menciona Vicente. 

Os mais vendidos

A tese de que o brasileiro não sabe lidar ou lida muito mal com a sensação de dor está estampada no ranking dos remédios mais vendidos no Brasil em 2015 sem prescrição médica. Quase metade dos medicamentos no “top 10” do mercado farmacêutico brasileiro é de analgésicos, sendo pesquisa da IMS Health. O primeiro da lista é um descongestionante, cuja eficácia, inclusive, é controversa entre médicos em razão do chamado “efeito rebote” que esse medicamento pode causar nas pessoas.

Os dados de faturamento e vendas “entregam” boa parte do consumidor brasileiro visita farmácia até mais que supermercado e, certamente, mais que feira livre e academia, na média. A lista dos 10 mais vendidos em 2015, na ordem a partir do mais vendido, traz o descongestionante (Neosoro), antidiabético (Glifage Xr), anticoncepcional (Ciclo 21), hipertensivo (Losartana potássica), analgésico (Dorflex), para disfunção erétil (Cit sildenafila), hipotireoidismo (Puran T4), analgésico de uso externo (pele) (Salonpas), analgésico (Dipirona sódica) e analgésico (Torsilax). Os quatro mais vendidos dos campeões de vendas no Brasil são analgésicos. Apenas três são de uso permanente para controle ou de natalidade (anticoncepcional), ou de hipertensão ou contra o diabetes.