08 de julho de 2026
Geral

Cai uso de droga para depressão

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 4 min

Embora o senso comum continue indicando que a depressão e ansiedade continuam no topo das preocupações dos males da vida moderna, em Bauru o uso de medicamentes para essas finalidades despencou na lista de distribuição gratuita na rede pública municipal.

Os dados de distribuição de medicamentos controlados relativos ao fechamento de 2015 da Secretaria Municipal de Saúde apontam os anti-hipertensivos e antidiabéticos como os mais procurados. Aparece apenas na 10ª posição estatística um ansiolítico. (veja quadro). E os antidrepressivos, aparecem somente após este recorte na estatística. Para o diretor do Departamento de Planejamento, Avaliação e Controle da Secretaria Municipal de Saúde, médico Pedro Luiz Pereira, os dados demonstram que o programa local tem boa cobertura e reflete melhora na conscientização.

“É preciso levar em conta que se os dados apontam entre os mais distribuídos os remédios ligados a controle de hipertensão e diabetes, isso implica em afirmar que a rede está prescrevendo dentro do patamar previsto para a população inscrita em programas públicos ligados a essas doenças, que são próprias das faixas etárias mais velhas ou de uso natural e contínuo para esse contingente”, avalia Pedro Pereira.

“Temos 11% dos bauruenses cadastrados com diabetes e 32% como hipertensivos. Isso significa que se fizermos as contas desse contingente para uma população de 360 mil habitantes e dividirmos pelos 30 dias do mês, a cobertura e o uso estão adequados, cobrindo o que é necessário, o público de doenças degenerativas crônicas, de uso contínuo de remédio. E isso significa prevenção secundária para que esse bauruense não entre na fila da hemodiálise lá na frente, por exemplo”, aborda o médico.

Pedro Pereira adverte, de outro lado, que é preciso insistir na pedagogia do uso do remédio. “Você ainda tem hipertensivo que acha que está tudo resolvido porque está tomando o remédio. Parece absurdo, mas é preciso continuar dizendo a este pessoa que se ela não mudar seus hábitos com alimentação, sono, exercícios físicos, o remédio não vai resolver. Outro aspecto é que a população está envelhecendo e isso precisa ser levado em conta na gestão para o futuro”, completa.    

Para psiquiatra, avanço no diagnóstico explica o aumento do consumo da droga controlada  

O aumento do uso de remédios controlados, sobretudo para depressão e ansiedade, reflete maior procura pelo brasileiro pela ajuda profissional em razão do avanço nos métodos de diagnósticos e não o uso indiscriminado. A avaliação é do psiquiatra Fabrício Gimenes. De outro lado, ele adverte que problema crônico e disseminado é o da perigosa automedicação no Brasil. 

“Acredito que nossa população não é dependente de medicamentos não. Porque hoje temos instrumentos muito mais abrangentes para se fazer diagnóstico. O método de diagnóstico evoluiu muito na minha área e, consequentemente, os medicamentos também. As pessoas estão procurando mais os diagnósticos e, por isso, estão sendo mais medicadas. Por isso a falsa impressão de que aumentou o consumo”, defende.

Antigamente, na visão do psiquiatra, aconteciam coisas muito mais tenebrosas nesse segmento. “Mas isso ficava isolado nas gerações antigas, ficava muita coisa da doença do comportamento humano circunscritas ao seu quadro. À medida que isso foi sendo desvendado é natural que o volume de casos conhecidos de tratamentos aumente. Por isso é que, no caso de uso de antidepressivos, por exemplo, é preciso avaliar o tempo e o contexto”, amplia Gimenes.

Ou seja, a evolução de diagnósticos foi acompanhada por avanços com remédios e informação. “Meios de comunicação passaram a discutir síndromes e problemas de origem psicológica com mais naturalidade. Os métodos avançaram e tudo isso gerou, nos últimos anos, um aumento significativo de demanda de uso de medicamentos nessa área”, enfatiza o psiquiatra.

A literatura médica já anunciava que depressão e ansiedade estariam no topo da lista entre os males do ser humano a serem tratados. “Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) mencionam que de 2015 a 2020 a depressão e a ansiedade tomariam a ponteira entre as patologias em todo o mundo e não só no Brasil. Então a literatura médica acertou nisso. A quantidade de psicotrópicos comercializada vai de encontro com essa literatura”, lembra.

Quanto mais subdesenvolvido o País maior o índice de transtornos do humor. E o inverso é verdadeiro para os desenvolvidos, lembra Gimenes. “Em 2014 a OMS fez o levantamento e o Brasil foi um dos líderes no histórico de depressão dos últimos 12 meses. Deu uma média de 10,4% da população o número de pessoas que confirmavam estar deprimidas; No Japão, para comparar, foi 2,2%. O meio cultural em que vivemos, o fato de sermos um País em desenvolvimento, nossas atribulações sociais, é que nos colocam nesse patamar”, pontua.

De outro lado, o psiquiatra deixa claro que a automedicação é um problema crônico no Brasil. “É crônico e recorrente. A dificuldade da gente conseguir fazer um tratamento adequado é enorme. A cultura de ajudar a medicar o vizinho, o amigo, acontece como mania até. E isso ocorre não só para o uso de psicotrópicos, mas para dores ou males comuns do dia a dia”, alerta.

Dentro desse universo de distorções, o brasileiro, em particular, passa por cima do critério de diagnóstico claro para cada tipo de patologia. “O medicamento tem prescrição clara e isso está ancorado em diagnóstico claro. Usar medicamento claro para uso adequado, ótimo. Mas ir no achismo e na cultura da auto medicação é perigoso, além de ser um péssimo hábito”, comenta.