10 de julho de 2026
Articulistas

Não deu outra: cresceu a desigualdade

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 3 min

Desde quando o Brasil passou a conviver a com a chamada estagflação (recessão, inflação alta e desemprego), o alerta foi feito: os indicadores sociais se deteriorarão e a desigualdade social crescerá. Não deu outra. Os números apontam para um retrocesso brasileiro no tocante à redução da desigualdade social. O causa primária é, sem dúvida alguma, o desemprego. Com erro estratégico, adotando matriz econômica inconsistente, as equipes econômicas da presidente afastada, Dilma Rousseff, fragilizaram a economia brasileira. Crescimento econômico baseado em consumo, com afrouxamento das políticas fiscal e monetária, tem prazo de validade e este modelo, entre outros fatores externos, desarranjou a economia brasileira. O que era alardeado pelos quatro cantos pelo governo petista como a grande conquista “nunca antes vista neste País”, está colocado em xeque: a ascensão social faz seu caminho de volta.


Os números falam por si só. Primeiramente, o número de desempregados não para de crescer. Em termos percentuais, o Brasil saiu de 7,8% de taxa de desemprego em 2012, para atingir no primeiro trimestre deste ano 10,9%. Em termos absolutos mais de 11 milhões tentam atualmente se ocupar e não tiveram êxito. Se nada for feito rapidamente, é possível que este número atinja 14 milhões de pessoas. Desemprego em alta, renda em queda. Se cerca de 34 milhões de brasileiros demoraram 10 anos para migrarem das classes D e E para a classe C, em curto espaço de tempo mais de 10 milhões de cidadãos já fizeram o caminho de volta e este número só cresce.


A consequência disso tudo foi apontada no indicador de concentração de renda: o índice de Gini. Este índice indica que se o resultado fosse um, renda totalmente concentrada, se fosse zero, totalmente distribuída, portanto, quanto mais próximo de um, renda mais concentrada, mais próximo de zero, menos concentrado. O Brasil já teve no passado índice de Gini na casa dos 0,7 (puxado por Estados mais atrasados em termos de desenvolvimento econômico no País), avançou, reduzindo o nível de 0,53 em 2014, mas voltou a crescer, atingindo agora 0,55.


Isso tudo muda, para pior, a qualidade de vida do brasileiro. Sem emprego, sem renda, fazendo o caminho de volta para as classes D e E, a precariedade se instala. O estudo dos filhos fica em plano secundário. O emprego informal cresce e com ele cai por terra uma série de proteções legais, como o tempo para aposentadoria e auxílios importantes da previdência social. As condições de moradia são prejudicadas, e os arranjos familiares comprometidos, à medida que muitas famílias acabam acolhendo seus familiares em residências que não estão preparadas para abrigar um número grande pessoas.


Todos perdem e nos distanciamos da tão sonhada prática da justiça social. O lamentável disso tudo é observar que nenhum segmento que luta pelos menos favorecidos levanta a bandeira da retomada do crescimento e do emprego no País. Há um único discurso: “é golpe”. Golpe é tirar a dignidade das pessoas. O ser humano tem sua dignidade alicerçada em seu trabalho, no sustento de sua família, sendo senhor de seu destino e não alguém que precisa ser tutelado pelo Estado. Há uma esperança no ar, vinda do eventual acerto na condução da política econômica brasileira, através do ministro da Fazenda Henrique Meirelles, mas, sozinho, tendo que se render a eventuais acordos políticos, poderá esmorecer.


Se os indicadores sociais não forem capazes de sensibilizar os políticos e aqueles que apostam no “quanto pior melhor”, será difícil projetar um País que tenha a justiça social como meta primeira. Como tudo isso era esperado, resta-nos exigir velocidade no equacionamento desta verdadeira “herança maldita”. Não é possível não nos indignarmos com o crescimento da pobreza neste País.


O autor é economista, articulista do JC