08 de julho de 2026
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Promessas

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 3 min

Se você ler este artigo, eu prometo que vou...

Eu tenho um amigo 100% ateu. Ele não crê em Deus. Ele, na verdade, não crê em nadica de nada. Esse meu amigo é tão convicto disso que chega a jurar por Deus que não tem qualquer crença.

Um dos argumentos mais utilizados pelos teístas é que, “durante a queda de um avião, você não encontra um ateu sequer”. Eu nunca estive em um desastre aéreo para saber se isso é verdade e espero, por Deus, nunca estar. O fato é que a frase (bastante contestada pelos ateus) é usada para simbolizar que na hora em que “a água bate na bunda”, todo mundo se apega a um santo ou a um Deus.

Não sei até que ponto tal hipótese se comprova, mas vejo indícios de que a crença ganha forças nos momentos de aperto, de aflição, de doença ou de gatos e cachorros perdidos. É só olhar o tanto de promessas que são feitas por aí. Segundo pesquisa recente, uma pessoa faz uma média de 14 promessas ao longo de sua vida (não precisa procurar no Google essa estatística. Não está lá. Eu fiz esse levantamento perguntando para a minha mãe).  

Acredito, porém, que o brasileiro tem uma característica única e intrínseca na arte de prometer. A ginga do nosso futebol (é claro que não estou falando do futebol desclassificado em um grupo com Equador, Peru e Haiti) foi interiorizada no povo tupiniquim até na hora de fazer a promessa e, assim, “driblar” o cumprimento.

Quando eu era pequeno, fiquei bem doente. Uma vizinha da minha avó e amiga da família não teve dúvidas e apelou para os céus: se eu melhorasse, um Ovo de Páscoa seria doado todo ano para crianças carentes. Mas quem faria tal caridade anual? Ela própria? Claro que não. A minha mãe seria a encarregada! Afinal, o filho era dela. Foi a primeira vez que tive contato com a “terceirização” de um trato celestial.

No início desta semana, o Paçoca, gato de estimação dos meus pais, fugiu em meio às ruas metropolitanas da grande Pirajuí. Orando por um final feliz na história do felino, minha tia Maice também fez uma promessa ao famoso São Longuinho (o santo que troca o aparecimento das coisas e agora dos gatos por três pulinhos). O bichano voltou. Qual era o pagamento da promessa? Que minha mãe iria dar a ela, minha tia, uma imagem do São Longuinho. Terceirizou! E de bônus ganhou o santo. Que São Longuinho me perdoe pelo trocadilho, mas foi um grande “achado” para todos.

Eu mesmo já fiz promessa de deixar de tomar Coca-Cola por um ano. Com a graça alcançada, cumpri à risca. Não tomei um gole sequer de Coca por 366 dias (para piorar, era ano bissexto). Entretanto, não tinha dito nada ao santo sobre não beber Fanta, Fanta-Uva (será que alguém criou este refrigerante horrível para pagar alguma promessa?), Guaraná Dolly, Soda e até a irmã gêmea feia da Coca-Cola, a Pepsi. Me esbaldei nesses outros refrigerantes, mas quem ousa dizer que não cumpri o acordo sagrado?

Bom, já me alonguei demais nessa divagação. Prometo que este é o último parágrafo. Antes, porém, vale lembrar que as eleições municipais estão batendo à porta e seremos submersos por uma onda de promessas. E vai ter muito santo (e muito santinho) do pau oco disfarçado de candidato prometendo todo e qualquer tipo de coisa. Você promete que irá votar com consciência?  


Com base em muitas promessas para chegar até aqui, o autor é editor do JC, jornalista responsável da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia