| Samantha Ciuffa |
| Nas fotos, os dançarinos Evellyn Franco e Alexis Alves, integrantes da Casa da Cultura Hip Hop |
Quatro manifestações artísticas principais compõem o hip hop como movimento cultural: o canto do rap, a instrumentação dos DJs, a dança do break e a pintura do grafite. O quinto elemento é o conhecimento. Nascido nas ruas para reivindicar espaço e voz das periferias, o movimento ganha cada vez mais adeptos, respeito e ajuda para descentralizar a cultura.
O bauruense Magu (Renato Moreira) é produtor cultural e organiza projetos e eventos relacionados à essa cultura no município. Segundo ele, o movimento atua na transformação de vidas. Dá caminhos e alternativas para a juventude se expressar em forma de arte. É uma manifestação de luta, que questiona e denuncia as mazelas sociais que acontecem na periferia.
“Em Bauru, a Casa da Cultura Hip Hop oferece cerca de 900 vagas em oficinas artísticas e profissionalizantes, inclusive com cursinho pré-vestibular para alunos de escola pública. Organizamos a Semana Municipal do Hip Hop e diversos projetos no Centro da cidade e nos bairros”, grifa.
Um desses projetos já existe há quatro anos e consiste na montagem de palco na periferia para que os grupos da região consigam se apresentar. “Hoje também encontramos militantes nas universidades. Temos professores, advogados, fotógrafos, designers ... de tudo um pouco. O movimento é um só”, destaca.
Você sabia?
O hip hop é um movimento cultural iniciado no final da década de 1960, nos Estados Unidos, como forma de reação aos conflitos sociais e à violência sofrida pelas classes menos favorecidas da sociedade urbana.
•É uma espécie de cultura das ruas, um movimento de reivindicação de espaço e voz das periferias, traduzido nas letras questionadoras e agressivas, no ritmo forte e intenso e nas imagens grafitadas pelos muros das cidades.
•No Brasil, inicialmente, o hip hop foi adotado, sobretudo, pelos jovens negros e pobres de cidades grandes, como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Porto Alegre, como forma de discussão e protesto contra o preconceito racial, a miséria e a exclusão.
•Como movimento cultural, o hip hop tem servido como ferramenta de integração social e mesmo de ressocialização de jovens das periferias no sentido de romper com essa realidade. Fonte: https://www.movimentohiphopdf.com
| Divulgação |
| Desde 1995: Magu conheceu o hip hop com o rap, em 1992, com uma apresentação realizada na Praça Rui Barbosa, no Centro de Bauru. Passou a acompanhar o estilo e, em 1995, começou a escrever letras de rap, virou MC e deu início à participação ativa no movimento cultural e social do hip hop |
Se ela dança, ele também dança
Para os adeptos do estilo, hip hop é uma arte que une, agrega as pessoas e ainda “resgata” suas almas
O hip hop é uma cultura artística que tem se difundido e conquistado praticantes de suas vertentes em diversos bairros da cidade. Mas é na Casa do Hip Hop, na Estação Ferroviária, que essa efervescência pode ser vista com mais frequência e intensidade.
Em visita à casa, o JC nos Bairros encontrou dois jovens bons de dança. Evellyn Franco tem apenas 16 anos , mas já carrega uma certa experiência no movimento. Atualmente, ela dança na Casa e no grupo independente The King of Style, que atua no bairro Fortunato Rocha Lima.
Evellyn, que conheceu o hip hop em apresentações de escola no bairro onde vive (Bela Vista), acredita que a dança é capaz de tirar as crianças e os jovens do que é oferecido de ruim pela ruas, como as drogas. “Mas ela também mostra o que tem de bom nas ruas das cidades, exemplo é o próprio movimento, que nasceu nas ruas”, pontua.
A adolescente diz sentir uma emoção inexplicável quando dança. Emoção essa que pode ser vista em seus movimentos, fotografados pela reportagem. “Quando você faz o que ama, a vibe é a mais positiva possível. Danço pelo menos quatro vezes por semana. O hip hop não é marginalidade. O hip hop é DJ, rap, dança, grafite... Sempre há algo onde você pode se encaixar. O hip hop resgata almas”, defende.
| Samantha Ciuffa |
| Major dança break há 14 anos e agora caminha pela grafitagem |
Entre a dança e o grafite
Major (Luís Enrique Fradetti) dança break há 14 anos, e há dois começou a grafitar. “Conheci a arte do grafite dançando e competindo pelo break, dentro e fora do Brasil. Sempre tive vontade de grafitar, conheço vários artistas. Fiz aulas, comecei a praticar e não parei mais”, conta.
A livre expressão traduzida em arte nos muros abandonados, ou mesmo em autorizados e solicitados, é o que mais atrai o artista para essa vertente do hip hop.
“Eu vejo o grafite como uma forma de colorir a cidade e produzir uma arte capaz de despertar algo nas pessoas que passam e olham para os muros. Para mim, ainda é um hobby, mas que vem se desenvolvendo e crescendo. Já fiz algumas coisas profissionalmente, inclusive”, comenta.
Aceitação
Major, que tem uma loja que vende material para a grafitagem na Vila Falcão, acredita que a modalidade é um dos braços do hip hop mais aceitos pela população. “O grafite nasceu de forma ilegal nos Estados Unidos, mas tomou um outro rumo e vem se consolidando cada vez mais como arte”, acrescenta.
Quem quer aprender?
| Samantha Ciuffa |
| Alexis Alves (25) dança desde os 12 e é professor de krump na Casa Hip Hop |
Alexis Vinícius Pereira Alves tem 25 anos e dança desde os 12. Ele começou se apresentando e disputando campeonatos estudantis de break, o que fez até os 17 anos. Atualmente, ele dança e ensina krump na Casa do Hip Hop.
“Eu fui crescendo e conhecendo outros estilos de danças urbanas, como o krump, uma dança de forte expressão. Gostei tanto que sou professor agora. O que eu quero é ensinar tudo o que aprendi estudando muito, e sozinho”.
Alexis, que é vendedor, dá aulas gratuitas na Estação desde que o espaço foi aberto à cultura. Já vi muita gente de talento, que poderia ser até professor, cair por causa das drogas. Mas também já vi muita gente sair desse mundo escuro por causa do hip hop”.
Para o professor, o hip hop é um estilo de vida capaz de erguer as pessoas. “Nosso espaço agrega e abriga muitas oficinas e cursos, para todos os gostos, e gratuitas: luta, capoeira, dança do ventre, grafite... Está tudo ao alcance de todos”, lembra.
Um maestro do hip hop
Com 25 anos de experiência, DJ fala sobre evolução e desafios do movimento
| Divulgação/Arquivo Pessoal |
| DJ Ding tem 25 anos de experiência e luta pela valorização do hip hop |
Há 25 anos, o DJ Ding (Aubre da Silva Idesti) conheceu o hip hop. Há 25 anos, ele luta pela valorização do gênero musical em Bauru. Ele foi um dos primeiros profissionais a participar do movimento na cidade e é um dos membros da Casa do Hip Hop.
Segundo Ding, tudo começou aos 15 anos de idade, quando ele se mudou da cidade de São Paulo para Bauru, mas precisamente para a Vila Falcão.
“Eu até já ouvia alguma coisa em São Paulo, mas foi na Vila Falcão que um grupo de amigos me apresentou a um clube da época, onde só rolava música black. Escutei os meus primeiros raps e já comecei a comprar vinis e a fazer festinhas nas garagens das casas”, recorda.
O DJ se autodefine como um apreciador e degustador musical. Segundo ele, um DJ vive de pesquisas, não só do universo hip hop. “Eu, por exemplo, ouço outras vertentes e pesquiso. Um DJ é um degustador musical, que lança as músicas do momento, além de preservar as antigas, para que não caiam no esquecimento”, descreve.
•Evolução
Ao longo das duas décadas e meia de experiência com o movimento cultural das ruas, Ding acredita que uma evolução positiva pode ser destacada com firmeza. “Há 25 anos, eu não imaginaria que estaríamos como hoje”.
Para ele, o apoio e divulgação da mídia, de maneira geral, têm ajudado a tirar o velho olhar de marginalização sobre o hip hop. “Essa é a maior diferença”.
O DJ ainda acrescenta que a população tem abraçado o estilo. De acordo com ele, no passado, shows de rap só recebiam integrantes da “modalidade”, enquanto hoje o movimento tem atraído famílias inteiras para as festas. “Basta ver a Semana Municipal de hip hop, onde colocamos de 60 a 70 mil pessoas no Parque Vitória Régia. É lindo”, define.
•Na luta
Entretanto, Ding lembra que ainda não é possível viver dignamente só do hip hop, ele já até tentou, mas precisa dedicar parte do seu tempo a outras atividades profissionais. Atualmente, ele também atua como consultor externo.
“Vou dar um exemplo da nossa dificuldade. O cara compra um notebook e cobra R$ 50 para fazer uma festa. Já o outro que pagou de R$10 a R$15 mil nos equipamentos cobra R$ 500 para animar uma festa e as pessoas acham caro. Isso acontece em todas as profissões, na verdade. Mas estamos na luta pela valorização do DJ”, finaliza.
Movimento tem apoio da Secretaria de Cultura
A Prefeitura de Bauru, através da Secretaria de Cultura, apoia o movimento hip hop na cidade há alguns anos. E, desde 2013, a Semana do Hip Hop tornou-se lei (Lei 6358) e também parte oficial do calendário de eventos de Bauru.
Os cachês de alguns dos shows contratados, estrutura de palco, som, banheiros químicos, contratação de seguranças e mão de obra de servidores durante a programação da Semana do Hip Hop são bancados pela Secretaria de Cultura, segundo comenta o Diretor de Departamento de Ação Cultural de Bauru, Jair José Marangoni.
“Há o Projeto Rap Hour, realizado desde 2013 e que acontece gratuitamente no Centro Cultural uma vez por mês, realizado pelo Ponto de Cultura Acesso Popular, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura. A iniciativa tem apoio da Frente Feminina de Hip hop de Bauru e da Rede Nacional das Casas do Hip Hop”, acrescenta Jair.
Ainda há o Projeto Ensaio Hip Hop, que acontece desde 2011. O projeto é realizado nos bairros periféricos de Bauru, oferecendo infraestrutura mínima de som e palco para que grupos de rap das comunidades possam fazer suas apresentações.
“A iniciativa é do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop, com parceria da secretaria e apoio da Frente Feminina de Hip Hop de Bauru e da Rede Nacional das Casas do Hip Hop”, enumera o diretor.
Casa do Hip Hop
Ainda de acordo com Jair, a prefeitura manteve a sede da Casa do Hip Hop por muito tempo na rua Cussy Júnior, que por uma série de motivos precisou ser entregue, deixando o movimento sem casa. Em 2015, após um longo período de negociações e busca por outro imóvel, a Cultura instalou a Casa do Hip Hop no segundo andar da antiga Estação Ferroviária, local que foi reformado e que hoje é a sede do movimento.
Diversos outros projetos integram o apoio hip hop, conforme enumera Jair. A parceria com a ONG Wise Madness na periferia, com o Projeto “Impactar com Arte”, é apresentada em diversas escolas e praças e realiza oficinas e workshops envolvendo oficinas culturais de teatro, street dance, breaking, rap...
“São ações que trazem através das artes lições de vida e incentivam os jovens a se afastarem de tudo aquilo que tem corrompido nossa sociedade”, enfatiza.
Arena Itinerante é novidade
Um novo projeto da Secretaria Municipal de Cultura em parceria com a Produtora Multicultural Força Interior chegou em junho com o objetivo de levar apresentações de hip hop e rap para diversos bairros da cidade. Trata-se do “Arena Itinerante”.
O evento usa o caminhão-palco para as apresentações mensais. A primeira foi na região do Geisel. As próximas edições serão no Parque Santa Edwirges (22/07); Jardim Nicéia (19/08) e Praça Rui Barbosa (16/09). Em caso de chuva, o evento será cancelado.
O Projeto Arena surgiu no início dos anos 2000, e agora, uma releitura que herda seu nome, acrescenta a ele a “itinerância”.
| Renan Casal |
| Douglas Reis |
| Eventos realizados na Estação Ferroviária pela Casa do Hip Hop |
Confira o vídeo: