10 de julho de 2026
Regional

Polícia tenta entender o que levou adolescente a matar irmão de 9 anos

Tisa Moraes e Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 5 min

Vitor Oshiro
Comoção: corpo do menino foi velado em uma pequena igreja evangélica no Jardim Alvorada

Em meio à comoção e incredulidade, o menino de 9 anos assassinado enquanto dormia na madrugada do último sábado (25) foi velado e sepultado na manhã desse domingo (26), em Lins (102 quilômetros de Bauru). Seu irmão, de 14 anos, que confessou ter estrangulado o garoto, teve a apreensão confirmada pela Justiça neste domingo e já foi transferido para uma cela especial na Cadeia Pública de Barra Bonita.

A Polícia Civil, no entanto, ainda está longe de qualquer conclusão e busca desvendar, entre outros elementos, as motivações para o crime e o grau de envolvimento de um primo de 15 anos que teria presenciado a cena.

O adolescente admite que foi convidado a participar do assassinato, tendo sido procurado pelo irmão da vítima, na mesma madrugada em que a criança foi estrangulada.

O primo, contudo, nega ter acompanhado o suposto autor do crime até sua casa, onde vivia com a mãe, com o irmão morto e outra irmã de 8 anos. Por outro lado, o delegado seccional de Lins, Wellington Martinez Hernandes, afirma que testemunhas viram o adolescente deixar o local do assassinato durante a madrugada, horas antes de o corpo do menino ter sido encontrado, na manhã do último sábado (25).

O irmão que confessou a responsabilidade pelo crime também garante que o primo assistiu ao estrangulamento da criança. Hernandes diz que o primo, também custodiado pela Justiça em Barra Bonita, já se encontrava em liberdade assistida, com passagem policial anterior por agressão.

Atualmente, o jovem passava as noites na casa de uma tia, próxima à residência da vítima, no bairro São João, mas já chegou a dormir em um cemitério. É possível que o jovem (o primo) tenha envolvimento com drogas, segundo o delegado seccional, que concedeu entrevista coletiva ontem sobre o caso. “Já o irmão que confessou o assassinato não teria nenhuma relação com drogas. Ele diz isso e a família confirma”, complementa Hernandes.

Controverso

Em seu depoimento à Polícia Civil, o primo, que figura como investigado no inquérito, relatou que o irmão da vítima queria matá-la em função de um aparelho celular. “Disse que o menino de 9 anos havia trocado o telefone do irmão por uma bicicleta”.

O adolescente que assume ter cometido o crime, no entanto, negou a versão e, conforme o JC publicou nesse domingo (26), alega ter agido motivado por vozes que o ordenavam a matar barbaramente seu irmão mais novo.

Diagnóstico

À polícia, a mãe confirmou que seu filho mais velho já havia relatado a ela a ocorrência dessas vozes e até a visão de vultos.

“A família chegou a buscar ajuda espiritual, entendendo que isso pudesse resolver o problema. Há a necessidade premente de avaliações psiquiátrica e psicológica para sabermos se ele tinha consciência sobre o ato”, conta o seccional.

Os nomes de nenhum dos envolvidos está sendo divulgado em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Dor e fé

Um bom menino, querido por amigos e pela comunidade em que vivia. Assim descreviam os amigos e vizinhos da família do garoto de 9 anos durante seu velório, que aconteceu em uma pequena igreja evangélica de Lins até as 10h da manhã desse domingo (26), quando o corpo foi sepultado.

Parentes da criança não quiseram conversar com a reportagem e pediram para que a equipe do Jornal da Cidade não acompanhasse o cortejo fúnebre até o Cemitério da Saudade, no Jardim Alvorada, onde foi enterrado. A solicitação foi respeitada.

No velório, predominava a consternação. Nos minutos finais, uma oração e um cântico religioso levaram aos prantos os familiares mais próximos do menino. Sua mãe precisou ser amparada para deixar a igreja.

Acusado ficou segurando corpo no colo pela manhã

Vitor Oshiro
Wellington Hernandes enfatizou situação de vulnerabilidade da família e, agora, solicita avaliação psiquiatra do adolescente

Chamou a atenção do delegado seccional Wellington Martinez Hernandes a naturalidade com que o irmão mais velho relatou o assassinato do menino de 9 anos. Em momento algum, chorou ou demonstrou arrependimento, segundo a polícia. “Relatou, inclusive, que, quando a polícia chegou à casa da família, as vozes teriam dito que ele fez a coisa certa e, agora, deveria matar o primo e se matar”, disse Hernandes.

O adolescente contou que, após assassinar o irmão, foi dormir. Por outro lado, segurou no colo o corpo já enrijecido do garoto quando sua mãe o encontrou morto, no sofá da casa, onde dormia todas as noites. O rapaz só admitiu a autoria do homicídio na delegacia, após o depoimento do primo.

O pescoço da vítima apresentava marcas de esganadura com o uso das mãos e outros sinais que foram analisados pelos peritos do Instituto Médico Legal (IML), que ainda não divulgou o laudo necroscópico. O suposto autor do homicídio revelou que a criança não conseguiu reagir. “Ele falou que o irmão só tremeu.”

O delegado não descarta a utilização de fios para a execução do crime. “Na casa deles, a gente viu muitos cabos, celulares quebrados, baterias. Alguns objetos foram apreendidos. A mãe trabalha com lixo reciclável”. Durante a entrevista coletiva, Hernandes frisou as condições de vulnerabilidade social e desestrutura em que vivem a família.

De acordo com o seccional, apesar de matriculado, a frequência do adolescente de 14 anos na escola era irregular. O pai da vítima, que não é o mesmo do irmão que admitiu a autoria do assassinato, mora em Bauru e foi a Lins no sábado ao saber da morte do filho.