Enquanto os políticos investigados pela Lava Jato vão, sistematicamente, negando a sua participação na sangria da Petrobras, e nem se envergonhando quando são indiciados, ou mesmo, declarados réus, as empresas envolvidas começaram a declarar a sua culpa e a assumir uma postura de decência. Além da Andrade Gutierrez, agora foi a vez da Odebrecht. Em comunicado aos seus funcionários, o presidente Newton de Souza, que substituiu Marcelo Odebrecht, faz uma autocrítica dizendo: “Falhamos por termos acatado o convívio com práticas incompatíveis com padrões de conformidade e governança empresarial nas relações entre setores público e privado. Não interessa se fomos mais ou menos suscetíveis a pressões externas, pois fomos complacentes”.
Também como fez a Andrade Gutierrez, ela está fechando acordo de delação premiada para negociar o acordo de leniência, que permite continuar podendo firmar contrato com os setores públicos. Para tanto ela não só reconhece a culpa, como se prontifica a colaborar com a Procuradoria Geral da República, nas investigações, e se compromete com a Controladoria Geral da União a seguir os padrões de conformidade legal e ética. No comunicado o presidente diz: “Em respeito aos nossos mais de 130 mil integrantes, alguns deles tantas vezes injustamente retratados, às suas famílias, aos nossos clientes, às comunidades em que atuamos, aos nossos parceiros e à sociedade em geral, manifestamos nosso compromisso com o país. São 72 anos de história e sabemos que temos que avançar por meio de ações práticas, do diálogo e da transparência”.
A indignação de que fomos tomados pela roubalheira do dinheiro público (do povo), com a promiscuidade do governo com as empresas, nosso primeiro impulso é de repudiar a todos. Contudo, se desejamos nos ver livres dos governantes corruptos, melhor é que vejamos com simpatia uma punição que penalize as empresas, mas que as deixe sobreviver, desde que em padrões de decência. Não seria bom para o país a perda de sua capacidade produtiva e o lançamento ao desemprego de muitos milhares de trabalhadores. A ocasião é de diminuir e não de aumentar os mais de 11 milhões de desempregados. Esse é o papel do acordo de leniência, que só trará bons resultados com a mudança de postura tanto da empresa como do governo. Ambos devem ser limpos da lama em que se atolaram para bem cumprirem as suas obrigações..
Essa visão ideológica de ‘miragem no deserto’, que infelizmente ainda persiste em muitos que defendem a volta do governo lulopetista, inverte a imagem, substituindo o ruim pelo bom. Assim é que é visto como bom a redução da Petrobras de 4ª maior petroleira do mundo a uma das menores; o sucateamento da indústria nacional e os milhões de desempregados; os hospitais e prontos socorros em péssimas condições de funcionamento e o aumento daqueles que perdem os planos de saúde por ficarem desempregados; as escolas do “pátria educadora”, das regiões mais pobres, em condições vergonhosas, sem sanitário, sem carteiras, sem merenda, mas com goteiras; a inflação corroendo o salário desemprego; o agravamento da insegurança pública e, por último, a Lava Jato caçando os seus líderes. Se tudo isso merece voltar, então estamos irremediavelmente perdidos.
Existem coisas boas em iniciativas que avançam muito lentamente e que poderiam melhorar o mundo, dispensando essa briga ideológica de marxismo e capitalismo. Uma delas é o Pacto Global da ONU, que o presidente da Odebrecht diz estar com o processo de adesão bem avançado. Fundamentado em 10 princípios sobre Direitos Humanos, Trabalho, Meio Ambiente e Contra a Corrupção, é uma iniciativa voluntária que procura fornecer diretrizes para a promoção do crescimento sustentável e da cidadania, por meio de lideranças corporativas comprometidas e inovadoras. No dia 19 de maio último a Rede Brasil do Pacto Global das Nações Unidas realizou a primeira reunião da Comissão de Engajamento e Comunicação (CEC).
O Brasil também faz parte do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), que oferece aos parceiros apoio técnico, operacional e gerencial, por meio de acesso a metodologias, conhecimentos, consultoria especializada e ampla rede de cooperação técnica internacional. A Embrapa, com sua ajuda, vem desenvolvendo a implantação de uma variedade de maracujá comercial na Caatinga. Essas coisas podem melhorar o mundo sem ranhetice ideológica.
O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.