Quem dá na cara, leva no nariz. Quem muito ventou, que espere a tempestade. Quem com ferro feriu, ferrado será. Nesse vai e vem, ninguém devendo fica. Aquele que bateu apanha e quem apanhou bate também. Pronto, justo empate, zero a zero ou um a um.
O bateu-levou é uma síntese perfeita. Primeiro na sonoridade: lá e cá. Depois, no justo ritmo do ping-pong: o que vai tem que voltar. E há, ainda, aquela pérola popular: “Na cara que mamãe beijou, vagabundo nenhum põe a mão”. Quem o troco dá, lava a alma e não leva desaforo pra casa.
Eu sei que não foi nada disso que Cristo pregou no célebre Sermão da Montanha. Exatamente o contrário: “...se alguém te ofender com um tapa na face direita, volta-lhe também a outra.” Mais uma sublime lição do Mestre. Quem a outra face oferece evidencia superioridade de espírito e perfeito domínio das emoções, além de dar ao agressor a oportunidade do arrependimento.
Contudo, ainda que eu esteja correndo o risco de blasfêmia ou de heresia, insisto em situar esse bateu-levou no tempo da resposta instintiva. É o que ocorre quando não se dá ao estapeado o mínimo tempo de reflexão. Não custa lembrar que refletir só é possível havendo cabeça fria. Se for um tapinha - e um tapinha não dói - até consigo entender a lição de a outra face oferecer. Mas, quando se desfere na cara do coitado um murro, daqueles que resumem todas as mágoas e frustrações mundanas, fica difícil cobrar dele qualquer coisa que não seja a instintiva reação violenta. Pudera, não dá tempo sequer de lembrar que existe uma segunda face. Explodindo a bofetada, desaparece o homem e toda a cultura do homem, fica só o bicho espumando, nada além do que a ferocidade do troco.
Como pedir àquele coitado, cujo pior calo foi violentamente pisado, que não empurre o pesado agressor? Como exigir-lhe que ofereça biblicamente o outro calo? Também não se pode esperar de uma violenta martelada no dedo um inspirado “Virgem Maria!”. No mínimo, o infeliz berrará, com toda a força dos pulmões, uma solene homenagem à mãe de um cristão qualquer. Não sei não, mas acho que a humanidade não está suficientemente preparada para assumir tão nobre comportamento bíblico. Nosso vaidoso espelho, que é a nossa cara, quebrado repentinamente pelo tapa, retira-nos qualquer possiblidade de pensar na segunda face.
Lerdo como sou, escrevi tudo isso, mas não disse, ainda, o porquê desta crônica. Demorei muito na introdução e me perdi. Não introduzi o que de fato quero dizer. Então, sem mais delonga, confesso que ando apanhando muito na cara e na alma sem devolver o tapa recebido. É que, no momento da pancada, fico praticamente em estado de choque. Apalermado, apanho e nada respondo. Claro que estou falando do tapa-palavra, da sutil agressão verbal, que bate como se não o tivesse feito. Incrível como as pessoas se especializaram nessa arte de ofender, valendo-se de perífrases, metáforas e, sobretudo, da terrível ambiguidade. Batem sorrindo, ofendem abraçando. Um exemplo? Bem no meio de uma conversa afável, quando estou certo de que tudo é alegria e amizade, a boca maldosa me dá uma alfinetada tão perversamente pensada, que me deixa sem a mínima reação. É o tapa inesperado.
Então, perco o chão, perco o céu e, principalmente o inferno, que naquele momento me seria de grande valia, e nunca dou o troco necessário. Me dá um branco paralisador, fico um perfeito idiota apanhando nas duas faces. Só depois, aliás muito depois, já em casa, vem-me à cabeça a resposta prontinha, perfeita, redondinha, que eu deveria ter dado e não dei. Emputeço-me por ser assim tão retardado. Já tentei sair dessa letargia, não consigo, continuo apanhando e perdendo a oportunidade do revide. Em mim, desgraçadamente, o “bateu-levou” virou o “bateu-levei”. Com o tapa ardendo na cara e carregando o peso do mundo nas costas, volto humilhado. Levo o desaforo in-tei-ri-nho para casa.
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - curso_romag@uol.com.br