| Samantha Ciuffa |
| Artista plástica bauruense Viviane Mendes deu um toque de arte ao barraco de Caetano |
A história de vida de Eliane Caetano, 35 anos, parece tão surreal quanto à arte que hoje decora a frente de seu barraco, no Parque Jaraguá. Além de lá, a imagem do gato, produzida por uma artista bauruense, também pode ser vista em outras 20 regiões de Paris.
A intervenção artística, realizada nesta segunda-feira (4) no lar dele (que nasceu “ela”), foi apenas mais um capítulo de uma história de solidariedade que teve início há duas semanas.
Na ocasião, o grupo de voluntários Esquadrão do Bem se reuniu via Facebook para ajudar Caetano, que vivia sobre dois paletes com plásticos e algumas cobertas enroladas em uma viela de terra no bairro.
Com a ajuda, ele ganhou um lar e a esperança de viver um pouco melhor, aliás, abrigado do frio.
Pedras pelo caminho
A “vida dura” de Caetano começou cedo. Aos 12 anos, após a perda da avó, a tristeza e a falta de expectativa se transformaram em uma rotina de vícios, que logo chegou ao crack.
“Minha mãe foi assassinada quando eu tinha seis meses. Eu morava com a minha avó, aqui na rua de cima. Cheguei até a trabalhar como empacotador quando estava, mas depois que entrei nisso [mundo das drogas], acabei indo morar na rua”, conta.
Aos 35 anos, Caetano esbanja energia, mas o semblante, ao menos dez anos mais velho, não esconde todo o sofrimento. Sem parte dos dentes na boca, resultado do vício, ele cita seu maior sonho. “Agora, eu queria mesmo é conseguir uma internação e ser tratado por um odontologista”, acrescenta, cabisbaixo e aos prantos.
Figura conhecida e amiga da comunidade local, Caetano mostra jeito com as crianças na maior parte do tempo em que conversa com a reportagem.
Mesmo com pouco, ele diz cuidar também de ao menos cinco cachorros em seu barraco de um cômodo, construído há duas semanas com ajuda de voluntários.
Mãos solidárias
Feito de caibros e madeirite, o barraco de Caetano ganhou tijolos como piso em seu interior. Uma torneira também acoplada garante a ele uma espécie de “bica” para se limpar e consumir água limpa.
“Agora, estamos em busca de doações de ao menos 40 metros de fiação para instalar luz ali”, ressalta Tatiana Calmon, membro do Esquadrão do Bem e idealizadora da ação.
Ela conta que a ajuda surgiu enquanto o Esquadrão realizava algumas doações na rua de cima da viela de terra onde Caetano e mais uma dezena de famílias mora.
“Ele começou a brincar e convidou para ir conhecer o ‘apê’ dele. Quando vi, não tive dúvidas. Iniciei no mesmo dia um movimento no Facebook”, conta Tatiana.
Em uma semana, ela conseguiu doações e voluntários. O barraco foi construído com ajuda de seis pessoas ligadas a um movimento que luta pela reforma agrária no País.
“Fizemos uma adaptação de um projeto que uma professora de arquitetura da Unesp nos enviou. Em cinco horas, estava tudo erguido”, detalha Tatiana. Por questões de segurança, o endereço não será informado na reportagem.
Mais cores
Nesta segunda-feira, o local ganhou toque de cultura pelas mãos da artista plástica bauruense Viviane Mendes, que aplicou, na parede da frente do barraco, a imagem de um gato, chamado de “Vivi et le chat”. O gato faz parte de uma coleção de obras que ela gravou nos muros de 20 locais em Paris, no ano passado, durante uma exposição na Europa.
“Eu precisava colaborar de alguma forma com a história do Caetano. E aqui, na favela, ninguém vem trazer arte”, comenta Viviane.
“Na verdade, a realidade deles é tão surreal quanto à arte. Espero que esse gato traga um pouco de cor, boas energias e expectativa a eles”, finaliza a artista.
Serviço
Para ajuda e doações ao Caetano, o contato é (14) 99706-9667 (Tatiana).